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Incursões

Instância de Retemperação.

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13
Abr19

Diário Político 215

d'oliveira

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O gato escondido com o rabo de fora

d'Oliveira fecit (12/13 de Abril)

 

O dr Centeno, excelso Ministro das Finanças, resolveu dizer ao Financial Times o que não diz aos jornais portugueses. Presumo que ele é mais fluente em inglês do que na pátria língua, coisa que, aliás, já me tinha ocorrido pois, sempre que o ouvia. Notava-lhe alguma dificuldade de expressão.

Em poucas palavras, afirmou que entre a política económica e financeira do anterior Governo e a do actual não houve mudanças dramáticas. Deu-se com uma mão o que se retirou com outra (impostos indirectos, por exemplo).

A riqueza líquida do indigenato local apenas aumentou na medida (e nem sequer na exacta medida) em que aumentou a do resto da Europa.

Nem podia ser de outra maneira, mesmo se o país contou com um Banco Europeu complacente e generoso, com o incremento (importante) das exportações e com o maná turístico.

(e não se refere a baixa do investimento público e a pouca atractividade denotada pelo investimento estrangeiro e, muito menos, a política de cativações que redundou num espinhoso problema no capítulo da saúde, por exemplo).

As razões desta súbita “autocrítica” de Centeno prendem-se com algum “arrefecimento” generalizado da economia europeia e nacional, com a impossibilidade de resolver os problemas salariais de certos, bastantes, corpos da função pública (professores, militares, médicos e enfermeiros etc.) como parecia deduzir-se do programa de governo e, sobretudo, do que a “geringonça” poderia pressupor. Por isso, num último momento, viu-se o pobre diabo do Planeamento e Infra-estruturas avançar com salvas de pólvora seca sobre faraónicos projectos públicos que tinham a vantagem de ser sempre futuros, muito futuros. De todo o modo, as promessas estavam feitas e o Governo que depois viesse teria de se entender com os portugueses. Isto se não se apostasse na proverbial memória curta dos eleitores cuja utilidade (escassa) é servirem de carne para canhão em épocas eleiçoeiras. Quando as coisas acalmarem, na hipótese provável de um novo Governo capitaneado pelo PS, o sr. Pedro Marques estará longe, em Bruxelas.

Não se nega a Centeno as qualidades que tem e não serão poucas. E são elas, justamente, o que fundamenta a sua cautelosa navegação sempre à vista da costa. Pessoalmente, acho que teve uma cedência infeliz: permitiu que o IVA sobre a restauração fosse revertido. Conviria lembrar duas coisas (e ambas previsíveis no momento em que a medida foi levada a cabo): as empresas não baixaram os preços mesmo quando o IVA baixou (recorde-se que quando ele foi instaurado, praticamente todos os restauradores aumentaram consequentemente os preços); depois, é bom lembrar que num país onde o turismo externo crescia exponencialmente a medida foi apenas (ou sobretudo) boa para os visitantes estrangeiros. É duvidoso que a plebe nacional tenha sofrido especialmente com o agravamento e mais duvidoso ainda que do alegado e inexistente desagravamento, tivesse obtido algum benefício.

Sei que o sr. professor doutor Cavaco Silva se referiu a este ponto mas isso não me impede de o usar. De resto, não sei se o dinheiro que se perdeu absorveria parte do desastre na Saúde. De todo o modo, quem ganhou com esta medida foram de certeza os turistas e todos os que sempre puderam dar-se ao luxo de frequentar restaurantes. A minha diligente empregada doméstica (que aliás ganha bem mais do que o salário mínimo) seguramente que não foi a correr empanturrar-se nalgum mesmo pequeno restaurante.

A Oposição bem que bramia, do poço fundo para onde foi atirada, que a austeridade continuava. Mas, em Portugal, já o disse repetidas vezes, as oposições nunca são ouvidas seja qual for o Governo em funções. Por cá as oposições são sempre más, malignas, moscovitas ou serventuárias do mais infrene capitalismo, fascistas até. Ser da oposição não é uma sina mas tão só um traço de carácter. Eu ainda sou do tempo da “Outra Senhora”, dita a “oposicrática”, e recordo com desprazer não só as bastonadas que recebi nos magros e juvenis ombros mas sobretudo o desprezo a que eram votadas todas as opiniões que não respeitavam o Estado Novo.

O 25 de Abril não mudou uma vírgula neste capítulo, basta ver e ouvir o que os partidos dizem dos adversários, o uso imoderado de expressões como ética republicana, povo, democracia e reacção. A reacção é como a Hidra de Lerna, mas como já não aparece nenhum Hércules, continua a pavonear-se por aí como sustenta o PC que mantem, sem originalidade mas convictamente, que existe na pátria uma conspiração sem fim contra as políticas “patrióticas e de esquerda” e contra o povo que o PC entende representar sozinho (mesmo se esse povo, eventualmente ingrato, só lhe conceda 10% dos votos). A Direita (bicho de que todos fogem e ninguém assume) acaba nas franjas pouco edificantes de um par de grupúsculos que detestam imigrantes, sobretudo os mais escuros, homossexuais (de todos os tipos) e democratas. Além disso, juntamente com alguma alegada Esquerda, não gostam da Europa, do euro e são férreos defensores da “soberania nacional”, esdrúxula ideia que o PC (esquecido da célebre “soberania limitada” propagandeada por Brejnev e respeitada pelo dr Cunhal, que reduzia os países “socialistas” e os seus partidos únicos e dirigentes a uma extensão desinteressante da URSS).  

O dr. Centeno fez que sim com uma mão enquanto com a outra ia cortando eito e forte e feio. Agora, perto da hora da verdade, incapaz de pagar todas as promessas de bacalhau a pataco, veio friamente lembrar que o dinheiro não é elástico e que a mais elementar prudência obriga a dizer não. A entrevista no jornal estrangeiro serviu para avisar os mercados internacionais que isto por cá não anda sem rei nem roque. E que podem, apesar de tudo, confiar no actual Governo que poderia parecer vermelho por fora mas que é verde, verdinho, por dentro. Os protestos dos aliados na Geringonça serão sempre tomados por mera campanha eleitoral. Aliás, diga Costa o que disser, se necessário fosse, havia sempre a hipótese de “geringonciar” à direita. O “centrão”, ou o que lhe quiserem chamar, está ali para as curvas, sobretudo depois de quatro anos de amargo jejum e abstinência.

O dr Centeno foi saudado por Schauble o temível ministro das finanças alemão que o apelidou de Cristiano Ronaldo. O elogio não era fingido, como se vê. Nem fingidos foram os votos para a presidência do Euro-Grupo, mesmo sabendo-se que a grande maioria dos eleitores vinha do campo conservador. Estes cavalheiros (como o dr Cavaco Silva em seu tempo) nunca se enganam. E promover um ministro de um pequeno e periférico país (como também já ocorrera com a eleição de Durão Barroso...) evita problemas entre os restantes. Centeno era, é, um excelente menor denominador comum e mínimo divisor também comum. Com a obrigatoriedade de ter, como Janus, duas caras: a europeia e a nacional, nossa.

As boas almas do costume rejubilaram com a eleição de Centeno. Que bom, que agora sim, que já nos respeitam por esse mundo fora que voltaram os heróis do mar e outras banalidades do mesmo teor .

Houve mesmo quem adivinhasse um futuro brilhante para a pátria tristonha e benefícios a granel para Portugal. A iliteracia política, entre nós, não tem limites ou, se os tem, alguém se encarrega cuidadosamente de os obliterar.

 

Apêndice que não tem nada a ver com o antecedente: os líderes europeus deram à sr.ª May alguns meses para ele sair do beco sem saída em que se meteu. Ela e o parlamento inglês, diga-se... Há porém alguns pequenos escolhos. O primeiro diz respeito à data das eleições europeias. Nessa altura ou os britânicos vão a votos ou saem de todo. Se forem a votos, os deputados que elegerem poderão causar vasto sarilho no Parlamento Europeu. Por outro lado, os “brexiters” uivarão à simples menção de votar para um aboinávl parlamento que não querem. Finalmente, alguém credita que emOutubro (já com votos e tudo) alguma coisa diferente poderá suceder?

A pobre sr.ª May aguentou estoicamente e sozinha seis longas horas numa sala enquanto os 27 estatuíam sobre o seu pedido. Pior do que isto só o blitzkrieg!

Por cá há comentadores que enchem a boca com a “mais velha aliança europeia ou do mundo”. Temos pago essa aliança bem duramente e sempre al contado. E estamos a pagar, todos, este folhetim desde há meses. Estão em jogo a permanência e o empregos de 400.000 emigrantes portugueses lá e de 40.000 reformados ingleses cá e, por muitos planos de contingência que se desenhem ninguém garante quer para uns quer para outros uma solução razoável e digna.  

 

Nota: este texto está pronto desde ontem mas razões fúteis ealguma preguiça só o trazem à dvidosa luz destedia mais que cinzento hoje. Entretanto, um comentador do Público produz algo com algumas semelhanças neste sábado. Não me copiou, claro e muito menos eu o copiei. Coincidimos, apesar de claras divergências ideológicas, numa mesma conclusão. Centeno tem a língua bífida!

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