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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

30
Abr19

Diário Político 216

d'oliveira

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A inestimável ajuda do Poder ou

Arre que é preciso ser parvo

por d'Oliveira  que muito se divertiu (e bem se lixou) naqueles tempos tumultuosos

 

Que os leitores poupem durante alguns minutos a pedra que poderiam querer atirar-me.

Vou entrar no terreno minado de uma quase “contra-história” da crise de 69 em Coimbra e explicar porque acho que mais, ou tanto quanto, do que a acção dos estudantes, foi decisivo para o êxito da greve o delirante conjunto de decisões do governo, da Reitoria da Universidade e das autoridades policiais.

Comecemos pelo mais simples e, de certo modo o inicio de tudo: a atitude do Presidente da República. Confrontado com um pedido respeitoso (nunca é demais insistir) do Presidente da Associação Académica para intervir na cerimónia de inauguração do novo edifício das Matemáticas teve duas respostas contraditórias. Em primeiro lugar, era costume ouvir-se o Presidente da AAC neste género de cerimónias. Depois, havia indícios (fortes, fortíssimos) de que o milhar de estudantes presentes dentro e fora da sala não aceitariam que o seu representante (eleito meses anos por fortíssima – esmagadora! – maioria, após três anos de comissões administrativas integradas por estudantes ligados à Direita pura e dura ((mesmo residual naqueles tempos de mudança)) que nunca conseguiram ter apoio na massa associativa nem, aliás, fizeram por isso qualquer esforço) não tivesse uma palavra a dizer, sobretudo na inauguração de um edifício que já chegava com um atraso de dez anos.

Quem aconselhou o Almirante Américo Thomaz que, aliás, num primeiro momento, pareceu aceder ao pedido de intervenção, respondendo que “primeiro falaria um qualquer Ministro presente”? O Reitor? O Ministro da Educação, um certo Hermano Saraiva que, muitos anos depois se distinguiria com um programa popular sobre a História e as histórias de Portugal? A polícia política (e ao tempo em Coimbra era chefiada pelo inspector Sachetti que mais tarde ascenderia à direcção nacional da PIDE /DGS, e que era considerado “muito hábil” na detecção e prevenção de “zaragatas académicas”)? Alguns círculos da extrema Direita coimbrã inspirados, entre outros, pelo Professor de Letras Miranda Barbosa, considerado uma espécie de guru dos restos do “movimento Jovem Portugal” ainda presentes em Coimbra?

Na verdade, essa inauguração acabou num tumulto e numa gritaria inconcebíveis que saudavam a retirada intempestiva das autoridades logo que terminou a arenga do Ministro já citado.

Um segundo acto decorreu no mesmo local. A sala voltou a encher-se e Alberto Martins leu o discurso que trazia preparado. Cerca do meio dia, ou pouco depois, os manifestantes destroçaram a caminho do almoço e o dia pareceu acabar sem sobressaltos maiores.

O 2º acto desta jornada ocorre já à noite. A PIDE detém o presidente da AAC. A notícia espalha-se num ápice e provoca pequenas manifestações que a polícia dissolve como de costume: à bruta.

No dia seguinte, a Universidade está em polvorosa. A comoçãoo é geral e as assembleias sucedem-se até uma Assembleia Magna que exige a libertação de Alberto Martins e proclama um primeiro “luto académico” (batina fechada, insígnias académicas recolhidas e, o mais forte, greve às aulas). A adesão é enorme sem sem absoluta. Todavia isso já é uma vitória importante do movimento em crescendo desde a eleiçãoo da nova direcção da AAC depois de três tristes anos de comissões administrativas entregues à Direita estudantil mortiça e incapaz de mobilizara esmagadora maioria dos estudantes.

(De resto o resultado destes três anos de completa inabilidade política foram evidentes. As eleições para uma nova direcção foram ganhas com uma fortíssima percentagem pela Esquerda, melhor dizendo pela aliança de vários grupos que iam desde uma fracção do CADC até aos pequeníssimos grupúsculos que despontavam. Na sua grande maioria, os eleitores eram pouco politizados ou politicamente moderados. O que os unia era ainda uma certa ideologia de liberdades académicas e estudantis, uma ideia romântica da Academia (quisesse isto dizer o que quer que fosse). Tudo fundido no horizonte juvenil, na tradicional rebeldia de jovens gerações que já não respiravam o ar viciado do fim de regime que se vivia e, muito menos, a propaganda ultra-nacionalista do apelo à defesa da pátria ameaçada nos sertões africanos.

Junte-se-lhe um facto indiscutível: a universidade de Coimbra vira quase duplicado o número de estudantes (em 1960 eram 5.000, em 1969 passavam os 8.000. Mais, e mais significativo: a percentagem de raparigas crescera enormemente em todas as faculdades, Direito incluída)

Entre 18 de Abril e 28 de Maio, assiste-se em Coimbra a um estranho pas de deux: o Poder (seguramente dividido quanto à estratégia a adoptar para sufocar ou desarmar a “crise” alterna as ameaças com alguma passividade. Se é verdade que há processos disciplinares em curso, não menos verdade é que eles pouco passam do anúncio. A libertação de Alberto Martins ao fim de escassos dias de detenção parece mais um sinal de cedência que habilmente é aproveitado pelos que querem tirar consequências mais alargadas da greve que prossegue com interrupções.

No meio disto tudo, há um actor essencial: o Ministro da Educação, José Hermano Saraiva, que, por vontade própria ou mal aconselhado pelas “autoridades académicas” (Reitor, Senado e Directores de Faculdade), entende, no meio da estranha passividade policial, ameaçar os estudantes. Num memorável e ouvidíssimo discurso televisivo, comina os estudantes (ele fala numa “minoria de arruaceiros”) a voltar às aulas. Lá voltar voltaram mas o tom ministerial e tentativa ingénua ou estúpida de dividir a “Academia” tiveram o resultado oposto: as chamas reavivaram-se e a fogueira tornou-se mais intensa. A crise estaria em banho maria mas este ia progressivamente tornando-se mais quente. Não só as ameaças de processos e castigos se repetiam e precisavam como também, paralelamente, a resistência estudantil se afirmava e fortalecia. O exemplo mais evidente (e que devia ter alertado os responsáveis ministeriais que desconheciam ou não levavam a sério os humores da “Academia”) foi a decisão de anular a “Queima das Fitas”, festa maior e mais consensual dos estudantes. A decisão partiu das diferentes comissões eleitas pelos quartanistas das faculdades (isto é de comissões totalmente independentes da Associação Académica e profundamente ligadas ao núcleo duro da “tradição” coimbrã). Isto mobilizou ainda mais os estudantes que queimariam fitas, ou os que iriam buscar o “grelo” ou as fitas largas. Estamos a falar de alunos dos terceiros, quartos e quintos anos das faculdades, e, indirectamente dos “caloiros” que tradicionalmente terminavam o seu ano horribilis na altura dos festejos. Muita gente, portanto. E as famílias orgulhosas que por nada perdiam a oportunidade de ver os “seus meninos e meninas” quase doutores/as. E, finalmente a cidade    que tinha nesta semana grande fartas oportunidades de negócio e de lucro. A aceitação generalizada deste “sacrifício” deveria ter feito tocar as campainhas de alerta. O poder, esse, permanecia surdo depois de já ter provado estar cego. A gigantesca Assembleia Magna de 28 de Maio que decide por mais de 90% dos votos a greve aos exames leva as autoridades policiais a activar um plano de emergência para proteger os estudantes que queiram furar a greve. Entretanto, é mobilizada para Coimbra a brigada da Polícia Judiciária que desmantelara a LUAR. Medida, finalmente, inteligente dado que deixava a PIDE na sombra. Assim, tentava-se “despolitizar” a crise e a greve que o Poder travestia em “crime de assuada”.

“A latere”, seguiram para a cidade forças da polícia de choque e a “Guarda Republicana” começou a mostrar-se fazendo sair tropa montada para as ruas. As fotografias deste estendal de forças repressivas foram excelentemente aproveitadas pela SIPE (Secção de Informação, Propaganda e Estatística) da AAC que as distribuía (vendendo-as) por todo o lado. A essa campanha juntou-se outra igualmente imaginativa: eram editadas dezenas de desenhos satíricos ridicularizando a polícia, o ministro, as forças repressivas e os fura greves. A determinação estudantil era assim acompanhada pela tradicional gargalhada académica. A isto o Poder só conseguia responder (canhestramente ) com notas oficiosas recebidas com tradicional desconfiança por quase toda a gente. Convenhamos que é pouco, muito pouco.

A última (mas também fortíssima) arma estudantil residiu no uso inteligente da “praxe” e na mobilização do “Conselho de Veteranos”, intérprete último e decisivo daquela. Em dois ou três “Decretus”, o CV formalizou o “luto académico”, aboliu as praxes violentas e de rua excepto para os “fura-greves” e deu a bênção tradicionalista a uma luta de contornos praticamente inéditos.

É verdade que a polícia “ocupou” a cidade, que os jipes da polícia de choque se mostraram por todo o lado e que algumas cargas da Guarda a cavalo ocorreram. Mas já era tarde de mais. As famílias tinham retirado muitos estudantes da cidade (o que aumentou as percentagens de grevistas), a vergonha impediu alguns estudantes de pedir ajuda para ir aos exames, as ameaças tiveram efeito idêntico e as prisões de membros dos piquetes de greve aumentaram a indignação e a determinação grevista. Em oito dez dias de falta generalizada aos exames, já nada havia a fazer por parte das autoridades. A repressão já não produzia efeitos dissuasores e o longo período de agitação verificado entre Meados de Abril e fins de Maio tinha desmobilizado qualquer vontade de estudar e preparar exames. A greve, para muitos, uma multidão, de estudantes era, afinal, o meio de justificar perante as famílias um chumbo quase certo.

O passo final da escalada repressiva ocorrido entre Junho e Outubro, consistiu na prisão de mais estudantes, remetidos para os cárceres da PJ por períodos relativamente breves (exceptuando as prisões de Outubro que atingiram meia dúzia de activistas que andaram fugidos todo aquele tempo) e na mobilização para Mafra de meia centena de dirigentes da AAC, dos Organismos Autónomos e de outras estruturas estudantis.

Nada disto, afectou substancialmente a situação de crise e, na verdade, a única solução que o Poder tardiamente tomou foi a de fazer voltar tudo à estaca zero. Assim, até ao fim desse ano, meados do seguinte, regressaram os enviados para Mafra, foram libertados os últimos presos, foram arquivados os processos disciplinares e aberta uma época extraordinária de exames. Paralelamente caiu o Ministro da Educação, o Reitor e os Directores de Faculdade foram substituídos por elementos mais ou menos simpatizantes da causa estudantil ou, pelo menos, aceitáveis pela “Academia”, as ameaças contra a AAC (encerramento, comissão administrativa) foram retiradas.

O regime mostrou-se incapaz de evitar as suas cada vez mais evidentes contradições internas e, por isso, de reagir atempadamente contra algo que poderia ter evitado ou sufocado no ovo. De certo modo, prenunciava a incapacidade de que daria provas quatro ano depois. Exausto, dividido, incapaz de traçar uma estratégia coerente conseguiu contribuir para a politização de algumas centenas de estudantes e para a desafeição de muitos mais. Estes, em poucos meses, foram obrigados a repensar uma táctica de enfrentamento e souberam aproveitar cada indecisão do adversário para criar um movimento cada vez mais unitário de resposta sem comprometer a Associação Académica descentralizando para as Faculdades e para organizações ad-hoc (Juntas de Faculdade) ou outras privativas dos Cursos (delegados de curso, comissões de curso etc...) o agendamento de assembleias, a tomada de decisões parcelares relativas ao boicote a aulas e/ ou jornadas de discussão a substitui-las com ou sem (quase sempre) a presença de professores. Finalmente, e já durante o período de greve aos exames, optou-se por diversificar totalmente os piquetes de greve não os submetendo a nenhum controlo centralizado o que impediu as polícias de, com algumas prisões, desmontarem uma estrutura que, de facto, não existia. Paralelamente este esquema conseguiu outro objectivo: os piquetes nunca foram instrumentalizados pelos proto-grupos políticos que se iam formando ou estavam já formados.

A este propósito, é bom lembrar que estes escassos meses de luta acesa pelas liberdades académicas politizaram de uma forma inimaginável muitas centenas de jovens mas isso é ainda história quase recente.

 

(a vinheta: Maria Fernanda da Bernarda e Osvaldo Sarmento e Castro dois dirigentes de 69 desaparecidos. Esta fotografia que me parece já ter por aqui aparecido, serve para retratar muitos outros que a lei da morte vai ceifando. Dois amigos muito queridos e duas pessoas de bem. Foram corajosos em 69 e assim ficaram pelo resto das suas vidas. )

(este texto andou perdido no computador por razões misteriosas ou, simplesmente devido aà notória incapacidade do escrevente que o teve pronto a 17 de Abril. Sai agora, semi-recuperado depois de ter sofrido um apagão de origem desconhecida mas certamente malévola, renovando os agradcimentos às mais que incompetentes autoridades académicas que facilitaram a vida à malta de 69- É máxima antiga (Sun Tsu) afirmar que o bom estratega aproveita tudo e sobretudo os erros do adversário.)

          

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