Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

15
Fev18

Diário Político 223

d'oliveira

Unknown.jpeg

 

Humores cardinalícios

d'Oliveira fecit 15.2.18

Passado que foi o Carnaval, aguardava com evangélica paciência que o Sr. Cardeal Patriarca comunicasse, urbi et orbe, (enfim, quase, que ele não é papa e, com sorte, nunca será) que a sua declaração sobre a forçosa castidade entre recasados até se resolverem alguns problemas de direito canónico, fosse retificada.

Não foi. Todavia, vários bispos e outros tantos teólogos vieram já a terreiro explicar a sua discordância. A comunicação social tem-se divertido e explorado as declarações de Sª Eminência Reverendíssima. O pópulo católico parece completamente dessintonizado da paternal e surpreendente recomendação de alguém que, para o pecado e para as relações sexuais, parece ser inclemente.

Eu estou fora do rebanho pastoreado pelo Senhor D Manuel. As recomendações do prelado não me afectam. Não só porque já vou adiantado em anos mas, sobretudo, porque tenho por certo que S.ª Em.ia Rev.ima não faz a menor ideia do que é a vida de casado. Nem do que os casais, até os católicos, esperam desse viver em comum. As pessoas casam-se e, no caso em apreço, recasam-se para algo mais do rezar juntos o terço. Para permanecer teoricamente virgens (ou revirgens!) não precisam dessa maçada de ir ao padre e ao registo declarar que querem fazer vida em comum.

O Papa percebeu isso. Todas as Igrejas cristãs o perceberam e só esta “católica, apostólica e romana” ainda insiste no celibato sacerdotal, na castidade a outrance, na exclusão da mulher. Aliás, a perturbante devoção à Virgem em oposição à pecadora Eva (e lembremos o que dizia um famoso doutor da Igreja: a Virgem foi virgem antes, durante e depois do parto. Outro não menos surpreendente descobriu que se “o homem precisava de companhia no Éden, Deus poderia ter criado outro homem” espera-se que para conversar.

Há um par de anos, num irreflectido entusiasmo, o júri do Prémio Pessoa, entendeu distinguir este prelado. Nunca descortinei qual a razão mesmo se o senhor fosse licenciado, quiçá doutorado. Não havia ainda, e não há hoje, obra suficientemente relevante para o chamar a tão alto prémio. A menos que o galardão servisse de base para futura obra que ainda está por levar a cabo.

Esta declaração, totalmente fora da realidade, do século e, provavelmente de qualquer hipóteses de “aggiornamento” eclesial não foi uma graçola de mau gosto mas, eventualmente uma profissão de fé no que a Igreja tem de mais conservador e reaccionário. Que lhe preste.

 

Para ilustrar servi-me de uma máscara de carnaval de Trás os Montes. Convenhamos que além de belíssima contrasta fortemente com a deslavada carnavalice de várias terras nacionais - que as televisões mostraram ad nauseam. Não se entende este entusiasmo por aquele desbarato de toleima e falta de imaginação. Outras televisões, desta feita estrangeiras, insistiram em Veneza. Para que se saiba: o actual carnaval veneziano, além de moribundo é animado a 70% por estrangeiros que pagam fortunas por uma semana com fantasias a rigor mas desoladoramente copiadas das antigas: uma dor de alma ver a cidade lagunar perecer sepultada pelo turismo barato, pela sonolência da razão e pelo mau gosto da cópia. Parece portuguesa!...