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Incursões

Instância de Retemperação.

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20
Fev18

diário político 224

d'oliveira

Notícias fúnebres só depois da pessoa estar morta

d'Oliveira fecit, 20/2/18diário 

 

Assisti, sem entusiasmo nem pesar, aos momentos relevantes do congresso do PSD. Azares de quem vê o telejornal das oito. Também sem qualquer arroubo e escasso, muito escasso, interesse ouvi (e li) os comentadores encartados que pululam nas televisões e nos jornais que compro.

Também não me espantei, macaco velho que sou, com as predições das habituais Cassandras indígenas. Pelos vistos, para a maioria, Rui Rio (RR, como o Rols Royce) está feito. Está morto e não sabe. Herdeiros presumíveis e presumidos disputam os sapatos do defunto.

Este tipo de profecias catastróficas e catastrofistas não é novidade. Ocorreu o mesmo com os inícios da “geringonça” e ela aí está para lavar e durar. Falou-se d tremendas dificuldades com os incorruptíveis PC e BE mas estes rosnam ms não mordem e Costa segue imperturbável. Estará tudo bem? Não, mas enquanto o pau for e vier folgam os lombos.

Voltemos, porém a RR.

Para quem, por sorte ou azar, for do Porto, Rio é um velho conhecido. Três consecutivos e imbatíveis mandatos na Câmara que só abandonou por imposição legal. Uma teimosa resistência a Luís Filipe Meneses, candidato do seu partido que de algum modo ajudou Rui Moreira.

Que história de sucesso foi esta e como começou?

Pois da maneira mais simples e chã. Rio, personalidade importante e incómoda do PSD onde granjeou inimizades de todo o tipo, resolveu num “impulso” longamente pensado, e estudado candidatar-se à Câmara do Porto. Um velho amigo meu dos tempos de Coimbra, imperturbável jogador de bridge e indefectível social democrata, explicou-me a coisa entre duas partidas: a malta lá do partido está contentíssima. Livram-se do Rio que é um chato do catorze e o gajo perde estrondosamente contra o Fernando Gomes. Morre aí e nunca mais chateia a rapaziada.

Eu, que não conhecia Rio de parte nenhuma (aliás nunca lhe falei nem sequer estive com ele em algum sítio) achei a tese interessante e dotada de alguma verdade. Rio fizera a vida negra aos caciques e barões do partido, disciplinara o cadastro interno, em suma esvaziara alguns poderes aparentes que viviam de um clientelismo que se gerava nos momentos prévios a eleições e congressos.

Quando se propôs contra o “vice-rei” socialista do Norte (Fernando Gomes, ex-presidente da Câmara e desafortunado ex-ministro de Guterres) o comentário geral foi que aquilo, aquela candidatura era uma fogachada e um desastre anunciado. Que Gomes ganharia a Câmara quase sem mover o dedo mindinho. Que nem os do PSD votariam em Rio.

Na noite da eleição os foguetes socialistas foram de lágrimas. O “bom povo” tripeiro dera a maioria relativa a RR e Gomes via a sua soberba e a sua desastrada saída do Porto para ocupar uma pasta ridícula sob Guterres premiada rotundamente. Se bem me lembro, nunca mais tentou a vida autárquica. Rio surpreendia amigos e inimigos, desiludia os seus detratores o partido e começava uma carreira bem sucedida na CMP. A “inteligentsia” local odiou-o desde o primeiro momento. Os do futebol, com Pinto da Costa à frente, disseram dele o que Mafoma não disse do toucinho. A população entretanto deu-lhe outros dois mandatos com crescentes votações relegando o PS para uma pobre e vil tristeza. Rio deixou a Câmara com as finanças em ordem, enfrentou o lobby da construção civil que queria parcelas do Parque da Cidade e uma frente edificada do mesmo diante do mar e livrou os portuenses daquele homenzinho ridículo de Gaia que odiava sulista, elitistas e não sei que mais.

Ou, traduzindo para quem não saiba português: RR é muito mais do que um sobrevivente. É um político frio, ambicioso, capaz de pensar no longo termo, pouco dado a palmadinhas nas costas ou a salamaleques à Imprensa que, aliás, o detesta cordialmente.

Não sei, e pouco se me dá, se isto faz um líder ou sequer assusta Costa. Pelo que vou vendo PC e BE reagem com mais nervosismo. Dentro do PSD, fala-se num “saco de gatos” e alguns mais assanhados como um tolo e presunçoso vereador de Cascais, exigem este mundo e outro como se não soubessem que os ventos actuais sopram a favor do PS. Rio tem pouco tempo, muito pouco tempo, para arrumar a casa, restituir a fé e a esperança aos militantes que, nesta questão de virtudes teologais não são propensos à caridade. Rio não tem um “estado de graça”. É um impertinente a quem se exige, de uma só vez, tudo e mais alguma coisa. Santana Lopes que pode ser tudo mas que é político preferiu a segurança de um acordo, António Capucho quer regressar e há sinais de tentativa de reocupar o “centro”.Os mais entusiastas falam no regresso à matriz social democrata.

Pessoalmente, RR nunca terá o meu pobre e risível voto. Todavia, não faço parte dos que já lhe encomendam missa de requiem. Para os mais melómanos, diria que RR está mais próximo da “missa do homem armado”. É tenaz, talvez teimoso, mas tem a cabecinha pensadora arrumada e joga num tabuleiro onde parece difícil ter piores resultados dos que Passos Coelho teve nestes últimos tempos. Mesmo se a drª Elina Fraga não pareça ser peão que se use, muito menos torre ou rainha. Mas, para erros de casting, aí estão múltiplos exemplos vindos de toda a parte. Daqui a dias já toda a gente se esqueceu da criatura. A política é assim.

Vai uma apostinha que RR está aí para durar?