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Incursões

Instância de Retemperação.

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08
Mai18

Diário político 225

d'oliveira

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Um atestado de óbito tardio

d'Oliveira fecit, 8.5.18

 

A ETA (uma vez mais) anunciou a sua dissolução. E digo uma vez mais porque já por duas vezes em anos passados o anunciara sem que daí decorressem efeitos práticos ou, pelo menos, todos (e os principais) os efeitos práticos.

Agora, reduzida a um escombro vergonhoso e destroçado, a ETA proclama a extinção definitiva de algo que nada mais era do que um pobre mas perigoso bando de malfeitores sem alma nem causa vivendo de e pelo o terror cego que espalhava à sua volta. As polícias espanhola, autonómica (Ertzaintza) e francesa cercaram-na, prenderam os principais cabecilhas e, sobretudo, desvendaram a complicada máquina do terror. Aprisionando cada vez com maior facilidade os militantes (cada vez mais jovens, cada vez mais impreparados militar e politicamente) as polícias obtiveram moradas, nomes, pseudónimos, dados de toda a espécie que, uma vez trabalhados, desmontavam zonas inteiras da clandestinidade.

A cada novo preso, agora sem qualquer dificuldade, seguiam-se confissões pormenorizadas de operações, descrição de refúgios, de casa clandestinas, de cumplicidades de toda a ordem. A “kale borroka” (versão selvagem e infame da luta de ruas) foi o começo do fim de uma estratégia que semeava mortes quase indiscriminadas e um terror absoluto mesmo entre os nacionalistas mais ferrenhos. A ETA, através do “imposto revolucionário” já só tentava manter-se à tona, custear a enorme despesa de se manter fora do alcance dos radares policiais e políticos.

É bom relembrar para as alminhas mais suaves, amigáveis e ignorantes, que, apesar de nascida durante o “franquismo”, a ETA matou mais de noventa por cento dos seus alegados “inimigos” durante a democracia, precisamente quando os direitos civis eram já reconhecidos, as liberdades respeitadas e as polícias controladas. A Democracia é sempre frágil quando se fala de segurança pública.

A ETA, durante o franquismo e depois do espetacular atentado contra Carrero Blanco, manteve uma atitude discretíssima que a polícia do momento era desalmada. Foi contra o Estado Democráico que ela evidenciou todo o seu potwncial de atque. Estava segura que ,mesmo com os GAL e outros escassos e pouco duradouros grupos “anti-terroristas”, os famosos Direitos, Liberdades e Garantias lhe asseguravam uma extrema impunidade. Por outro lado, e a talho de foice, granjeara à sua volta um círculo virtuoso de admiradores babados que ainda viviam (e vivem) à sombra da lenda da “Espanha negra”. E eficaz. E matava, torturava, prendia, invadia casas e esconderijos dia e noite.

Nesse grupo de “cretinos úteis” avultavam os bispos bascos. A bispalhada do lugar além de fascistóide, medieval descendente de inquisidores benzia dos altares a nova “cruzada” que pouco se distinguiu daqueloutra que no tempo da guerra civil iluminava a Falange e os seus guardas mouros exemplo último do ultra-catolicismo triunfante. Na verdade, o País Basco não era republicano e tampouco democrático. Era um cocktail de beatério, e conservadorismo aldeão alentado pelas elites de Bilbau e S Sebastian. Ideologicamente estavam do lado do “caudillo” e a liberdade porque ocasionalmente lutavam fundava-se nas teorias raciais de Sabino Araña, o fundador da causa basca. Nem mais, nem menos.

A ETA que, quinze/vinte anos mais tarde, nasceria argumentava com o massacre infame de Gernika mesmo se isso tivesse ocorrido uma geração antes.

Como (não) é suficientemente sabido, a ETA, sobretudo, após a morte de Franco, dividiu-se em tendências, a mis famosa das quais se crismou a si própria ETA P-M (politico-militar). Foi este a fracção mais consistente ideológica e politicamente da organização. Foi também, o grupo que mais depressa cindiu, se desfez e desapareceu depois de ter percebido que a acção terrorista só era eficaz no semear do medo mas não convertia os cidadãos em apoiantes da independência. Também foi neste grupo, mas não só, que a ETA remanescente matou gente. É bom relembrar que ao lado das centenas de vítimas (polícia, políticos, e – esmagadoramente - gente comum) foram assassinados ex-militantes mesmo se contra eles não pendesse qualquer suspeita de identificação com a polícia, com o “Estado Espanhol” ou contra a causa basca. Invoque-se apenas Yoyes a militante assassinada anos depois de ter saído da organização. E, também de novo talho de foice, recordemos a intensa campanha contra a elite intelectual basca que se viu obrigada a exilar-se sob pena do misericordioso tiro na nuca (por todos, Fernando Savater, o filósofo e escritor de dezenas de títulos sobre ética e política).

Todavia, repontar-me-ão que a ETA sobreviveu, em democracia, cerca de quarenta anos. Em primeiro lugar, cedo se percebeu que a ETA deslocara para lá da fronteira, grande parte do seu aparelho político e logístico mesmo se no pais basco francês nunca tivessem tido especial êxito as teses independentistas que uniam esta região a Euzkadi e à Navarra.

Depois, há que referir o sistema de terror imposto à população em geral. Qualquer cidadão poderia não concordar mas, seguramente, guardava para si essa convicção sob pena de se ver apontado como traidor e/ou serventuário da Espanha. Desde cartas de ameaça a “pintadas” nas paredes ou na porta da casa tudo serviu para pelo exemplo avisar os mal-pensantes dos riscos que corriam. Os não bascos, os “metecos”, sabiam quão perigoso era para eles expressar uma opinião mas mesmo assim a expressão política da fracção mais radical nunca foi relevante. O espaço independentista moderado estava ocupado pelo PNV, Partido Nacionalista Vasco, formação conservadora q.b. e que muitas vezes serviu (e serviu-se) de apoio da Direita espanhola.

A ETA extingue-se de “motu próprio”, afirmam os do último quadrado numa cerimónia ridícula e tonta em território francês testemunhada pelos de sempre. Nem isso é verdade. A ETA já não existia senão como fantasma. Mesmo assim na sua declaração final ainda houve o arrojo de tentar distinguir entre as vítimas. Uma, coitadas, foram o resultado de fortuito erro , aliás desculpável dado o “estado de guerra”. Outras, polícias do Estado, ertainztas ou militares, para já não falar de políticos eleitos, mereciam morrer. Dos ex-militantes assassinados nem uma palavra.

Ao descalabro moral, ético e político junta-se esta outra qualidade: a hipocrisia. E a mentira, evidentemente, base da “narrativa” há dias apresentada.

A herança destes anos de chumbo é pesada: Quase mil vítimas mortais. Centenas de presos, milhares de auto-exilados, uma sociedade dividida que levará o seu tempo a recompor-se.

Esquecia-me: umas dúzias de cavalheiros com um passado de sangue mas livres como passarinhos. Ainda os veremos, como por cá, a escrever livros de memórias onde a morte de outros e a mão encoberta desaparecem como por encanto. Talvez nem valha a pena referir os escassos, tristes, primos portugueses da ETA. Também levam com eles no consciência o peso de alguns mortos, de umas bombas, de uns assaltos a bancos (para onde foi o dinheiro?) que uma justiça morosa, medrosa e uma sociedade generosa deixaram sem solução.

 

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