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Incursões

Instância de Retemperação.

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diário político 232

d'oliveira, 27.05.21

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Efeméride infame

d’Oliveira fecit (27-05-21)

 

 

Passaram quarenta anos, as testemunhas vão desaparecendo, ou desapareceram de todo, nos dias que se seguiram ao que ficou conhecido como “golpe de Nito Alves” que ainda hoje permanece misterioso, a pontos de nem sequer se saber com ciência certa se houve golpe ou contra-golpe, quem começou, como e porquê.

É verdade que, sobre o tema existe alguma literatura, muitas vezes difícil de encontrar (outro mistério: como é que certos livros com verdades incómodas desaparecem da circulação?). Também não é menos verdade que um evento desta grandeza (de vítimas) suscita reacções apaixonadas e “revisões” históricas que, amiúde, se afastam da verdade dos factos, mesmo que eu saiba que verdades objectivas e neutrais são algo difícil de encontrar.

Portanto, relembrar o 27 de Maio de 1977 é importante, não só porque há pelo menos 30.000 vítimas (este é o número mais baixo que encontrei mas há quem apresente números maiores talvez porque também alargou o espaço temporal para encontrar ecos desta verdadeira “guerra civil” que não foi a primeira e muito menos a última que Angola padeceu) mas também porque nela pereceu um amigo, um excelente amigo, António Garcia Neto que era uma das esperanças da nova geração de políticos angolanos.

Neto estudou em Portugal, mais precisamente em Coimbra, contava numerosos amigos entre colegas e contemporâneos e era um espírito aberto e dialogante. Com um pequeno senão a meus olhos: a sua exacerbada “angolanidade” (passe o termo) levava-o a esconder o seu grupo étnico pois achava que isso, essa reivindicação mais que normal, poderia ser tomada por tribalismo. Tivemos largas discussões a propósito pois eu entendia, e entendo, que a reivindicação da etnia, não tem, sem mais, que ser algo de mau ou de vergonhoso. Todavia isto era um pecadilho que ele sacudia chamando-me “branquelas” e eu devolvia com um “preto calcinha de musseque”. Apresentei-lhe alguns familiares e recordo-me do fascínio que uma primita muito pequena sentia. O Neto apreciou devidamente os almoços familiares proporcionados pela minha tia e dizia que se sentia no meio da sua família luandense.

Perdi-o de visto, assim que me formei e só tive notícias (trágicas) depois de se começar a perceber o alcance da matança desenfreada luandense e angolana.

Curiosamente, ontem, caí numa emissão da RTP África onde se recordava, com bastante imprecisão, outro tanto de paixão, muita informação em 2ª ou 3ª mão, a data. Pelos vistos, o Presidente João Lourenço terá deixado supor que era chegado o tempo de recordar o passado de há 40 anos. E de pedir desculpa. Resta saber se esta é sincera ou se apenas se trata de mais um ajuste de contas com o anterior chefe de Estado.

Para ser verdadeiro o pedido de desculpas bastará abrir todos os arquivos DA DISA e do Ministério do Interior angolano. 

Não vou sequer tentar fazer a crónica dos acontecimentos pois, mesmo que me considere razoavelmente informado (e neste razoável creio que estarei no 0,1& de portugueses interessados pelo assunto e suficientemente distanciados para aquilatar os factos terríveis que se produziram.

Portanto limitar-me-ei a um par de conclusões que os leitores aceitarão ou não sem que daí haja da minha parte qualquer acrimónia.

Em primeiro lugar, devo dizer que se há vítimas (mais ou menos 30.000 mortos) há também demasiados presumíveis culpados. Não venho redimir a memória de Nito Alves, Sita Vales, Van Dunen (houve VanDunen dos dois lados, é bom que se esclareça) por várias razões. Nito era alguém que tendo estado no mato (a tropa portuguesa deixou-o tranquilo no meio das matas espessas. Se porventura alguém saia desse esconderijo, a tropa caçava-o com facilidade não só porque tinha informadores suficientes mas sobretudo porque a organização do pequeno grupo guerrilheiro era deplorável.   Conta-se, no entanto, que alguma(s) vez(es) Nito conseguira chegar a Luanda  onde se gabaria da sua (inexistente) actividade militar. A verdade é que, acabadas as hostilidades, apareceu em Luanda e, robustecido por esse passado de guerrilha, rapidamente se impôs na cena confusa dos diversos grupos pertencentes ao MPLA. Sita Vales era uma jovem médica que se sonhou uma egéria revolucionária. Antiga militante do PCP tornou-se notada pela sua tenaz oposição aos “esquerdistas” que ela via por todo o lado. Há quem a acuse de ser a verdadeira autora de umas fantasiosas “teses” revolucionárias atribuídas a Nito Alves. Se era ou não assim , já ninguém poderá provar ou negar. De todo o modo tai teses eram de um primarismo tal que nem os maiores admiradores de Nito hoje as reivindicam.

Do lado do poder, a Direcção do MPLA com Agostinho Neto à cabeça (mesmo se haja quem lhe atribua um papel menor e tíbio na repressão) é também toda ela altamente responsável. O MPLA tem uma longa história, desconhecida, de dissidências muitas vezes resolvidas expeditamente com julgamentos céleres, fuzilamentos ainda mais rápidos e expulsões por dá cá aquela palha. No exacto momento d fim das hostilidades, havia grupos que não reconheciam a Direcção do MPLA, desde Daniel Chipenda (e a “revolta do Leste”) até aos irmãos Pinto de Andrade, históricos dos primórdios da luta anticolonial que iriam formar a “Revolta Activa”. Havia mais facções que apesar de desavindas encontravam em Agostinho Neto um referencial comum e aguardavam pacientemente o seu momento. O fim da guerra colonial, a possibilidade de, com a cumplicidade de sectores do Governo português, do apoio da União Soviética e sobretudo, a partir da chegas em massa de tropas cubanas, permitia-lhes antever um risonho e próspero futuro, o que, apesar dos nitistas e da oposição armada e continuada da UNITA (que manteve uma violenta guerra civil de anos) chegou finalmente. Basta ler a lista de “generais” angolanos e donos de invulgares (porque imensas) riquezas e de outros políticos civis igualmente membros da “nomemklatura” actual angolana para se perceber  como as coisas correram (e correm). Há ainda a relevar o papel da famigerada “comissão das lágrimas” (Lobo Antunes tem um romance com o mesmo título e o mesmo pano de fundo) organização de intelectuais acusados, mal ou bem, de terem recolhido depoimentos de outros intelectuais sobre a participação destes nos acontecimentos. Tudo indica que os depoimentos obtidos transitaram para a DISA (a pide angolana mesmo se os processos fossem mais primitivos e brutais) cuja reputação é conhecida e fortemente temida.

É verdade que tudo terá começado por uma manifestação não especialmente pacífica a que se somou a tomada da cadeia de Luanda por militares afectos a Nito Alves. Os presos foram libertados mesmo se, e por notável prudência, pelo menos os militantes da OCA (Organização Comunista de Angola) se tenham recusado a sair. Em boa hora o fizeram porque muitos deles escaparam à morte.

Da cadeia a manifestação terá seguido para o Palácio Presidencial mesmo que não haja qualquer prova de haver intenção de o tomar. A repressão que se seguiu com activa e importante colaboração da tropa cubana foi tremenda. Não só se prendiam pessoas que nada tinham a ver com as manifestações e menos ainda com a suposta tentativa de golpe militar, mas sobretudo foi-se atrás de opositores que, ou por viverem fora de Luanda ou porque foram prudentes (mas não o suficiente...), de nenhuma maneira se envolveram na situação. Cá em Portugal, há vários ex-presos dessa época, o mais conhecido dos quais é o Professor Costa Silva, agora na berra por ser o autor do Plano de Recuperação. Mas há mais (e publicados) testemunhos escritos desses ásperos tempos.

Ontem, ouvi, um energúmeno defensor a outrance do MPLA que perguntava impertinente, como é que depois de acusações de “genocídio” este partido conseguia obter maiorias repetidas em eleições angolanas. A criatura deve pensar que os tele-espectadores são parvos e que há alguém interessado que ignore como se falseiam eleições. Ou até como regimes autocráticos as ganham apesar de tudo.

Conheci, nos meus tempos, muitos simpatizantes e militantes políticos pró-independentistas angolanos. É verdade que alguns continuam a viver (e muito bem!) em Angola mas há vários, bastantes que escolheram viver ou voltar a viver em Portugal. Alguns (é o caso de Daniel Chipenda) até morreram cá. Outros vou-os encontrando cada vez mais raramente por aí.

De um, em tempos militante da OCA, preso durante muitos anos no Tarrafal, soube há já anos que vivia como sem abrigo em Lisboa e que, tinha um receio pânico de ser raptado e enviado para Angola. Suponho que poderia ser um dos presos que prudentemente não abandonou a prisão assaltada pelos nitistas.

Este dia 27 de Maio de 1977 vai passar sem que por cá alguém dê conta do que representa para Angola. Seria bom que, tantos anos depois, alguma verdade se vá fazendo por lá.

 

E lembro-me do António Garcia Neto, “preto” sorridente, inteligente e tão cheio de vida. E de promessas! E de sonhos!

 Quem o matou? Porquê? 

Na impossibilidade de fornecer uma bibliografia exaustiva, julgo que "Purga Em Angola" de Dalila Pereira Mateus e Alvaro Mateus  (edições ASA, 2007, no 30º aniversário do massacre) é um excelente guia para quem queira saber algo. 

 

      

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