estes dias que passam 938
nova comédia de enganos mas em calão
mcr, 5-10-24
Isto de usar a palavra "comédia" para título tem muito que se lhe diga. À uma foi Comédia a palavra usada por Dante para título da sua absolutamente triunfal obra que os leitores tem à sua disposição na admirável tradução de Vasco Graça Moura. De facto, foi mais tarde que "A Comédia" se dotou do adjectivo "divina" que se lhe pegou de tal modo que não houve maneira de voltar à primeira forma.Todavia, a palavra prosseguiu a sua triunfal viagem literária e foi usada por muitos, começando, claro, por Shakespeare.
Ora o escriba, este, também quis dar a sua perninha no (ab)uso desenfreado mas deparou-se com uma dificuldade. O que actualmente se passa à volta do futuro Orçamento e mais uma má farsa mal humorada e risível do que uma comédia digna desse nomeA coisa desvenda-se em poucas palavras.Sem orçamento haverá eleições. Pelo menos foi esta a mensagem longamente repetida pelo Sr Presidente da República que, entretanto, entendeu dever calar-se depois de dias e dias de verborreia insistente.
Toda a gente, ou quase toda, entendeu dizer que até os cabelos se lhe arrepiavam com tão infausta situação.A começar pelos partidos. Nenhum deles quer verdadeiramente uma ida às urnas. Por razões diferentes mas que se resumem numa só: Medo!
O PS sabe perfeitamente que o seu voto contra o Orçamento se virará contra si. E isso terá consequências: menos votantes e menos deputados. Ou seja uma derrota para o partido e para o líder a que se entregou.É verdade que o sr Pedro Nuno afirmou que tem príncipios e que prefere perder uma eleição a renegá-los.
Mesmo tendo em linha de conta o facto de não se saber exactamente se esses apregoados princípios são-no verdadeiramente convirá sempre tentar descortinar quais são. E aí é o deserto, cheio de miragens mas implacavelmente deserto. PNS é uma rapaz impulsivo mesmo se nas têmporas já lhe embranqueçam os cabelos por via da idade que deveria ser de juízo, cabeça calma, frieza e reflexão.
Parece que estamos de novo num remake do filme do "não pagamos e as perninhas dos banqueiros alemães vão começar a tremer, uma parvoíce que não foi apenas política mas claramente insensata.
Aliás, se uma eleição se perdesse por teimosia, PNS poderia fazer as malas e regressar à província. Por derrotado e por provinciano!
O segundo partido que também teme eleições é o ajuntamento radical-venturoso que já percebeu que o seu grande momento passou, basta atentar nos resultafos da última eleição a que se submeteu.
O susto foi gigantesco: metade dos votantes evaporaram-se. Se da primeira vez, havia a bandeira do voto anti-sistema, desta verificou-se que os eleiotres perceberam que a luta anti-sistema é apenas uma bandeira agitada por um abencerragem vaidoso e fala barato. Os meses (lngos e chatos) de actividade parlamentar do Chga foram um espectáculo frouxo, tonitruante mas ináb foi il e canhestro. Pior: foi o espectaculo do homem só sem gente que fizsse mais do que aplaudir o chefe sem acrescentar fosse o que fosse
-Ninhuém, até ao momento, viu ostro cheguista chegar-se à frente e explicar ao que vem. É Ventura que dá a cara seja em que situação for. Ele lá saberá que aquela carrada de criaturas que o seguem não existe politicamente.
Em tempos conheci um militante de um partido também radical mas de sinal diferente que dizia que votava naquela malta porque assim evitava ter de esforçar as meninges a pensar política e soluções para a pátria.
Já por cá não anda e a sua formação política anda pelas ruas da amargura.
"the times they are a-changin" avisava Dylan há brm mais de 50 anos e tinha, como de costume, razão.
O terceiro partido que, também não sesente especialmente motivado para eleições é o PSD. sabe que eventualmente ganhará eleitores e deputados mas não acredita no tsunami da maioria absolutaÉ verdade que tem andado numa roda viva a brincar ao bodo aos pobres. Em parte porque a herança que recebeu vinha cheia de corporações a protestar. Digamos que, a culpa não é exactamente do actual partido de Governo mas muito do anterior Governo e sobretudo de uma descabeçada ministra da Justiça que insensatamente não percebeu que os aumentos da PJ se iriam reflctir na situação da PSP e da GNR sem falar ds guardas prisionais.
Ao lado havia também os professores e os médicos que eles perceberam as vantagens do esticar da corda. A perda da maioria absoluta injustamente conseguida pelo PS graças às burrices combinadas de uma esquerda ineficaz e ao uivo do Chega e à fraca imagem do PSD enredado numa luta de barões, permitiu aquele resultado miraculoso.
Só que não trouxe aos vencedores bom senso, sentido de Estado e de governação. O tempo da maioria absoluta foi uma espécie de brando mas inapagável fogo florestal.
Aqui para nós: foi uma agonia que um breve comunicado mal redigido por uma Procuradora Geral da República que aliás provou. sem trabalho de maior, a sua incapacidade para dirigir a casa para onde o mesmíssimo primeiro ministro a tinha indicado
.Quanto aos restos de partidos de Esquerda (ou que se presumem como tal) a catástrofe das duas últimas eleições foi um sério aviso e eleições neste momento de maré baixa não parece ser o mais indicado para irem à procura (ou à pesca) dos votos perdidos
Convenhamos, Montenegro tem conseguido aguentar a barca frágil em que embarcou com a aajuda involuntária e pouco esclarecida do seu principal oponente
Lá vai metendo uns golos de bola parada. A indicação de Costa pa o Conselho europeu, as promessas de regularização de salários de uma multidão de corporações, a 'proposta de um salário mínio que ninguém esperava, e dinalmente a proposta irrecusável de orçamento remendado poderão ser truques mas enquanto o pau vai e vem folgam os lombos.
A última prestação de PNS sobre a oferta "irrecusável" foi pífia, e não cnsegue convencer os seus mais entusiásticos eleitores. Está encurralado ou perto disso.
Entretanto, a habilidade de fingir que o Chega não existe aos olhos do PSD demonstrou que a permanente acusação de conluio com os aventureiros da direita radical deixa de fazer efeito na opinião pública.
E isso, pelo menos, e para já, foi entendido
por Ventura que reagiu contra a "venda" do PSD ao PS
Parece que o Sr Presidente da República esfrega as mãozinhas por não ser obrigado a outra provocada ida às urnas.
Sª Exª quer deixar um a boa impressão do seu magistério. É duvidoso que o consiga mas se houver orçamento sempre poderá afirmar que parte do mérito é seu.
"La commedia é finita!*
*a citação é do final da ópera I pagiacci mas os tempos (como acima se diz) são outros e aqui ninguém apunhala a amante, mesmo se, no país dos brandos costume, o assassínio de mulheres e namoradas se pratica com inusitada frequência. Mas isso ocorre nos baixios da cena e jamais entre as luminárias parlamentares