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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

estes dias que passam 1021

d'oliveira, 24.10.25

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E agora o Horta Pinto

mcr, 21-9-25

Conheci-o na “Brasileira”o único fafé em que, ao entrar, se sabia logo quem era quem politicamente.

À esquerda juntava-se a “oposicrática” e à direita (sempre de quem entrava)  os da  “situação”.

Com uma única excepção: a mesa junto da janela da direita, conhecida por  “o aquário” era o ponto de encontro de uma tertúlia intelectual e esquerdista que juntava Paulo Quintela, Luís de Albuquerque, Joaquin Namorado, Ivo Cortesão, os irmãos Viçaça e Rui Clímaco, entre outros. Era uma espécie de agencia da revista Vertice e ser aí admitido nem que fosse uma única vez era para muitos de nós um momento auspicioso de consagraçãoo literária e política.

Numa mesa discreta, à esquerda tinham poiso o Eduardo Maia Costa  e o António Horta Pinto, ambos estudantes de Direito, leitores ávidos,  que tmbém frequentavam o Mandarim (Kremlin) na praça da República (Praça Vermelha)

Também eu, quando descia à Baixa, me aquartelava por ali numa mesa  (à esquera, claro...) que partilhei com o Américo Caseiro  e o Cunha Pinto (verdadeiro nome do excelente  e pouco lido, Leonel Brim que alguém terá apelidado com algeum faro mas pouca justeza, “o Joyce “ português)  Anos mais tarde, o Fernando Assis Pacheco meteu-nos aos dois como personagens  (muito) secundárias no seu belo romamce “Trabalhos e paixões de Benito Prada”

(eu tenho esta sina de personagem secundária perpassando pela “Brasileira”. O advogado e meu primeiro patrono, Alberto Vilaça, afirma que, certa vez, com a PIDE  às canelas eu fugi do café pela porta dos fundos para não mais ser encontrãdo. E por isso me apelidou de “ o estagiário fantasma” num dos seus livros de memórias (“À mesa da Brasileira”, se não erro). A verdade verdadeira é outra : ao dar-me conta de que um conhecido pide  me espreitava da rua, acchei melhor subir ao andar dos bilhares onde escondi um exemplar de “bandeira Vermelha (seria esse o nome? Seria o n´1?.) recentíssimo jornal do MRPP. Ao descer as escadas encontrei-me com um trpoel de agentes da pide que me fizerab descer aé à porta dos fundos e atravessar meia “Baixinha” cercado pelos meus captores  (eram sete os desgraçados, sete!  coisa  que ainda hoje me espantaa pois para a inha perigosidade parecia-me que dois bastavm...) até me enfiarem num carro da pide estacionado à frente de Santa Cruz. E por uns meses andei desaparecido numa vilegiatura em Caxias num quartinho com vista para o rio  sob os cuidados atentos dos carcereiros . Foi por essa altura que um totcionário,   inspector Tinoco de seu nome,  me crismou de “revolucionário por conta própria”  no fim de uma maratona interrogatória de quase duas semanas de que saí teimoso mas ileso  e sem estragar a minha biografia)

Não recordo bem quando é que o discretíssimo "Hortainha"  resolveu exilar-se para  escpar à gueera. Sei apenas que demorou a regressar à pátria  já livre e democrática. Assentou praça na advocacia, num escritório em frente da Brasileira e aí l evou a cabo uma prática que todos reputam de digna, generosa  e competente. Foi presidente do Conselho deontológico e manteve um blog “ponte europa”  que merece ser lido. 

Voltei muito raramente a Coimbra, quase sempre numa corrida mas conseguia encontra-lo  e ter o prazer de novamente conversar um par de horas com ele . No modesto escritório esta pendurada uma gravura do Quixote que o Hortinha considerava como uma espécie de padroeiro . Tantos anos depois e continuava quixotesco!  Honram muita  honra, lhe seja.

Agora sai de cena com a discreção de sempre  apenas intrrompida por uma série comovidas homenagens de amigos, colegas clientes e conhecidos.  Junto-me a eles  confortado pela memória de uma cidadão probo e de um amigo que, comigo e com o Zé Quitério, entendeu escrever à Seara Nova recomendando atenção para uma notícia tonta e vinda de gente da situação estado-novista. A Pide, previdente, lá interceptou a carta, copiou-a e terá aberto mais um processo  que, como era da praxe, corria sob o nome dele. Essa historieta anda por este blog mas já não sei o título e a data pelo que nã a consigo transcrever. 

 

 

 

 

.....E o Laborinho

mcr, 23-10-25

 

somos (éramos, que ele já não é...) da mesma idade com cinco dias de diferença. Colheita de 41.

Fomos caloirtos no mesmo ano, na mesma faculdade ena mesma universidade. Entrámos em várias batalhas como foi signo e destino da nossa geração. O Laborinho, destacou-se cedo e graças a um encontro casual. Quando entendeu inscrever-se no CIRAC, um dos dois grupos de teatro universitário encontou alguém de um outro organismo autónimo, o GEFAC, dedicado à dança, à etnografia e ao folclore. Ter-lhe-ão perguntado qualquer coisa sobre o Vira da Nazaré. O Laborinho não só explicou mas ofereceu-se para ensinar os passos . Gostou do ambiente esqueceu o teatro, uma paixão que sempre o acompanhou, e tornou-se, de certo modo a alma do grupo. 

A malta amiga brincava com ele, ó Laborinho tu és demasiado alto para ser bailarino” mas ele, homem com humor e cultura ria-se e continuava. 

 de uma boa meia dúzia de livros de Dieito,Não vale a pena falar do jurista brilhante que ele foi, do professor de Direito, do juiz conselheiro do STJ e da burra incompreensãoo de alguns dos seus (e meus) conhecidos quando aceitou ser Ministro da Justiça, cargo que desempenhoucom grnde dignidade e sentido de Estado. Mais tarde,  durante a presidência de Jorge Sampaio foi Ministro da República nos Açores  onde terá deixado amigos e admiradores que, ainda hoje o recordam como um aloriano honorárário-

Foi o mais conhecido e apreciado director do Centro de Estudos Judiciários  insistindo na tecla cultural que ele considerava imprescindível para qualquer jurista. Depois de se jubilar começou a escrever ficção  e também nesse difícil campo se notabilizou. Obra enxuta, estilo livre  que alguém alguma vez tentou definir dizendo que ele se movia na prosa romanesca tão bem como no vira da Nazaré.

Este Outono (e o fim do Verão) tem sido terrível para a malta do meu tempo. Bem sei que somos todos octogenários ou quase mas na verdade é qur tem caído como tordos. Qem sobrevive, olha à sua volta e já só encontra fantasmas, sombras vazias, sussurros distantes de uma época que vivemos com intensidade. Destesto obituários mas trairia todas as minhas convicções (e não são muita, aliás...) se guardasse silêncio perante estes desaparecimentos. É que esta gente respirou liberdade,lutou afincadamente por ela e discreta mas eficazmente constriui a democracia.

Por essa razão o junto ao Hortinh,a outro do nosso tempo. Eram justos e deixaram uma pequena mas indelével e honrada pegada na história recente mesmo que nem sequer pensassem nisso. Fizeram o que tinham afazer e regressaam às suas casas, familias e amigos de sempre. 

E é assim que o mundo avança  

 

(Como acima afirmei, detesto obituários e estava à espera de uma altura adequada pra referir o HortaPinto. Agora entendi que era melhor descarregar estes dois defuntos antes que outros mais se juntem como seguramentevai acontecer)