Estes dias que passam, 324
Arre!
Uma criatura que actualmente dirige a ANP comentou a demissão do sr Grancho como uma espécie de desastre. Para ela, Grancho seria o ministro da Educação ideal. Mesmo com o gravame de ter plagiado uns textos numa (oh espanto) comunicação em que se abordava a ética do professor!
A referida personagem dói-se, pois, de tal desgraça. Assevera, contra toda a evidência, a injustiça do caso.
Parece que nada ocorreu de grave; que o plágio é apenas uma poeira na engrenagem; que deve, eventualmente, ser usado, à discrição, enfim um pecadilho, uma pequena estravagância.
Chegamos ao grau zero da moral e da decência.
Eu bem que avisei que esta tardia descoberta dos processos de escrita criativa de Grancho deve-se com forte probabilidade a motivos em que a (baixa) política se impõe à ética. Todavia, um plágio é um plágio, é um plágio, é um plágio...
E de nada serve o estafado (e absurdo) argumento que não se tratava de uma “obra académica” mas apenas de uma reunião internacional sobre temas caros à profissão docente.
O facto, cristalinamente evidente, de haver na denúncia traços de um “cheira-merdas” movido por interesses pouco escrutináveis, não diminui a gravidade do caso. De resto, Grancho viu isso mesmo. E demitiu-se. Vá lá que, pelo menos, mostrou vergonha. Num país onde a falta dela é prática corrente, o acto merece ser apreciado. Por mim, se fosse padre, absolvia-o e mandava-o em paz com um pater e duas ave-marias.
Ou talvez não: é incompreensível que um homem que é presidente da tal ANP não perceba o risco que corre ao praticar um plágio tão parvo. Acho que também deveria envergonhar-se por ser tão tolo. E aí não há confissão que o salve. Os tolos não vão para o céu!
Corre por aí um murmúrio furioso contra os “bufos”. Que é incrível que andem por aí uns miseráveis a passar a pente fino as declarações dos políticos para, com sorte, lhes apanharem os tropeções.
Parece que ninguém se lembra das polícias, mormente, as secretas. Essas instituições constituíam ficheiros gigantescos sobre os cidadãos, todos os cidadãos, para o caso de...
O exemplo mais completo e mais infame é o da STASI, a polícia da antiga República Democrática Alemã onde as coisas atingiam o paroxismo. Entre nós a finada “pide” usava processos idênticos mas sem qualquer espécie de sofisticação. Mas, nas fichas sobre os “ps” (politicamente suspeitos) havia sempre uma referencia aos “costumes”. Se tinham ou não algo a esconder nesse capítulo.
A coisa estendeu-se mesmo a certos partidos que mantinham sobre os seus militantes um pesado escrutínio. À cautela, iam-lhes espiolhando a biografia, anotando os desvios, os “maus passos”, os costumes, algum desvio sexual e outras bizarrias. Para o que desse e viesse. Há mesmo o caso, num partido de “esquerda” de expulsão de um destacado dirigente político, com provas dadas na cadeia, que viu a sua vida partidária manchada pela homossexualidade e, depois, politicamente eliminado travestindo-se a inclinação sexual por razões políticas. Que estas existiam é um facto, mas que a expulsão também foi ditada pelos seus hábitos sexuais é indesmentível. E notório.
E, se ocorria alguma reviravolta política, a primeira coisa a fazer era assaltar os quartéis policiais para fazer mão baixa das fichas políticas de militantes e de inimigos mais proeminentes para depois usarem as informações nelas contidas consoante a necessidade.
Também isso foi descoberto na ocupação das sedes da “STASI”, onde até os mortos ainda tinham processo aberto pronto a ser desenterrado caso os descendentes pisassem o risco.
Nos famosos “processos de Moscovo” (como mais tarde nas sessões maccartistas nos EUA) a pesquisa nos processos da falecida OKRANA (polícia secreta czarista) foi uma constante. E, na Alemanha nazi, a GESTAPO, fossava tanto quanto podia nos processos que herdara. Sempre à procura do suspeito e da sua “circunstância”...
A rterceira e última observação que este caso menor levanta é a seguinte: regra geral tudo isto deriva de denúncia anónima enviadas para as magistraturas, os meios de comunicação ou outros centros de divulgação segura.
O simples facto de esta miserável actuação ser recebida avidamente diz muito da fossa moral em que nos tentam fazer viver. Premiar a cobardia com uma investigação que, como de costume, rapidamente desagua nos jornais e televisões, mesmo antes de ser verificada a sua veracidade transforma o país num pelourinho público infamíssimo.
Não se defende a “omertà” siciliana mas apenas a decência e a coragem de dar a cara. Mas isso, vão de certeza, dizê-lo é expor o denunciante à vindicta do denunciado. Ou seja, o Estado nem sequer parece ser capaz de defender quem honradamente colabora com a Justiça.
Lasciate ogni speranza, voi che’entrate*
*Dante, Divina Commedia, Canto III, 9

