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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

11
Jun19

Estes dias que passam 324

d'oliveira

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“l’autunno sará caldo” *

ou

As omeletas fazem-se com ovos 

mcr 11.06.19

 

(e um pouco de sal, manteiga ou óleo e, mesmo uma frigideira. Isto sem falar numa escumadeira para virar os ovos e dar-lhes forma).

Desculparão os leitores mais atentos este exórdio (bonita palavra!) mas eu só começo assim porque, se pudesse, era o que diria ao sr. Primeiro Ministro.

Eu sei que ele é um cozinheiro de mão cheia (é que a amantíssima esposo e os filhos extremosos afirmam) mas talvez com esta imagem culinária consigamos entender-nos. É que tudo isto vem a propósito dos transportes públicos que estão pelas ruas da amargura. Pode S.ª Exaª afirmar que “uma família de Sintra poupa em transportes mais de cem euros mês” coisa de que eu jamais me atreveria a duvidar pois os primeiros ministros nunca mentem. Todavia, e nisso há sempre a maçada de um “mas”, diabos levem conjunção adversativa.

Quando numa fanfarra triunfante e pré-eleitoral o Governo anunciou formidáveis descontos nos transportes, logo houve um coro de elogios e um arruído de protestos. Os pró governamentais salientavam a bondade da iniciativa e o profundo amor que ela revelava pelas classes laboriosas e periféricas. Os (obviamente invejosos) da oposição viram nisso uma pura e atempada manobra eleitoralista.

Raros foram os que saudando a ideia logo chamaram a atenção para o facto de uma descida de preços poder levar o caos a uma insuficiente rede de transportes que já rebentava pelas costuras. De facto, os comboios eram já escassos, as locomotivas e as carruagens padeciam dos males da idade avançada (avançadíssima!!!), da falta de manutenção e esta da falta de pessoal especializado há muito denunciada por sindicatos e administrações da CP.

Foi aquele extraordinário Marques (agora felizmente longe na Europa para futura vergonha nossa) quem anunciou o novo milagre das rosas. Nisto de anúncios bombásticos a criatura excedia-se, desdobrava-se, ultrapassava-se continuamente para regozijo de basbaques e aflição das oposições.

Pelos vistos ninguém fazia contas, a aritmética, terror da minha antiga escola primária, andava esquecida e as promessas valiam de per si. Os comboios hão de vir (virão?) daqui a uns anos se é que já foram contratados e encomendados. A manutenção essa depende da entrada imediata de uns centos de profissionais especializados (onde estarão? Como serão preparados e quanto tempo isso vai exigir?).

Também não há navios para a travessia do Tejo e quanto a autocarros, eléctricos ou metropolitano estamos na mesma: hão de vir como D Sebastião numa manhã sem nevoeiro mas inevitavelmente futura. E o futuro, este futuro mede-se em anos ou seja nem na próxima legislatura (cujas eleições provocaram este aluvião de novidades e de progresso) estarão por aí. O que está, é o novo preço! Indubitavelmente mais barato é verdade mas pelos vistos impraticável. Os comboios passam, cheios que nem um ovo e nem parar podem. Isto quanto aos que passam pois todos os dias as televisões anunciam supressões de composições. Prece que em Maio e só no Algarve houve 185 comboios a menos. O mesmo, com números semelhantes ou superiores, ocorreu nas linhas suburbanas de Lisboa. Quando algum chega eis que multidões desvairadas se lançam ao seu assalto. Ist parece Tóquio, o Tóquio antigo, em que cenas desse género também ocorriam e onde havia mesmo uma categoria de trabalhadores cuja missão era empurrar sem grande suavidade os candidatos a passageiros para dentro da “lata de sardinhas”.

O Metro, sempre inventivo anuncia a retirada de mais alguns assentos. De pé cabe sempre mais um. Os reis do apalpão rejubilam: agora é que vai ser um fartote!

O público viageiro e sempre ingrato protesta que as coisas pioraram e que chegar tarde ao emprego passa a ser a regra. Quando se chega, claro.

E nisto de chegar há uma linha férrea extraordinária: a do Oeste ou seja a que liga(va) a Figueira da Foz a Lisboa e servia, entre outros destinos, Torres Vedras, Caldas da Rainha e Leiria. Servia, digo, e muito bem, porque agora já não serve ou só serve de quando em quando. Há estações desactivadas e há trafego ferroviário suspenso entre outras por vezes substituído por autocarros. De todo o modo, já não chega a Lisboa, ficando-se por Sintra e daí, se não houver muitas supressões (e isto é um voto pio mas fervoroso) , é aproveitar a “exemplar” linha de Sintra que, em funcionando, permitiria a cada família uma poupança (não de tempo) de cem euros por mês.

Ou seja: nesta omeleta faltam ingredientes mormente os ovos, as frigideiras são do tempo dos afonsinos e as escumadeiras não passam de uma saudade.

Isto mesmo foi dito pelo Governo que penosamente rezou uma espécie de acto de contrição e confessou alguns ligeiros pecadilhos mas que atribuiu a um finado governo anterior toda a responsabilidade!

Os governos anteriores, sobretudo se forem da oposição são muito úteis pelo menos para carregar com os pecados capitais (e mesmo com os veniais). Vamos lá a ver se o futuro Governo que se afigura da mesma cor e substância resolve as coisas. Aceitam-se apostas mesmo se a casa jogue cinco contra um na impossibilidade de, em quatro anos, se notarem melhorias. No fim logo se verá a quem se apontam as responsabilidades.

(hoje mesmo, 11 de Junho está em curso uma greve dos transportes rodoviários da margem sul. Um dirigente sindical afirmava eufórico que a paralisação estava a ser cumprida a 95% e que ninguém ou quase iria conseguir chegar o seu emprego em Lisboa. Ignoro se são transportes públicos ou privados mas relevo desde logo que uns e outros estão sob a mesma tabela e que se isso ocorre em empresas privadas bom seria perguntar ((mesmo se isso me parece pura retórica pois estou convencido de que não)) se os patrões já receberam do Estado a compensação pelo grande desconto que efectuam em cada viajem).

Uma medida pode ser boa em abstracto (e esta é-o) ms no concreto pode correr mal. É evidente que ao embaratecer visivelmente os preços dos transportes públicos, já se sabia que a procura deles iria aumentar fortemente. Conhecendo-se, igualmente, as disponibilidade da frota pública, dever-se-ia pensar que os operadores privados teriam maior número de passageiros. Como os preços novos significavam um custo acrescido dever-se-ia ter agilizado significativamente os pagamentos a estes operadores. E mesmo assim, dado o inevitável aumento da procura haveria que pensar como é que as frotas podem ser prontamente aumentadas. E isso significa também para qualquer privado uma despesa de investimento importante que pode não ser viável a curto prazo. Dizendo-o de outra maneira: o Estado deveria prever, avaliar e tomar medidas para responder prontamente a este brutal afluxo de modo a evitar o caos, e o desastre diário que se verifica.

Pelos vistos, e pelas desculpas esfarrapadas, que ora se ouvem, tal não aconteceu. “O Verão –mesmo com férias- e sobretudo o Outono serão quentes, muito quentes” como há cinquenta anos se gritava ameaçadoramente pelas ruas italianas.

* l’autunno sará caldo!” foi uma expressão cunhada em 1969 em Itália pela esquerda extra-parlamentar e pelos sindicatos e anunciou uma vaga crescente de greves e de manifestações sobretudo no norte industrial

** a imagem: o outono quente em Itália