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Incursões

Instância de Retemperação.

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Estes dias que passam 331

d'oliveira, 10.08.19

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Há aqui alguma coisa que não bate certo!

mcr 10.Ago.2019

 

Afinal quanto é que ganha um motorista que transporta matérias perigosas? Anda por aí uma informação que atira para os 1850 euros limpos o salário mensal desses profissionais. Será?

Ora vejamos como é que se chega a tal soma.

Salário base ........ € 600

diversos subsídios.... 400 (perigosidade -200; outros - 200)

ajudas de custo (contra factura ou recibo).... 850

Se assim é, e é assim, temos que para efeitos de subsídio de doença ou reforma o que conta é o salário base. O resto esvai-se com o fim da actividade.

Mas há mais: os miríficos 850 euros referentes a ajudas de custo (comidas e dormidas) são pagos contra recibo ou factura. É verdade que nisto anda genericamente muita marosca. Todos os que podem metem estas despesas para cálculo do IRS e similares. Vejo isso sempre que almoço ou janto com amigos que têm pequenas empresas. Mesmo se o encontro é a título meramente particular o meu almocinho junta-se ao deles para esse efeito nos impostos a pagar.

Mas há mais: essas ajudas de custos pagam-se a todos? E pagam-se dentro ou fora do país? É que uma coisa é almoçar num modesto restaurante cá e outra é fazer o mesmo em qualquer outro país. A mesma coisa ocorre com as dormidas.

E só a quem tem de comer ou dormir fora é que cabem estas abençoadas ajudas de custo ou há o hábito de as dar a todo e qualquer cavalheiro que pegue no volante do camião cisterna? Então para que servem s facturas ou os recibos exigidos?

O uso da soma de 1850 euros parece pois ser mais outra insidiosa arma de arremesso contra estes profissionais grevistas.

Em segundo lugar, sabe-se que para ser qualificado como motorista apto para este tipo de transportes há que fazer uma formação que dura no mínimo 150 horas (norma europeia) e que custa cerca de 700 euros. Quem paga esta formação? O condutor ou a empresa?

Mas, mais uma vez, ainda há mais: o Governo anuncia triunfante que deu uma formação a militares, polícias e guardas republicanos para substituir os eventuais grevistas. Pergunta ociosa: essa formação obedeceu às estrictas regras europeias?

O número de agentes da autoridade adiantado pelo Governo atinge as cinco centenas! Quinhentos? Quinhentos quando em todo o país ao longo de todos estes anos apenas há oitocentos detentores da tal formação?

Os sindicatos e a própria ANTRAM entendem que esta duvidosa e perigosa solução não deve ser utilizada. Sejam quais forem as razões, há a clara desconfiança e o evidente receio de que algo corra mal. Se assim for a quem atribuir as culpas? (a resposta mais óbvia será a de culpar os grevistas, claro mas parece duvidoso que alguém de bom senso a considere)

Uma terceira observação que atinge a argumentação do Governo, do Conselho Consultivo da Procuradoria Geral e muita luminárias que a tem difundido:

Esta greve prejudica a população. Por isso deve ser limitada a quase nada através do reforço dos serviços mínimos, da requisição civil e da parafernália de argumentos que baseiam a declaração de cris energética

Peregrina opinião! Então as greves beneficiam alguém? Quais são as que não prejudicam ou os patrões (e essas quase só ocorrem no sector privado e são raras) ou a comunidade? Tomemos como exemplo as sempre louvadas greves dos transportes tão comuns que foram durante o anterior governo. Quando não há comboios, metropolitano e transporte rodoviários centenas de milhares de trabalhadores vem-se numa aflição: como chegar aos empregos à hora estipulada? O mesmo sucede com as greves dos transportes fluviais no que toca a Lisboa. Alguém viu os cavalheiros do PS, hoje governantes, a propor medidas eficazes para prevenir os efeitos de uma greve (capitaneada pela CGTP com a normal cumplicidade da UGT) que torna seus reféns os trabalhadores mais humildes e expulsos da cidade para os subúrbios cada vez mais distantes pela desenfreada corrida à especulação imobiliária que permite transformar bairros inteiros em hostels, quartos bnb e outras empresas de alojamento local ?

Então aqui já não há um claro ataque à comunidade, pelo menos a uma esmagadora parte dela, a mais pobre, a mais desfavorecida a mais dependente? Vi, ouvi, (ontem, sexta-feira) brevemente e enojado, um senhor professor de uma dessas múltiplas faculdades de Direito lisboetas a afirmar sem corar essa barbaridade. Uma coisa é a greve contra a comunidade (esta eventual dos motoristas) outra as boas e saudáveis greves que assolaram o país e trouxeram aos que as suportaram um rosário de dificuldades, aflição e sofrimento persistentes.

Eu não gosto do sr. dr. Pardal Henriques. Todavia, não culpo o sindicato por recorrer aos serviços dele. Ao fim e ao cabo, outros e mais poderosos sindicatos tem ao seu serviço poderosas organizações políticas e sindicais pejadas de juristas e com uma imprensa fiel às ordens.

Mas as organizações sindicais clássicas (e correias de transmissão de partidos políticos) são intocáveis. Pelo contrário, esta recente criação de dezenas de sindicatos que fogem a essa lógica político-sindical são olhadas com desconfiança e alvo de todo o género de ataques. Há que abatê-los depressa não vá o exemplo alastrar e mais e mais trabalhadores tomarem o seu destino nas suas mãos. É que em Portugal trabalhador só é aquele que tem o cartãozinho certo e que corresponde à “narrativa” cada vez menos hegemónica dum progressismo serôdio e cada vez mais desviado das suas reais e antigas e boas raízes.

Depois admiram-se de verem proliferar por todo o lado movimentos populistas. E por verem desaparecer os partidos tradicionais da Esquerda (veja-se apenas o que se passa em França onde o PC e o PS são meras pequeníssimas caricaturas do que ainda há uns anos foi um movimento que, com todos os seus defeitos, conseguia levar à Presidência da República o senhor François Mitterrand.

Hoje, e sempre no mesmo país, os antigos bastiões do PC são agora o viveiro farto e viçoso da extrema direita. Vejam onde é que a senhora Le Pen consegue os seus melhores resultados. Vejam e comparem com a geografia eleitoral de há 60, 50 ou 30 anos.

Onde é que andam o poderosíssimo PC italiano (o de Togliatti ou Berlinguer) ou o espanhol mesmo o de Carrillo). Que se passa com o SPD alemão, em queda livre e em risco de ser ultrapassado pela reaccionária “alternativa “ em número de votos?

Dir-se-á que, à falta destes partidos tradicionais, oriundos das IIª e IIIª Internacionais, isto é com mais de cem anos, apareceram os Siriza, os Podemos, o Bloco, ou o patético senhor Melenchon. Aparecer apareceram mas nada mais incerto do que o seu futuro. O Siriza naufragou dilacerado por dentro entre um programa maximalista e a horrenda realidade. Nos destroços ficou, entretanto, o PASOK, partido socialista grego hoje desaparecido em parte incerta, como ficaram também os dois irreconciliáveis inimigos que se disputavam o título PC. O Podemos prosperou onde antes existia o PCE e mantem-se (ainda que perdendo votos) numa Espanha onde os movimentos irredentistas retiram apoio aos partidos históricos. O PSOE é agora o primeiro partido muito graças à fractura que o VOX provocou na Direita clássica que já vinha sendo acossada pelo Ciudadanos. Por cá há muito que o PC estiola e defronta nas cidades grandes uma pequena minoria (sem base autárquica ou sindical) que ganha as simpatias de uma amálgama de movimentos provenientes de antigas dissidências e que, pelos vistos, parece atrair pela “novidade”. Curiosamente, é este partido o único que de forma elíptica e mais do que prudente não condenou os motoristas.

Finalmente, uma última nota: no momento em que escrevo (são dez da manhã) não se sabe se a greve é de manter ou se os plenários de trabalhadores a desconvocam. Seja qual for a decisão, a balança está desequilibrada. O Governo, a Justiça, a opinião pública, todo o patronato e as bos consciências onde se recrutam os famigerados comentadores televisivos já lançaram o seu anátema sobre esta acção. Que não é oportuna, diz-se porque é Verão, as férias no Algarve são sagradas, os emigrantes estão a chegar coitados e cheios de saudades, e há a peregrinação a Fátima (por acaso esta é a menor das três grandes que se realizam -Maio, Agosto e Outubro – Diga-se em boa verdade que Fátima, no que toca a deslocações de fieis, costuma ser notícia pelos milhares de católicos que fazem o caminho a pé. Desta feita devem vir de carro... E há o argumento final dos turistas que, enfeitiçados por Portugal, nos visitam. Lembro, porém, que esses se ficam sobretudo por Lisboa. Algarve, e Porto. Mas dá jeito vê-los a infestar todo o país e a espalhar pardaus por todas as terras de Basto...

*a ilustração: capa do grande (e perseguido) jornal A Batalha durante uma das muitas (e ferozmente reprimidas) greves durante a Iª República. Por essas e por outras razões nem um operário se levantou em armas contra o passeio militar (Braga-Lisboa) de Gomes da Costa a 28 de Maio

 

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