Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

estes dias que passam 338

d'oliveira, 22.03.20

Unknown.jpeg

Diário das semanas da peste

Jornada sétima

mcr, 22 de Março

A ler vale tudo? Quase!

“o matrimónio esperava-o sentado no sofá...”

 

Uma amável leitora disse-me que eu era um leitor muito elitista. “Bom gosto, mas elitista!”

Ai leitora minha, que engano! Eu poderei ser elitista em muitas coisas, desde o não gostar de futebol até (já me criticaram) ao bridge, ao chá branco, ao sumo de laranja pela manhã,

No capítulo do vestuário, já me deram forte e feio no facto de usar gravata ou, na falta dela, de lenço de pescoço. Eu bem tento defender-me replicando que tenho frio no pobre gargalo mas a desconfiança persiste. Uma outra amiga atirou-se que nem um demónio da Tasmânia ao hábito de usar calças de bombazina!

Um dos frequentadores da habitual esplanada, neste momento encerrada, viu-me com capote alentejano e riu escarninho. Pensei que fosse pela pele de raposa mas não. O criaturo achava que o alentejaníssimo capote era prova de insuperável marialvismo. E reforçou a sua convicção quando me viu de boné.

Arrium porrium catanorum cunque! (tomem lá macarrónico ó críticos maliciosos!) às vezes sinto-me um autêntico ET! Serei?

Voltando à vaca fria, eis que vou confessar à leitora primeira um pecado horrendo e mortal: eu sou um adepto dos vícios solitários (ler e escrever, bem entendido que para o resto gosto de partilhar. Ou gostava que agora, qualquer mulher olhar-me-á de alto e baixo e resmungará um “pfff” desdenhoso seguido de “olha o velhadas careta que mal se aguenta na tripeça a tentar a grande volta ao bilhar grande...”

(Re)voltando às leituras em que me espojo e exponho, sempre lhe vou dar uma lista não exaustiva mas verdadeira.

Começando pela trilogia sagrada das primeiras leituras na Biblioteca Pública Municipal Fernandes Tomás: Júlio Verne, Emílio Salgari e Edgar Rice Burroughs (o criador de Tarzan) . Li-os de fio a pavio, apaixonadamente e estão agora na minha biblioteca em lugar de destaque. Dos Vernes tenho até –mesmo incompletas- três edições desde a normal (Companhia Nacional Editora, antes da Corazzi e finalmente da Bertrand sempre com encadernação de editor mas cpas de várias cores) até à colecção “Horas Românticas” (David Corazzi, sec XIX) que se distingue por trazer todas as gravuras da edição francesa. Finalmente, compro quando encontro as edições francesas, a Hetzel, claro mas não só. E várias obras de referencia sobre Verne, incluindo um álbum da Pleiade!

Do Salgari tenho a obra quase completa, toda editada pela “Romano Torres” em fornadas diferentes desde as de capa azul escura até às muito coloridas dos anos quarenta. O Burroughs está também incompleto mas o que há é tudo da colecção Terramarear.

Continuando nas paixões mais antigas, andam pela estante os “Lagardere” (Paul Féval) e os seus concorrentes de Ponson du Terrail, capa e espada, claro. Obviamente, não falta o Dumas, quase todo em francês, incluindo vários ensaios e dicionários sobre o personagem. Aliás, também tenho as “Memórias” do vero d’Artagnan bem com as de Richelieu.

Sou um frenético leitor de “policiais” pelo que a colecção Vampiro está fortemente representada mas não faltam edições espanholas, francesas (a maravilhosa “série noire”) e italianas.

Durante muitos anos, fui leitor de ficção científica e tenho todos os grandes clássicos publicados pela Livros de Brasil (colecção Argonauta) além de outras edições de variada procedência e língua (Tolkien, por exemplo).

Há uns metros de banda desenhada, incluindo alguns exemplares de “O Mosquito” pois coligi e encadernei cuidadosamente o “capitão Meia Noite”. E só não tenho O Mosquito, O Mundo de Aventuras e o Cavaleiro Andante por ainda não os ter encontrado a preço razoável, em bom estado. E por falta absoluta de espaço!

Se o euromilhões topa comigo, juro que compro uma casa onde possa acrescentar uma biblioteca onde caiba toda a que tenho e mais outro tanto mesmo se não acredite durar o tempo suficiente para tal aventura.

Isto chegaria, querida leitora, mas falta a cereja em cima do bolo.

Já aqui escrevi que passei uns largos meses prostrado numa cama com uma tuberculose. Eu era jovem demais para ler francês ou qualquer outra língua pelo que boa parte da biblioteca do meu avô estava fora do meu alcance. Todavia, havia a minha avó, aliás a madrasta do meu pai, que a verdadeira foi na pandemia da gripe espanhola ou na epidemia de tifo que se lhe seguiu. A excelente senhora tinha uma montanha de livros cor de rosa, provavelmente duas ou três centenas. As colecções tinham nomes mimosos, como “Pérola” “Orquídea” e não sei que mais. Aviei, enquanto doente sem esquecer o imortal “John chauffeur russo, e isto não é uma desculpa, um bom cento de obras de Trini de Figueroa, Barbara Cartland” e sobretudo uma autora espanhola que as batia a todas e há bem pouco tempo foi alvo de uma homenagem de vários autores “sérios”. Tenho o raio do nome debaixo da língua...

Portanto, leitora gentil, psso ser elitista mas nunca, or nunca, me furtei a leituras do mais popular que há (ou havia). Mais, muitos dos autores que citei, incluindo os não citados policiais, são bem mais interessantes e escrevem melhor do que boa parte dos consagrados com tabuleta para rua na praça das letras. Poderia juntar aqui uma lista gorda e sempre incompleta de “grandes nomes” que impenitente leitor que sou fui obrigado a abandonar ao fim de uma ou duas dúzias de páginas. Até já pensei em ter uma estante para estas obras. Fica para a futura biblioteca que farei com os cacauzinhos do euromilhões. Garanto-lhe que ficará surpreendida.

Há uma boa vintena de anos, um dos nossos mais conhecidos (e mais chatos) ficcionistas referia-se depreciativamente a um dos mais extraordinários autores de ficção policial, Raymond Chandler, dizendo que haveria por aí umas mediocridades “que escreviam como ele”! Eu não sei se o celebrado tonto alguma vez leu Chandler mas garanto que se leu, não percebeu pois se há algo que este autor tem é um estilo, um ritmo e um argumento que resistem a tudo mesmo à pior tradução.

No tempo miserável por que estamos passando, eis uma boa recomendação para quem se arreceia da chamada ”grande literatura” (entre aspas, claro). Leiam os mestres do policial, Chandler, Christie, Hammett, por exemplo. Mas também chester Himes, Leonardo Padura, Simenon, Tony Hillerman, Agatha Christie, Andrea Camileri, Manuel Vasquez Montalban, os primos Ellery Queen, a dupla Frutero e Lucentini e mais dois bons quarteirões de autores.

Poderia fazer outra lista de FC mas fico-me pelos Azimov, A C Clarck, J Brunner, Surgeon ou Bradbury, deixando de fora outro quarteirão.

Eu sou um leitor irremediável, pecador, relapso e guloso. Um devoto de D. Gutenberg.

Estão em casa, chateados como pescadas? Leiam um livro. Dois, dez, mil. E que o vírus sacaninha fique longe!

(nota: a frase entre comas junto do título é de um livro que já não posso identificar mas que pertence à multidão dos lidos no meu leito de tuberculoso. Obviamente, o/a cretino/a do/a tradutor/a, sabia pouco espanhol pois, na língua do abençoado Cervantes (ai o elitista!) “matrimónio” também quer dizer “casal”. No jargão dos tradutores chamam-se a estas palavras “falsos amigos”.)

2 comentários

Comentar post