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Incursões

Instância de Retemperação.

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estes dias que passam 339

d'oliveira, 23.03.20

Diário das semanas da peste

Jornada oitava

Aventurada de uma quase centenária

mcr, 23 de Março

 

Quase centenária não é um exagero. 97 anos feitos e perfeitos, os 98 ali ao virar do fim de Julho. Pode dizer-se que além de ser uma bonita idade, desta feita o cronista não exagerou.

Ou melhor: excedeu-se, no entender da retratada (se ela lesse estas páginas) porquanto para a minha Mãe, que é dela que se trata, a velhice é uma doença desagradável. Alguma, escassa, razão terá. Anda com dificuldade, apoiada num bengalão com três pés, ouve mal e vê muito pouco.

Destes males o que mais a desgosta é a perda de visão que não tem remédio. Ela foi sempre uma leitora entusiasta e até há bem pouco tempo, dois, três anos lia aplicadamente o jornal e as revistas que ao fim de cada mês eu lhe trazia. A saber, os suplementos do Publico (sextas sábados e domingos), a revista do Expresso e várias publicações e suplementos do El Pais e do ABC. E a Visão, contribuição do meu irmão.Com isto, com os noticiários radiofónicos e os da televisão, a excelente senhora estava a par de tudo o que se passava. A televisão pouco vê pelas razões já apontadas, a leitura é impossível pelo que está reduzida ao rádio que ouve ao deitar e de manhã cedo antes de se levantar.

Cumpre dizer que, mesmo com estas (quase) naturais dificuldades trazidas pela idade, ela não desarma. Pergunta e a cada resposta desfia um rosário de recordações e memórias que nos deixam a todos espantados. Pior: boquiabertos.

Vejam só: há uns anos, estávamos à conversa e ela começou a falar-me de Nisa onde esteve por duas vezes quase um ano. O meu avô era alentejano e militar e, de quatro em quatro anos, gozava a chamada licença graciosa, na terra natal. Da primeira a Mãe, et pour cause (teria menos de um ano...) não se lembra, coisa aliás que muito a aflige. Da segunda, recorda tudo e nesse tudo incluiu-se esta historieta. Um dos grandes amigos do avô quando via a minha mãe a passear com a criada que tomava conta dela, oferecia-lhe cinco tostões para rebuçados. Obviamente, essa gigantesca soma era rapidamente convertida na loja mais próxima em caramelos ou no que fosse. O referido amigo do avô tinha uma criada que volta e meia ia a casa dos meus avós com uma travessa de arroz doce, um cesto de ovos, alguma galinha, enfim com mimos. A rapariga tinha um namorado com quem viria a casar mas já depois da saída dos meus de Nisa.

A Mãe gosta de contar uma história, apoiada factualmente. Portanto, o amigo do meu avô e criada foram identificados com precisão mas o raio do namorado pregou uma partida à memória vetusta da velha senhora. Não se lembrava do nome dele! A conversa murchou pois aquela súbita falha adquiria ao olhos da maternidade um tom sinistro e proporções cataclísmicas. “Ai como eu estou!”, lamentou-se, “a velhice não tem nada de bom!”. Tenti distraí-la mas o serão parecia perdido. Subitamente, o fim duma boa hora, sobressaltou-se e quase gritou “Alberto, Alberto Maçanico! Afinal, não estou assim tão caduca!”

Tive vontade, péssimo filho que sou, de lhe bater. Então ela recordava um nome de um quase desconhecido ao fim de oitenta e tal anos e achava isso não só natural mas obrigatório?

Para além desta cabecinha de oiro, a boa senhora ainda faz tudo ou quase em sua casa onde vive só. É verdade que já tem contratada (e a receber por inteiro) uma criatura que terá a missão de, em ela querendo, passar a viver lá em casa. Mas até agora, a Mãe ainda não achou necessário. A empregada, vai lá quatro dias por semana, faz o almoço, dá uma volta à casa e pelas três e meia quatro da tarde, ala que se faz tarde. Nos dois dias em que não vai há uma outra, mais antiga, que a minha Mãe nunca quis despedir. “Coitada, está cá há tanto tempo! E olha que é útil pois se a outra for à terra (a outra é moldava) como é que eu me safo?”

Mesmo com duas empregadas que aliás não se cruzam nunca se é que não se ignoram, não se pense que a idosa (ai se ela me ouvisse!...) não dá conta das coisas da casa. Faz a cama dela, vigia e ajuda a taefa de fazer a minha cama, pois entende que eu não tenho jeito para tal, melhor dizendo que eu a faço às três pancadas. Apanha-me fora e zás! Eis que as duas dão a volta ao meu quarto. O mesmo se passa com a loiça, mormente a do jantar. Eu achava que a podia lavar e a minha Mãe parecia de acordo. Mal me pilhava fora da cozinha, pimba!, lavava tudo pela segunda vez. Desisti e não tenho remorsos.

A única pessoa de quem ela aceita ajuda é a CG. Em indo comigo, a tarefa da arrumação da cozinha é uma romaria. As duas juntas demoram um par de horas perdidas em conversas tremendas e barulho de louça a ser torturada.

Feita esta longa apresentação, e tendo já referido que, além da visão quase perdida e da surdez, a Mãe anda com dificuldade (Já não sai à rua: não quer ir de cadeira de rodas) embora faça hectómetros dentro de casa. Isto desgosta-me pois sei quão gulosa de sardinhas assadas, de cozido à portuguesa e de pratos chineses ela é. Mas nem essa miragem a faz sair da casca.

Ora, há coisa de dez dias, houve um acidente no prédio onde ela vive. Incendiou-se a caixa de electricidade de uma habitação e isso teve como consequência uma falha geral de luz, de elevadores e de água. A coisa ocorreu de manhã cedo, muito cedo.

Entõ querem lá ver que a prisioneira do terceiro A, ela mesma, entendeu que corria perigo e devia sair de casa? Ainda não ouvi de viva voz, a odisseia de uma senhora de 97 anos (feitos e perfeitos) que desceu amparada ao bordão três inteiros andares e mais um intermédio, até atingir a rua, o passeio, a porta do supermercado que faz parte do conjunto de quatro torres onde ela vive e aí sem um ai, esperou pacientemente que alguém desse por ela e prevenisse o meu irmão ou a cunhada dele que vive um andar acima e que, de facto, ao olhar por uma janela, a viu e prontamente a foi apoiar.

As obras durarão no mínimo três semanas pelo que a Mãe aceitou ir para casa do meu irmão para também migrou a cunhada e a sogra dele.

Quando lhe telefonei pela primeira vez depois do acidente, disse-lhe que ela se tinha evadido da auto prisão em que vivia. “Como o Conde de Montecristo”, respondeu-me. “Nem mais”, retorqui, e pensei agradecido que, de facto ela se comportara como uma personagem de Alexandre Dumas, se bem que este nunca tivesse prestado muita atenção às personagens femininas.

A leitora de ontem fará o favor de notar que, mais uma vez, desta feita com ajuda maternal, referi uma livro popular .

Nisto de popular, convém fazer uma distinção. Há povo e povo, como ontem, na Póvoa. Em Carcavelos ou Matosinhos se viu. Umas centenas de imbecis irresponsáveis que mereciam apanhar com o vírus em cima, entendeu vir passear para as esplanadas. Em multidão. Como se estivéssemos num dia normal de primavera!

Também um senhor pároco, de uma aldeia do Centro, entendeu celebrar uma missinha ao arrepio das indicações do bispo. E interrogado pela televisão, encheu o peito e prometeu reincidir. É como os fanáticos ultra-ortodoxos de Israel que, pura e simplesmente, fazem caso omisso das recomendações governamentais.

Não é que eu deseje a morte de quem quer que seja mas se vão morrer pessoas porque não estas em vez dos pobres velhos dos lares ou de outros que receiam o corona que o pariu e não querem morrer?

 

Dois leitores fixes, generosos e bem humorados apontam-me aescritora Corin Tellado que eu  não terei apontado o nome. E um deles junta à lista dos policiais Simenon e Rex Stout . E junta muto bem. Abraço a ambos

 

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