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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

01
Mar18

Estes dias que passam 366

d'oliveira

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Viva o Esportingue!

mcr 1-3-18

 

Não tenho clube de futebol. Nunca tive, mesmo se confessasse uma certa ternura pela “Associação Naval 1º de Maio”, modesta equipa que andou décadas pela 2ª divisão, subiu surpreendentemente à 1ª onde se entreteve uns parcos anos e depois desapareceu do panorama futebolístico nacional. Acho que, actualmente, disputa alguma coisinha regional de somenos importância.

A minha ligação ao clube figueirense advém do facto de, entre meados de quarenta e de cinquenta, meu pai ter presidido aos destinos da Naval onde também exercia de médico gratuito e, se me lembro bem, uma que outra vez de chauffeur de um carro enorme e desengonçado onde se transportava toda a liderança do clube. Fora isso, só recordo ter penosamente assistido a uns jogos no “campo da Mata” levado, sem alegria nem prazer, pela pátria potestas. O mesmo, aliás, me sucedeu quando andava no 3º ano do liceu em Coimbra. De quinze em quinze dias era-me negado o prazer do fim de semana na Figueira porque a Académica jogava em Coimbra e o meu pai, sempre ele!, fervoroso adepto, vinha à bola e leva-me ao estádio. Um horror!

Feita esta necessária introdução, apenas com o fito de explicar o meu nulo apreço pelos clubes de futebol nacionais e internacionais, pela “bola” e por boa parte do que por aí corre disfarçado sob o nome de desporto, eis que me vejo perante o extraordinário (no pior sentido de eminentemente ordinário) caso do Sporting e da estrondosa carreira do seu presidente.

Comecemos pelo mais óbvio, a história. O Sporting (Clube de Portugal) é um produto lisboeta puro e duro e, mais do que isso, uma criação da chamada elite social e financeira da capital. Um clube de senhoritos, de meninos bem, chiques até dizer basta.

Ainda me lembro de ouvir um cavalheiro respeitável acusar um amigo de ser um “talassa” logo que soube que o segundo era sportinguista. Talassas eram a princípio os monárquicos mais conservadores e depois os ricos e os bem pensantes. “Poucos mas bons”, como se dizia, senhores do seu nariz e desprezando ostensivamente o “povo”, a “gentinha”, o “pé descalço” que, obviamente havia de engrossar os fãs do Benfica o outro clube de Lisboa (Não se referem o Belenenses, o Oriental ou o Atlético também lisboetas mas confinados a bairros e sem historial que mereça mais do que modestos titulares, mesmo se o Belenenses tivesse tido nos anos 50 e 60 honras de “grande”).

Durante as décadas da minha infância, adolescência e primeira juventude, o Sporting e o Benfica (ocasionalmente o Porto) eram quem todo lo mandava. Do primeiro ficou famoso o grupo dos “cinco violinos” (2ª metade dos anos 40: Jesus Correia, Peyroteu, Travassos, Vasques e Albano) prodigiosos jogadores. O Benfica é o que se sabe. Durante anos a fio, décadas mesmo, foi o clube do regime e a joia da coroa. Ganhava em todos os palcos desde Portugal até à Europa. Suponho que ainda é o clube com mais títulos e taças logo seguido pelo Porto que sempre foi sólido mas só começou a brilhar verdadeiramente depois dos anos 60.

Data dessa época o progressivo eclipse do Sporting. Não me vou dar ao trabalho de procurar mas aposto que desde os anos 60 até hoje não terá ganho mais de meia dúzia, o que em 58 épocas sabe a pouco. O resto distribuiu-se quase sempre entre o Benfica e o Porto com ligeira vantagem para o primeiro.

As direcções do clube foram sendo progressivamente ocupadas por uma nova classe social cada vez mais distante da conservadora e tradicional elite anterior. O que não tem nada de mal mas que, no caso em apreço, reveste uma peculiar característica. Os novos dirigentes tentam macaquear os antigos ou, pior ainda, os dos clubes líderes dos últimos cinquenta anos. Os associados, que sempre riscaram pouco, ficam deliciados quando os “chefes” farroncam, esbracejam, ameaçam, uivam e se desfazem em impropérios e acusações.

O delírio atingiu o auge (?) com o actual presidente do clube, um a criatura que dá por Bruno de Carvalho e se gaba de ser sobrinho neto de um antigo e fugaz primeiro ministro. Sempre me espantou esta necessidade de recorrer a eventuais antepassados que, de resto, nunca se identificam como “carnais” ou por afinidade, caso em que a reivindicação familiar além de obnóxia é parva.

A criatura Carvalho apareceu no universo televisivo mais vezes do que o decoro permitiria mas com sobrados motivos: o homenzinho excede-se em patacoadas violentas contra adversários internos e externos (mais, até, os primeiros) e numa última e triunfante alocução aconselhou os associados a não ler jornais (falo dos associados que serão alfabetizados e tenham algum escasso hábito de leitura) desportivos –todos inimigos do clube- a não ouvir os comentadores desportivos nos media (medida que até poderia ser salutar atenta a quantidade de horas que aquelas cabecinhas pensadoras ocupam os melhores horários televisivos, mas que no caso é apenas um protesto contra algumas observações “menos respeitosas” dos palestrantes sobre o Sporting) e mais quatro fatwas do mesmo teor. Em boa verdade, o cavalheiro Carvalho elaborou um programa informativo par os associados digno da Coreia do Norte: não vejam, não ouçam, não leiam, não comentem (e não pensem?) o que vai nas bocas do mundo. Fora de Alvalade (de um Alvalade expurgado de conspiradores, detratores, críticos ou meramente neutros) não há salvação. O sindicato dos Jornalistas ofendeu-se e protestou como se esta estúpida proposta valesse sequer um comentário. Como se uma boa parte do sportinguismo militante se fechasse ao mundo. Alguns benévolos comentadores gerais viram em Carvalho um novo fascismo como se ele soubesse o que isso é. Aquilo não é coisa alguma excepto arrogância de uma galinha pedrês que gostaria de ser águia um de uma lagartixa que se tomasse por um dragão. Mais do que irritar, Carvalho faz rir mesmo se a gargalhada seja penosa. Saber que num país pacato e civilizado ainda há destes abencerragens deixa muita gente perplexa e a perguntar onde é que a Educação Nacional falhou. Já se sabia que, no fim da escolaridade média, a escrita é um mistério, as contas um sacrifício sobre-humano e a capacidade de conhecer o mundo em que se vive algo de escasso e contingente.

É habito dizer-se que “no melhor pano cai a nódoa”. Convenhamos que aqui nem o pano é mais do que sofrível nem a nódoa assusta. Nada que lixívia e bom senso e alguma educação não limpe e desinfecte.

O Clube de Carvalho vai corajosamente na terceira e habitual posição. Nada prenuncia que possa, facilmente, ultrapassar os dois que o antecedem mesmo se, em futebol, haja horas que duram mais alguns minutos do que os usuais.

Todavia, numa coisa o Sporting é indubitavelmente já campeão: no terrorismo verbal, na tolice ameaçadora, na impotência acusatória. À falta de melhores razões, este título também serve.

(Em memória de João Taveira da Gama, sportinguista sofrido, amigo desde os sessenta que a Parca já arrebanhou. Felizmente não assistiu a isto. Para azar basta a morte, é inútil acrescentar-lhe a vergonha.)