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Incursões

Instância de Retemperação.

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07
Mar18

Estes dias que passam 367

d'oliveira

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28 anos já...

 

Ou: mais de 9000 exemplares lidos com alegria, com sofreguidão com interesse ou com indignação. Numa palavra: o “Público” o jornal que, sem falhas, leio desde o número 1.

Quando digo sem falhas, não refiro todos os dias porquanto as férias de muitos desses anos passeia-as fora de Portugal e, sempre que, pude estive fora do país, às vezes por períodos que duraram meses. Todavia, em estando cá, nunca deixei de comprar o jornal, hábito e vício diários.

Esta fidelidade ao mesmo periódico tem, em mim, antecedentes fortíssimos. Em pequeno, muito pequeno, fui um fã do “Mundo de Aventuras” em detrimento do posterior “Cavaleiro Andante”. Durante esses anos, felizes e inocentes, o meu irmão e eu, batíamo-nos à compita para, cada terça feira, ir à loja do senhor Bracourt comprar a “Modas e Bordados” que a minha Mãe, que lia tudo e mais alguma coisa, aplicadamente comprava. O nosso alvo era o suplemento infantil “Joaninha” que no regresso até casa íamos lendo impacientes. Oh que saudades de duas longuíssimas séries “Aninhas e Ró-ró” (uma menina e o seu cão) e “Sem Família” uma banda desenhada baseada no romance de Hector Mallot (1830-1907, escritor comprometido com causa da liberdade, amigo de Jules Vallés que ele ajudou financeiramente durante o exílio, defensor do divórcio e uma nova política de saúde psiquiátrica, autor de mais de cinquenta romances).

Nos poucos anos que passei em Moçambique (e sobretudo nas férias grandes) lia “A Tribuna” um dos grandes títulos moçambicanos e o mais livre da imprensa africana.

Logo que entrei para Universidade, tornei-me um devoto de “Le Monde” e de “L’Éxpress” uma notável revista semanal que foi uma das publicações que mais defendeu a causa dos argelinos . Anda hoje os leio, mesmo se diferentes. Da banda de Espanha, sou, desde o primeiro dia, leitor de El País e, no que toca à Itália, confesso que abandonei “Paese Sera” por “La Republica” logo que este apareceu.

Sou, portanto, um leitor (e comprador) de jornais e não consigo começar o dia sem eles. No fim de semana as coisas complicam-se por via do “Expresso” (sempre desde o primeiro dia) e das edições mais volumosas dos jornais estrangeiros.

Mas voltemos ao “Público” que hoje festeja o seu 28º aniversário. Que bela aventura. Que zangas tremendas tive ao longo destes anos por via de artigos, comentários, omissões. Que falta me faz no dia de Natal e no de Ano Novo!...

Com todos os seus imensos defeitos, o “Público” é, de longe, o melhor quotidiano português, o mais imparcial, o menos populista e, de certo modo, o mais eclético em colaboração de todos os quadrantes políticos.

Tem falhas? Claro que as tem, a começar pela frágil cobertura de notícias sobe livros e literatura. Nada que se compare com, por exemplo, “El País” (ou até o “ABC”, também espanhol, conservador e monárquico que tem uma revista semanal de cultural de alta qualidade). O suplemento “babélia” deste jornal com mais de uma dúzia de páginas e que já vai na edição 1371, é um acontecimento e supera largamente o “Monde des livres” que aparece às sextas e é mais pequeno e menos variado.

Porém, em Portugal (e isto desde a morte de “O jornal”) a causa cultural tem perdido espaço. Sobrevive, com dificuldade, o “Jornal de Letras” (outra obrigatória e quinzenal leitura) e há por aí, tentativas dispersas e irregulares de imprensa cultural que morrem às duas por três por falta de leitores e de anunciantes. Por todos refiro o extraordinário “& etc.” suplemento e depois edição autónoma do Jornal do Fundão. A colecção completa (25 números) vale hoje uma pequena fortuna e as escassas dezenas de colecções encadernadas pelo editor praticamente não tem preço. (se algum leitor tiver uma e ma queira vender avise-me)

 

Ora o Público, jornal generalista, pertence, por vocação e tradição, a esta espécie de meteoritos jornalísticos que não chamam as grandes massas mas estão indissoluvelmente ligados ao melhor e ao mais puro espírito da democracia. Nasceu na 3ª República, orientado pelo Vicente Jorge Silva, alma do “Comércio do Funchal”, o jornal cor de rosa onde deixei alguns poucos artigos embora tivesse enviado para a Redacção muitos mais. A Censura foi implacável comigo e durante um interrogatório durante a minha última prisão o inspector que me coube insistia muito no carácter “subversivo e trocista” das minhas tentativas cronísticas. Fiquei orgulhoso por ter um leitor tão atento... e desanimado porque a atenção dele e de mais um par de funcionários me cortasse as asas para a glória literária...

Voltemos, porém, ao Público e aos seus escassos trinta ou quarenta mil leitores (em papel): há naquelas páginas, que o dia a dia tritura, uma alegria, um profissionalismo, uma teimosia que merecem um olhar. E, ao mesmo tempo, todos os dias lá aparecem a crónica de Miguel Esteves Cardoso e os desenhos irónicos e certeiros de Luís Afonso. Todos os dias! É obra!

No que toca ao jornalismo dito de investigação destaquemos o seu cuidadoso carácter sóbrio, a recusa do sensacionalismo que contamina quando não destrói outros exemplos noutros jornais. Raras, muito raras vezes, vi o jornal ser desmentido.

Finalmente (e porque este texto comemorativo já vai aparecer com alguns dias de atraso) gostaria de destacar o que me parece ser uma característica quase única na débil imprensa diária portuguesa: a tenção à divulgação de notícias científicas (da arqueologia à biologia, da química à medicina) que conseguem entusiasmar o leitor mais preguiçoso.

Tudo isto pelo preço de duas bicas na esplanada do costume!

Que bom!

Que muitos anos se sucedam, iguais ou melhores. Se algum de nós há de morrer espero ir eu em primeiro lugar não só porque tenho mais do dobro da idade do jornal mas sobretudo porque amanhecer sem o jornal tornaria ainda mais tristonhos os dias. Ou mais vazios...

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