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Incursões

Instância de Retemperação.

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23
Mar18

Estes dias que passam 368

d'oliveira

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O regresso dos mortos mortos

 

 mcr  22/23 de Março de 2018

 

O jornal “Público” traz hoje (22/3) mais uma reportagem sobre a trasladação do cadáver de um militar morto na guerra colonial. Obviamente era o de um soldado de origem humilde. Daqueles cuja família nunca poderia pagar os custos do repatriamento do cadáver. Naqueles tempos ásperos e obscuros, a quantia exigida era quase um absurdo para mais de 80% da população portuguesa. Pior: os soldados e cabos que faziam o Serviço Militar Obrigatório vinhamde famílias numerosas, pobres e razoavelmente incultas. Os senhores oficiais (do quadro ou milicianos) eram provenientes das elites, de gente mais acomodada que mesmo com grande sacrifício poderia custar a trasladação. Ignoro se os oficiais do QP (Quadro Permanente) teriam o privilégio de ser repatriados gratuitamente quando morriam nos sertões africanos. De todo o modo, as baixas no corpo de oficiais foram diminutas, não só porque estes eram menos mas sobretudo porque o seu treino militar era superior. É verdade que alguns (muitos. E um único já seria demasiado)por lá morreram. Estou a lembrar-me do João Cabral de andrade, meu amigo, do Bação Leal que mal conhecia ou do José Manuel Pais que bateu com os costados em angla depois de denunciado por um miserável informador da PIDE, estudante como ele, e hoje médico na “outra banda” (Este canalha deve ter denunciado meio CITAC a que pertenceu e a sua sorte é apenas derivada da minha falta de memória. Não me lembro do seu nome infelizmente)

Voltando ao tema principal: os mortos na guerra de África, colonial ou do Ultramar, como lhe quiserem chamar.

Bem ou mal, estes jovens homens morreram ao serviço de Portugal. como antes, de 1916 a 1918 morreram milhares de outros na Flandres com o mesmíssimo pretexto de salvar o Império Colonial. Ou de tornar a 1ª República mais aceitável perante uma Europa que nos olhava de soslaio...

Conviria acrescentar, mesmo que isso perturbe algumas ignorâncias bem pensantes, que esta guerra de 13 longos, longuíssimos, anos com o seu cortejo de 9.000 mortos e de muitos mais feridos (sem falar em todos, e são multidão, os que se viram afectados – algumas vezes para toda a vida- com o stress de guerra) que a defesa das “colónias”, do “ultramar” ou , tout-court, de Portugal foi durante muito tempo uma causa popular em Portugal e entre os portugueses. É verdade que, nesses anos de chumbo, houve sempre “alguém que resistiu”, que não se conformou mas isso não quebrou o largo consenso que subsistiu quase até ao fim do Estado Novo. Aliás, este caiu por obra dos oficiais do QP que se fartaram da guerra e da falta de perspectivas que tal estado de coisas pressupunha. É verdade que difusa mas seguramente crescia na população (sobretudo a mais ilustrada) uma crítica à guerra. É verdade que a gigantesca emigração verificada nos anos 60 e 70 do século passado também teve uma pequena componente política de gente que fugia à guerra pelos mais variados motivos sendo que o principal era obviamente a vontade de não arriscar o coiro numa guerra que nada lhe dizia. É verdade que, mesmo cá dentro, houve sempre oponentes à guerra fosse por pacifismo, fosse por acreditar no direito dos povos a disporem deles próprios. Mas a verdade, a “áspera verdade” (Danton) é que desde a Situação até boa parte da Oposição, as colónias foram durante muito tempo indiscutíveis. E tão indiscutíveis foram que, de 1965 a praticamente 1974, a população branca colonial em Angola e Moçambique aumentou de forma quase exponencial. Foram dezenas de milhares ou, talvez, mais de cem mil, os portugueses da “metrópole” que resolveram fixar residência em África. Acreditavam na melhoria de vida, nas vantagens de lá viver, na continuação do Império mesmo na forma mitigada de federação de Estados de língua portuguesa. Poder-se-á dizer que este movimento se inscrevia no mais geral movimento migratório cujo centro foi Paris e região adjacente. Seja como for, este ocorreu e contribuiu em muito para o enorme surto de desenvolvimento que as duas principais colónias experimentaram. Estes novos migrantes para o “Ultramar” modificaram objectiva e subjectivamente as condições de vida da maioria negra. Tinham menos preconceitos raciais, já não vinham como grupo superior aos colonizados, acabara o Estatuto do Índígena, as escolas abriam-se de forma extraordinária   aos negros e via-se o impossível: acesso a cargos políticos municipais e regionais. Nada disto diminuiu o ímpeto independentista entre os novos “assimilados” (se me é permitido o uso de uma expressão repulsiva e negregada), bem pelo contrário. As novas e incipientes elites africanas alinhavam nas escolas secundárias e nas novíssimas universidades pelo diapasão nacionalista influenciando, mesmo que num número mínimo, jovens brancos.

Neste amplo movimento devem ainda contabilizar-se o aumento de casamentos e uniões de facto inter-raciais. Muitos soldados desmobilizados optaram por se fixar nos territórios onde tinham combatido e juntavam-se com nativas africanas.

Voltemos, porém, aos 1500 soldados metropolitanos mortos nos teatros de guerra e aí sepultados em cemitérios disseminados na Guiné, Angola e Moçambique. Terá passado por África cerca de um milhão de portugueses parecendo, por isso, diminuto o número de mortos total (9000) e mais ainda o de cadáveres que não voltaram à terra natal. Este é um argumento forte para, de uma vez por todas, se proceder ao repatriamento desses corpos. O Estado português não pode atirar para cima dos familiares sobrevivos o custo desta operação que, por ser isolada, tem sempre um preço elevado. Mal ou bem esta gente morreu pelo país exactamente como os morto da 1ª Grande Guerra cuja memória se perpetua em centenas de monumentos por todo o país, em talhões próprios nos cemitérios das principais cidades ou na simples existência de uma “Liga dos Combatentes” criada em 1923 em plena1ª República e destinada a perpetuar a memória dos mortos e em ajudar os sobreviventes em diversos domínios.

Esta instituição poderia e deveria ser ajudada no apoio que presta às famílias dos caídos em combate nas colónias. O Estado deveria assumir uma parte importante dos custos da trasladação dos cadáveres o que, numa operação conjunta, mitigaria, e muito, os custos dessa missão legítima, necessária e, porque não?, patriótica.

Para uma imensa maioria dos portugueses a lembrança cultual dos seus mortos faz parte da sua razão de ser. Digo portugueses mas poderia dizer seres humanos. Uma das características do actual homo sapiens é o culto dos mortos. Quase se poderia dizer que a civilização começou com o sepultamento (ou com fórmulas mortuárias de valor idêntico) dos membros da comunidade. A sepultura tem a mesma marca das gravuras rupestres e traça com bastante segurança a passagem para o que chamamos civilização humana.

É verdade que há países em que a norma é sepultar o seus mortos em combate nas regiões onde pereceram. O caso da Grã Bretanha é o mais conhecido. Há cemitérios de guerra britânicos disseminados por todos os continentes. Todavia, esses cemitérios são regra geral considerados “território britânico”, estão bem tratados e melhor documentados. Os americanos têm por principio não deixar nenhum dos seus soldados (morto ou vivo) para trás. Ainda hoje, rebuscam em zonas perdidas do Vietnam e do Laos cadáveres dos seus combatentes. Criaram para o efeito uma agência e celebraram acordos e protocolos com as autoridades nacionais desses países com que estiveram em guerra. Trasladaram para o cemitério nacional de Arlington cerca de meio milhão de cadáveres de soldados mortos em combate desde a guerra da Secessão até às mais recentes (Vietnam, Iraque).

Anda por aí meio mundo a encher o peito de bazófias sobre as maravilhas da pátria mormente as mais recentes, desde o festival eurovisão até ao “melhor do mundo” e a um obscuro campeonato de futebol de salão. Tudo isso e o sol, o sal e o sul tão turísticos aquece os ímpetos da portugalidade do século XXI. Será pedir muito uma sepultura junto dos seus para os soldados perdidos numa guerra travada, queiramo-lo ou não, em nome de todos nós  nos sertões esquecidos da Guiné, de Angola e Moçambique?

 

*O título do folhetim refere um filme de terror dos anos 80 (“O Regresso dos mortos vivos” de Dan O’Barron) que, com o passar do tempo se tornou um filme culto que teve direito a remake e continuações.

** este texto começou a se escrito ontem mas a habitual preguiça do autor só hoje permitiu concluí-lo. Mas não é um dia a mais que prejudica uma justiça que tarda já quase meio século.