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Incursões

Instância de Retemperação.

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11
Abr18

Estes dias que passam 369

d'oliveira

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Em memória de Manuel da Graça Patrício Curado

por mcr (10/11, abril de 2018)

Enquanto filho segundo, a família queria-o padre. Era assim no Alentejo, mais especificamente em Nisa. Lavradores com algumas posses Mariana e Francisco Curado destinaram Joaquim o mais velho a doutor e a herdeiro da maioria dos bens familiares. Manuel o benjamim seria padre evitando assim uma descendência que concorreria na repartição da herança com a do irmão mais velho.

Manuel que ainda fez grande parte do seminário não esteve pelos ajustes. Aos 18 anos fugiu para Lisboa e alistou-se no então chamado Exército Colonial. Para Angola e depressa, terá pensado. Nessas terras foi soldado de todas as guerras grandes e pequenas. Graças à sua inteligência, à sua tenacidade e à sua coragem nunca desmentida, foi sendo sucessivamente promovido até terminar a carreira como capitão, o máximo que poderia atingir. Pelo meio ficaram a Grande Guerra, várias campanhas de “pacificação” sempre no Sul, um casamento, sete filhos e a participação na “revolução” contra um governador geral autoritário e tonto. A sua terceira filha, minha mãe, recorda a saída da companhia que ele comandava em direcção a Luanda para secundar a decisão do Chefe de Estado Maior, coronel Genipro de Almeida, que abertamente desafiou o Governador Filomeno da Câmara, fugido para Benguela deixando nas mãos do seu chefe de gabinete, tenente Morais Sarmento, uma série de papéis assinados que convenientemente preenchidos demitiriam, a pretexto de pertença à Maçonaria (a Kuribeka), meio mundo na colónia. Sarmento, cercado na própria casa terá sido abatido por “algum soldado negro”, nervoso e pouco habituado ao português... (assim reza a história “oficial”)

É provável que a honrosa e honrada carreira militar de Manuel Curado tivesse sido prejudicada por este aventura político-militar que, se conseguiu afastar Filomeno, também não poupou Genipro e os militares seus apoiantes.    

De todo o modo, não é de meu avô que pretendo falar mas sim da Guerra, a grande, a primeira, em que ele participou como combatente no extremo sul de Angola em confronto aberto com as treinadas tropas alemãs do então Sudoeste Africano (Namíbia, hoje).

Portugal logo no início da guerra viu-se envolvido no conflito com a Alemanha quer no Sul de Angola, quer no Norte de Moçambique. No primeiro dos casos não se podendo falar de uma campanha especialmente brilhante sempre é verdade que a “frente” nunca saiu da zona fronteiriça. Em Moçambique a guerra foi um desastre. Apesar do elevado número de expedicionários portugueses, as tropas alemãs do extraordinário general Paul von Lettow-Vorbeck (que terá derrotado 17 generais e um marechal sem nunca ter sido vencido), fizeram o que quiseram. Os portugueses referem piedosamente a “vitória” de Nevala (na realidade ocupada depois de abandonada) e escondem as incursões profundíssimas do alemão que chegou a ameaçar as proximidades de Quelimane depois de se passear pelos territórios de Cabo Delgado, Moçambique e Niassa sem grandes incómodos. Esta desastrada campanha deve-se mais à inadequação do treino militar, ao quase completo desconhecimento do território onde decorriam as operações (de Kionga no litoral até ao Niassa seguindo todo o percurso do Rovuma), a uma intendência incapaz e a um apoio médico sanitário absolutamente medíocre.

Convém salientar que do outro lado von Lettow contava apenas com escassos milhares de alemães e nunca mais de 12.000 askaris. E com uma organização ímpar apoiada lealmente pelas populações branca (escassa) e negra do Tanganika (território atacado a Norte e pelo mar por tropas e marinha inglesas, superiores em número e esmagadoras no mar).

De todo o modo, a guerra em África correspondia um desígnio nacional, sentido por todos (a defesa do Império Colonial cuja existência estaria ameaçada por alegados conluios anglo-germânicos de partilha dos “nossos” territórios.

Ora, e é aqui que bate o ponto, tal não sucedeu com a tola, funesta e desastrosa intervenção no cenário de guerra europeu.

A intervenção portuguesa na Flandres foi desejada pela “República”, recente e mal vista na Europa. Os “guerristas” viam na participação nacional um meio de serem reconhecidos pelos países europeus e, depois de uma pertinaz campanha, conseguiram entrar no conflito e enviar tropas para a frente europeia.

Ora o CEP (a força expedicionária portuguesa, dotada de duas divisões de vinte mil homens cada) foi formado à pressa, em Tancos – o “milagre de Tancos” – e partiu para o norte da França em barcos ingleses. Ali chegadas, houve que preparar, de novo, as tropas   portuguesas para o combate, dar-lhes um verdadeiro treino “à inglesa” por instrutores ingleses, fardá-las (!), à inglesa, armá-las (!!) à inglesa e enquadrá-las na dependência inglesa. Até a comida foi, nos primeiros meses, inglesa. Aos soldados portugueses, quase todos de origem rural e na maioria analfabetos, nunca foi verdadeiramente explicada a razão de terem sido trazidos para uma terra que não era deles, que nada lhes dizia, cuja língua ignoravam e cujo clima era inclemente.

Também não estavam preparados para a “guerra industrial” e, desgraçadamente, foi-lhes atribuída uma zona de frente pantanosa que inundava as precárias trincheiras que conseguiam erguer no intervalo dos bombardeamentos. A intendência não funcionava ou funcionava mal e, a partir do primeiro ano, (culpa de Sidónio mas também, e muito, do governo que o antecedeu. Basta dizer que para levar e trazer soldados de e para Portugal havia que contar exclusivamente com a marinha britânica!...) deixou de haver “roulement” das tropas. É nesse cenário de falta de quase tudo, de mau comando, fraca oficialidade, dificuldade de transmissões que se inscreve o desastre de La Lys. Ainda por cima, o violento ataque alemão ocorreu em vésperas de mudança de posições da topa na frente que deveria ser rendida e deslocar-se para a retaguarda no dia seguinte ao do ataque de 9 de Abril. Além do cansaço, da desmotivação, das dramáticas condições das trincheiras, havia a notícia da saída daquela posição. Provavelmente, à vigilância constante sucedera algum alívio e menor precaução.

Numa palavra, os alemães destroçaram, esmagaram, aniquilaram a Divisão portuguesa. Entre mortos, feridos e prisioneiros ficou ali quase toda a gente mesmo que se saiba que alguns escassos milhares de homens recuaram precipitadamente, debandaram, fugiram varridos pelo fogo de artilharia, pelo gás, pela ferocidade dos atacantes. A frente portuguesa desapareceu e o resto da tropa portuguesa que estava de reserva nunca mais foi operacional. A guerra acabaria alguns meses depois, os mais de sete mil (!!!) prisioneiros portugueses regressaram dos campos de internamento, boa parte dos oficiais voltou ao país com o forte (e compreensível) desejo de ajustar contas com a “República” ou pelo menos com os “democráticos” que tinham exercido sem glória nem talento o papel de “falcões” quando não sabiam sequer ser frangões.

La Lys, pese embora o soldado Milhões e mais um pequeno punhado de corajosos, deveria ser lembrada apenas como um dia de luto pesado não tanto por Portugal mas pela incúria, incapacidade, desfaçatez do Poder da altura.

Cem anos depois, os senhores Presidente da República e Primeiro Ministro foram juntos, de mãozinha dada, celebrar esse trágico momento da nossa História. E fizeram-no, pelos vistos, ufanos, como se de uma vitória se tratasse. Como se, nas palavras do Senhor Presidente, se estivesse a comemorar uma vitória que só não foi a mais trágica derrota depois de Alcácer Quibir, porque os dois flancos ingleses travaram, com custo mas determinação e muitos mortos, o ataque das divisões alemãs salvando possivelmente as restantes tropas portuguesas, mais à retaguarda, de um total aniquilamento.

Entre um João Chagas (pelo menos brilhante escritor), guerrista assanhado e duramente criticado por Aquilino Ribeiro (“É a guerra”, Bertrand) e Marcelo Rebelo de Sousa começam a despontar semelhanças que não engrandecem o primeiro nem melhoram o tíbio e patrioteiro discurso do segundo.

Os morto de La Lys, do sul angolano e do norte de Moçambique mereciam mais, muito mais e melhor. Pelo menos, respeito e verdade. Mas isso é tarefa para Santo António que sabia pregar aos peixes. Por cá prefere-se pregar aos papalvos que é como somos tomados.

 

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