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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

15
Mai18

Estes dias que passam 370

d'oliveira

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Força, força, camarada Sócrates

Nós seremos a muralha de aço

 

mcr 15

 

Algum(a) leitor(a) mais idoso recordará um patético slogan do Verão violento de 75 em que as “massas populares” (melhor: um punhado de criaturas que pensava que o era) aclamavam incessantemente o Sr. coronel Vasco Gonçalves durante o que se pensou ser um prelúdio ao assalto ao Palácio de Inverno.

A algazarra foi orquestrada pelos minoritários adeptos de uma cubanização da política portuguesa que pareciam entrincheirados numa nova linha de Torres com o epicentro na margem sul. E juravam que eram fortes, que representavam o país, ou os trabalhadores (ou os trabalhadores “conscientes”), ou qualquer outra coisa.

Poucos meses bastaram para se ver que nem sempre “uma centelha incendeia toda a pradaria” e o pouco que ardia era fogo de palha.

A muralha de aço era de barro e os muitos milhares que presumivelmente a constituíam desapareceram sem deixar rasto notável pese embora a mitologia neo-sebastianista que, ainda hoje, suspira por aqueles dias incandescentes.

O país real (bom ou mau, mas real) veio ao de cima e vive pacatamente 363 dias por ano, As excepções são as efemérides do 25 de Abril e 1º de Maio em que, no meio de uma indiferença bastante generalizada, há em algumas cidades marchas de cidadãos que reivindicam (contra quem? Contra o quê?) a “herança de Abril” e manifestam uma e outra vez o seu horror à “longa noite fascista”. E, no primeiro caso, o parlamento é engalanado, há discursos comovedores mesmo se repetitivos de ano para ano, e uma parte significativa dos deputados estreia um cravo vermelho na lapela ou a espreitar pelo decote.

Nada tenho contra este quadro tanto mais que, como as pessoas, sou de opinião que as sociedades necessitam de rotinas estabelecidas. Não deixo, porém de sublinhar que as festividades tem menor ou maior “quadro humano” consoante o tempo é ou não estival. Em havendo sol q.b. e calor o povo deserta as festas e ruma às praias para aproveitar o feriado. Nada mais natural nem mais lógico. Nem mais humano.

 

Tudo isto me veio ao pensamento com a actual vaga de comentários acerbos sobre o sr. Pinho e o sr. José Sócrates. De repente, o partido que representaram no Governo, desatou numa jeremiada patética, num tilintar de cilícios, num discurso de desculpas e indignações que nos apontam cruelmente a proximidade d eleições.

Quem me lê, nunca aqui viu escrita qualquer condenação do ex-primeiro ministro socialista. Não que eu o considerasse inocente e limpo de toda a suspeita. Nada disso. Mesmo tendo votado, uma única e irrepetível vez, na criatura, só o fiz para esconjurar um outro fantasma chamado Santana Lopes. Que sucedia a um outro agoirento governante chamado Durão Barroso, escafedido a meio mandato para a Europa e para um posto que só lhe caiu em cima por os que mandavam terem achado que que ele, no leme, não estragava nenhum arranjinho a ninguém. E não estragou.

Todavia, uma vez desaparecido Santana do panorama, logo se começou a ver quem era o governante Sócrates. Autocrático, vaidoso, incapaz de permitir qualquer escrutínio à sua vida pública, aos seus diplomas (ai os diplomas, os exames ao domingo, o inglês técnico, a barafunda, a licenciatura que de repente deixou de o ser pelo não reconhecimento da Ordem dos Engenheiros), a vida acima das possibilidades, o despesismo em obras públicas de duvidosa utilidade e pesadíssimos encargos, a gestão danosa, a ideia de que para ultrapassar as contas públicas deficitárias se poderia continuamente recorrer a empréstimos, o alastramento descomedido das PPP, os sinais iminentes da crise que nos iria seguramente cair em cima, o inacreditável aumento da funçanata pública em vésperas de eleições, a tentativa de controlo dos media, os processos milagrosamente parados pela cumplicidade de certas instâncias ligadas à Justiça, tudo indiciava que no reino da Dinamarca lusitana havia algo de podre para não falar de esqueletos no armário. Mesmo quando, se demitiu forçado por um seu ministro das Finanças e derrotado sem apelo nem agravo na eleição seguinte, o sr. Sócrates não percebeu que se impunha, para salvação própria, um período de nojo, muito comedimento, cautela e caldos de galinha.

Nada disso sucedeu.

A criatura foi para Paris “estudar”. Com um empréstimo junto de uma instituição bancária que, à partida, o obriga a uma vida simples, frugal e serena. Nada disso ocorreu.

O homenzinho instalou-se no XVI bairro, o mais caro de Paris. Numa casa que, pelos vistos, agora se aluga a 1000 euros por noite, frequentando (segundo a imprensa da época) restaurantes caros (mesmo se os há bem mais caros em Paris) e uma prestigiada Escola.

De Paris, ao fim de um curto período, trouxe um livrinho parido segundo agora consta por uma mãe de aluguer, no caso um cavalheiro que é professor universitário numa faculdade portuguesa. A obrinha, modesta e inócua, foi alvo de uma campanha publicitária extraordinária e pareceu vender mais do que o finado Saramago. De repente, descobre-se que até isso, esses milhares de exemplares se compravam ao alqueire, ao quintal, à tonelada eram fruto de uma manipulação do mercado. E sempre por um pequeno grupo de criaturas que nem sequer disfarçavam o rasto. Tudo para satisfazer a ensandecida vaidade de alguém que alegadamente era o seu autor.

Durante o processo, descobriu-se que o famoso milagre da Rainha Santa tinha uma espantosa réplica nos nossos tempos. Um “amigo” (e que amigo!) financiara tudo desse as estravagâncias parisienses até à compra dos livros. E comprara bens da mãezinha de Sócrates. Casas e casinhas.

Não sei quem é esse benfeitor Santos Silva. De onde lhe vem o dinheiro. Quanto exactamente investiu nessa amizade à prova de bala, à prova de tudo.

Sócrates, entretanto, é preso à saída do aeroporto. Comoção geral! Condenação enérgica de amigos, companheiros e camaradas. E de muito povo, sempre ele. O dr. Soares visita-o na cadeia. Formam-se caravanas por todo o país socialista para o ir venerar a Évora. Cantam-se à porta da cadeia, cantigas revolucionarias ou quase. Senhoras choram comovidas. Sócrates amigo, o povo está contigo.

Os mais prudentes, de todo o modo uma minoria, refugiam-se no segredo de justiça e juram que são os procuradores e mais perseguidores que trazem cá para fora, gota a gota, pormenores cada vez mais escabrosos dos interrogatórios. E o mundo, aquele mundo, vai-se desmoronando: os processos contra outras pessoas –sempre bem colocadas – acumula-se. O escândalo cresce. O “deserto” à volta de Sócrates, “cresce”, se me permitem citar Nietzsche.

As boas almas indignam-se não tanto com os eventuais espantosos e inauditos crimes mas com o que escorre cá para fora em cascata. O cúmulo foi a longa reportagem da SIC (da SIC e não do “correio da manhã”). Os jornalistas da estação falam em interesse público. Vicente Jorge Silva e Jorge Wemans – dois jornalista que muito prezo – falam, pelo contrário em jornalismo de sargeta. Será? Melhor: sem esta reportagem saber-se-ia hoje alguma coisa desta sórdida história?

Dizem-me: esta reportagem colocou o julgamento de Sócrates na praça pública. É verdade em parte. Todavia, uma coisa é a discussão política e ética e moral deste caso a todos os títulos escabroso, outra será o julgamento em tribunal. Se entretanto ocorrer no nosso tempo. Não há quem aposte o começo em data próxima e, muito menos, quem duvide que tal processo durará anos e ano. Por mim, que provavelmente já cá não estarei, a coisa nunca terá fim antes de 2030. E estou a ser optimista.

Conviria, porém, analisar melhor esta cambalhota dos amigos de Sócrates. Ao contrário da outra muralha de aço (que ainda hoje recorda melancólica o fim da “revolução”) esta nova espécie de arrependidos defensores do “animal feroz” (Sócrates dixit) vem agora a terreiro manifestar indignação, fúria, desolação. Arece que foram enganados! Não viram, não ouviram, não souberam ler os sinais evidentes e estridentes do que homenzinho era. Há mesmo uma ex-namorada, jornalista de profissão que num inenarrável vómito auto-punitivo se despe em público e conta a desventura de uma vaga coabitação entre luxos estrafalários de que nunca desconfiou. O amor é cego! Ou parvo.

Com amigos destes, Sócrates não precisa de inimigos. Mesmo se, como se sabe, foi ele o seu principal inimigo e carrasco. Foi petulante, imprudente, impudente e, a l alongue, néscio até dizer chega. Estou a vê-lo a olhar para a populaça que o aclama(va) e a pensar quão tonta ela era. E, finalmente, a desprezá-la. Terá dito para os seus botões: “todo o burro come palha, a questão é saber dá-la.”

O seu consulado foi uma septénio de hipóteses perdidas, uma navegação à deriva, um exercício de despudor que, entretanto, ainda não foi posto em causa sequer pelos recentíssimos “arrependidos” e pela sofredora Madalena atraiçoada.

A ex-novel “muralha de aço nem sequer tem a dignidade da antecessora que, mesmo vencida, conseguiu debandar com certa ordem e recordar entre choro e ranger de dentes o ano ardente em que parecia poder conquistar o mundo.

E a procissão, podem estr certos, ainda só vai no adro. Como nas telenovelas os próximos capítulos hão de ser escaldantes.

(nota à margem: entre os indignados e ofendidos há gente que graças a um buraco na lei tem viajado de e para as Ilhas com dois subsídios que não se complementam mas antes se deviam anular.

* na gravira: Roque Gameiro "Naufrágio de Sepúlvreda"

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