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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

21
Ago18

Estes dias que passam 373

d'oliveira

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Quaterque beatus

(um grande professor e um “homem bom”)

mcr 21.08.18

 

Soube demasiadamente tarde da morte do Professor Doutor Rui Alarcão. Mesmo detestando enterros cumpria-me estar lá. Por várias e ponderosas razões: como aluno; como conhecido; como democrata que ainda se lembra do outro tempo, do tempo do medo e da coragem e de como era raro ver um professor ao lado dos estudantes como sempre foi o caso de Rui Alarcão; como velho amigo da Eliana, sua mulher que tive a sorte de conhecer mal cheguei à Faculdade. E, finalmente, mesmo se, eventualmente, já não mereça o título, como jurista. 

O jornal onde leio a notícia fala do “Magnífico Reitor”, título com que se adornam , muitas vezes sem fundamento, os reitores da velha universidade. No caso de Rui Alarcão (como ocorreu com outros dois grandes professores meus: José Joaquim Teixeira Ribeiro e António de Arruda Férrer Correia) o título assentava como uma luva. Grandes mestres, homens civilizadíssimos, cultos, resistentes desde sempre, sabedores. Com mais dois ou três outros salvaram a Faculdade de Direito e a Universidade de Coimbra (neste caso com mais contributos de outras faculdades evidentemente). Recordo dois outros professores que me aturaram com bonomia e a quem devo o mesmo que aos já citados: Jorge Figueiredo Dias e Carlos Mota Pinto. Estes homens além de ensinarem, de respeitarem os alunos, davam lições de cidadania e solidariedade. E marcaram várias gerações de estudantes. Com alguns privei muito de perto mas a todos devo muito.

Todavia, é de Rui Alarcão que queria falar. O título deste folhetim, mais uma latinada significa alguém, uma pessoa, quatro vezes abençoada, feliz se quiserem.  Ora Rui Alarcão nasceu sob uma estrela amável: inteligente, culto, persistente e sábio. Eis quatro qualidades que, para efeitos do que quero, reduzirei a duas, emparelhando-as. Era também um excelente professor. E. last but not the least, teve a sorte de ter ao seu lado (e não atrás, como às vezes se diz, uma mulher que, todos quantos a conhecemos e estimamos,  poderão garantir que também ela é, foi sempre, um somatório de qualidades. Como estudante fez parte, e parte muito activa (Presidente do Conselho Feminino), do renascimento da Associação Académica, foi um dos nomes sonantes e intervenientes do CITAC (Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra), era a par de excelente aluna, uma militante democrata de sempre e mais tarde, enquanto jurista distinguiu-se pela actividade que desenvolveu mormente nas questões que diziam respeito  aos direitos de família e aos da juventude. Falo obviamente de Eliana Gersão, a quem daqui mando um comovido e sentido abraço. E era esta a quarta felicidade ou sorte de Rui Alarcão.

Costuma dizer-se que a morte de alguém é uma terrível perda. De Rui Alarcão subsiste, para além do respeito e da admiração de centenas de ex-alunos, uma enorme lição de vida e de dignidade, de coragem e de discrição, de humor e de cultura. Quisesse ele, e poderia ter sido mais coisas, poderia ter feito uma carreira política se é que isso acrescentaria algo ao seu enorme legado de professor e jurista. Não quis. Era um homem discreto e, provavelmente, a luz crua dos projectores mediáticos incomodá-lo-ia. Escolheu as suas trincheiras e nele se manteve sempre com hombridade e determinação. E coragem, claro que os anos da primeira parte da sua vida foram passados durante o Estado Novo. E não foi por acaso que, depois desempenhou durante três mandatos o sempre difícil cargo de Reitor da Universidade. Sabiam os seu eleitores (quer os estudantes quer os seus pares) que aquele homem cortês e discreto prestigiaria o cargo e, sobretudo, a Universidade. Olhando para a história das universidades portuguesas não abundam exemplos destes. Com oitenta e oito anos, Rui Alarcão podia gabar-se, de ter tido uma vida cheia, útil e estimulante para quantos o conheciam. Deixa um legado e, sobretudo, um grande, imenso exemplo de como, mesmo nas piores situações, um Homem pode ser livre e ajudar a libertar os seus concidadãos. Além das belíssimas lições de Direito deu-nos lições de vida e de firmeza perante situações asfixiantes.

Foi uma honra ter sido aluno dele.