Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

estes dias que passam 377

d'oliveira, 28.04.20

maxresdefault.jpg

Diário das semanas da peste

Jornada quadragésima primeira

A primeira vez!

mcr, 28 de Abril

 

 

A propósito da não realizada manifestação festiva do 25 A, avenida abaixo, uma leitora (Ena! Ena!) pergunta-me em tom de desafio se tenho algo contra as manifestações, ou se alguma vez me manifestei.

Pressinto nestas duas afirmativas perguntas (passe o trocadilho) que a leitora me dá como um desses comentadores encartados que nunca se molharam. Não o creia, cara leitora, eu comecei cedo, mesmo se involuntariamente. De facto, à saída de um cinema, por razões que nunca descortinei, a polícia vulgar, entendeu que o ajuntamento dos fregueses que acabavam de ver “A ilha ao sol” (de Robert Rosen com, entre muitos e importantes, dois actores negros Dorothy Dandrige e Harry Belafonte, que é também o autor e intérprete da canção com o mesmo título) não passavam de adeptos do general Humberto Delgado, esperado em Braga nesse mesmo dia.

Vai daí, começou o bataclã. Atiraram-se voluptuosa e insistentemente a nós e conduziram-nos (empurraram-nos como carneiros)para a Avenida central onde, isso sim, milhares de pessoas esperavam o candidato. Jovem e desprevenido e, pior ainda, ingénuo, em vez de correr tentei explicar a minha presença. Baldado intento! Fui corrido à chanfalhada como os outros e metido numa confusão para que não tinha contribuído.

Três anos depois, estava na faculdade e já sabia como é que as coisas funcionavam, ou melhor, começava o meu tirocínio de oposicionista. Nesse ano de 1961, disputavam-se as eleições legislativas e a oposição apresentava umas listas que, obviamente, não iriam até ao fim por falta absoluta de garantias. Mas enquanto não se desistia, o que acontecia sempre quase à boca das urnas, lá se iam fazendo uns comícios.

E, como não podia deixar de ser numa cidade universitária, com uma Associação Académica gerida pelos “republicanos”, previa-se um comício para a Juventude. Eu fui mobilizado para a equipa que prepararia o Teatro Avenida, a distribuição de panfletos e já não sei que mais.

O que sei, e bem, foi que na tarde do dia do comício (que seria à noite) se soube que este estava proibido. Razões? Não me lembro ou não as havia.

Desanimado, deixei o Teatro mas alguém me chamou. “Vamos fazer uma manifestação. Anda daí que a malta vai tratar de combinar os pormenores”. Segui o meu guia e acabei, com mais uma dúzia de conspiradores, no escritório do dr. Alberto Vilaça, advogado, comunista, recém chegado de mais uma estadia na prisão. Foi ele que nos explicou que não deveríamos anunciar a proibição do comício senão quando já houvesse muita gente à porta do teatro. Depois, havia que denunciar a perseguição aos democratas e propor uma ida até ao Governo Civil para protestar por mais aquele atropelo.

Nem sei se jantei mas fui dos primeiros a chegar ao Teatro, vi a multidão engrossar paulatinamente até que alguém de uma janela comunicou  a ofensa aos direitos, a proibição sem motivo. Logo outro, berrou que se devia ir reclamar para o Governo civil e em menos de cinco minutos uma multidão de rapazes, sobretudo rapazes, poucas raparigas e alguns cidadãos mais velhos, começou a descer a Avenida Sá da Bandeira, obliquou à esquerda para as ruas Visconde da Luz e Ferreira Borges (o “canal”) desembocou na Portagem e, daí, tentou subir pela Couraça de Lisboa até ao Governo Civil

Do ponto de vista policial era uma má escolha porquanto, depois da Portagem, o percurso estreitava-se na Couraça e qualquer carga policial seria facilmente bem sucedida. Mas, por outro lado, desde Santa Cruz até à Portagem havia meia dúzia de cafés cheios de gente além da que se passearia na Baixa.

A manifestação seguiu este percurso, cheia de genica mas, obviamente, foi barrada por um cordão de polícia nos primeiros metros da Couraça. Em Coimbra, naquele tempo, a polícia não era especialmente benquista pela estudantada. Por seu lado, os irrequietos estudantes também não seriam especialmente amados pelos agentes. À uma, porque tinham o sangue na guelra, depois porque, por isso, conseguiam, de quando em quando, esmurrar conscienciosamente os polícias que lhes saíam ao caminho. Acrescia o facto de nas famosas escalas de criaturas da “praxe”, os caloiros estarem abaixo de cão mas acima de polícia, coisa que, provavelmente, desagradava aos servidores da lei.

Portanto, e como calcularão, durou pouco tempo, o frente a frente. E só durou algum quarto de hora porque, por outros percursos, estariam a chegar mais forças policiais de modo a bloquear os atrevidos e dar-lhes pela medida grande.

Eu ao estreitar-se o percurso fiquei na segunda ou terceira fila mas isso não me salvou de apanhar umas cassetetadas no lombo magro. Claro que fugi a sete pés, como todos os outros que se espalharam em direcção ao Parque da cidade, à ponte de Santa Clara, à marginal do rio, pelas escadinhas dos Gatos direitos à “Baixinha” ou retrocedendo pelo anterior itinerário que já estava pejado de polícias.

Magro, veloz e com as costas aquecidas, consegui escapulir-me pela praça do Comércio e daí alcançar a rua da Sofia, ainda desimpedida e meter-me na pastelaria Sirius. Só parei ao lado de um casal de estudantes de Medicina a quem implorei o empréstimo de uma qualquer sebenta que tivessem a mais. E um lugar à mesa.  Ainda tive tempo de pedir uma bica, abrir aquelas folhas absolutamente confusas para um mau aluno de Direito quando a polícia irrompeu. Felizmente, ainda estariam repousados pelo que se limitaram a passar de mesa em mesa onde estudavam quase todos os presentes e ao verem-me agarrado a um papel erudito julgaram-me inocente. E saíram como entraram começando então a batida aos que ainda tentavam escapar ao cerco policial. A refrega durou mais uma boa hora, eu não tugia nem mugia, o simpático casal de jovens médicos olhava-me como quem olha para um ET (mesmo se na época ainda não houvesse ETs) e até me pagaram a bica quando eu me dispus a desandar para recolher a penates.

A partir desse dia, imorredouro e doloroso, estive em todas as manifestações que saíram o caminho. Em Portugal e na estranja (Madrid, Paris, Berlim, Pescara, - Pescara? Pescara sim senhor! - , Roma).

A maioria das vezes, manifestei-me em Lisboa e Coimbra, a situação de estudante assim o impôs mas, com um saber de experiencia feito, comecei a teorizar sobre a melhor maneira de uma pessoa se manifestar e evitar o arraial de bordoada que isso acarreta.

A primeira cautela, se for possível, é reconhecer a geografia do local que se vai percorrer. Por exemplo, em Lisboa, por ocasião de um dos vários frustrados e proibidos Dia do Estudante, descobri que, na Praça de Londres, há uma Igreja enorme onde um fugitivo, arremedando a Idade Média, se pode acoitar se possível dentro de um confessionário vazio ou, melhor ainda, na sacristia ou anexo do mesmo teor.

Depois, o melhor percurso de fuga, porventura com algum risco, é o de furar a barreira policial, logo que começa o entrevero quando os agentes ainda não estão suficientemente enraivecidos. Uma vez do lado de lá, consegue-se sair do aperto sem consequências demasiado penosas para os nossos lombos.

Em terceiro lugar, manter, se possível o sangue frio, evitar os pontos para onde aflui mais gente, tentar escapulir-se por qualquer porta aberta sem ficar parvamente atrás dela se houver mais andares. Só um polícia sádico e sem vergonha é que sobe mais do que dúzia e meia de degraus. Sem ver a presa, desiste e segue para outra.

Lembro-me de, com o João Bilhau,  ter começado uma espécie de “guia do manifestante” que, até ser abandonado, já levava um quarteirão de conselhos úteis e simples. Como seria de esperar esta obra imortal desapareceu na voragem dos anos, na calma post-abrilista e no sossego que a idade vai aconselhando. Aliás, as únicas manifestações duras em que participei depois do 25 A, ocorreram em Madrid antes da morte de Franco.

Como por acaso, numa dessas alturas, mas ainda em pré-manifestação, encontrei o dr. Alberto Vilaça (cfr supra) que, curioso como um cuco, tinha rumado a Espanha para ver o que se passava. Salvei-o de prosseguir até à Porta do Sol onde a polícia espanhola estava prestes a malhar nos nuestros hermanos que se contramanifestavam. De facto, em Portugal ( e não só) tinham-se feito manifestações contra a pena de morte de uns pobres diabos anarquistas que foram garrotados e uma multidão espanhola e imensa tinha acorrido à Praça de Oriente proferindo impropérios contra todo o mundo e cantando o “Cara al Sol” de pata ao alto. Era contra estes que um punhado menos numeroso mas intrépido decidira juntar-se, mais abaixo. Deve ter sido uma tourada à moda antiga porque os “grises” em começando a malhar não param.

Se não me dei ao luxo de estar nesta, ocasiões não faltaram pois, na cidade Universitária onde eu seguia um Curso de Direito Comparado, raro era o dia em que a polícia não invadia o campus e a malta não andasse numa correria proferindo toda uma série de hijos puta e outras amabilidades enquanto escapava. Por uma única vez levei uma coronhada na costela que me ia derreando mas, como sabia que se não corresse ainda apanhava mais, fiz das tripas coração, aliás pernas, e cavei a bom cavar calle Princesa abaixo. De todo o modo, uma em cinco possíveis foi um bom score, talvez até digno de um rabo ou uma orelha de guardia  civil. Mas isso são outras contas e só um especialista espanhol as poderia fazer. Não me lembrei na altura e agora é tarde de mais.

Leitora manifestante, estou limpo de dúvidas suspeitas? Então lá vai livro: “Poeta en Nueva York”, um livro que foge um pouco daquilo que sempre pensamos ser o Lorca verdadeiro. Na mesma onda, se preferir teatro, há também uma peça onde a herança surrealista é mais visível e interessante: “Asi que pasen cinco años!”. Lorca é sempre bom mas estes Lorcas, ligeiramente fora da caixa, são surpreendentes e de cortar a respiração. Há edições baratíssimas. Se alguém tiver paciência, viver em Lisboa e se já houver alfarrabistas abertos, vi, por várias vezes, a preços inacreditavelmente baixos, as “Obras Completas”, edição em papel biblia encadernada, da Aguillar. Uma beleza e um prodígio.

 

*na vinheta: os primeiros libertadores de Paris eram, na quase totalidade, espanhóis da 9ª companhia apelidada “la nueve”. Os seus carros de combate tinham, todos, nomes de batalhas da guerra de Espanha em que tinham participado. Refugiados em França que os não recebeu bem, conseguiram chegar À argélia e aí ofereceram-se para combater nos recentemente criados exércitos franceses "livres". Durante muitos anos, esta história foi silenciada mas, de há uns tempos a esta parte, esses homens foram redescobertos e honrados como os primeiros combatentes, mesmo se integrados, e bem, numa unidade francesa.

1 comentário

Comentar post