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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

14
Set18

estes dias que passam 379

d'oliveira

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a escola já não risonha nem franca

(porventura nunca o foi!...)  

mcr 14.09-18

 

Não conheço o dr Paulo Guinote de lado algum, tão pouco o leio (erro meu, aliás) mas oiço dizer que é um analista inteligente d(porventura nunca o foi) a situação do ensino em Portugal.

Ontem, porém, num artigo de opinião saído no “Público” o dr. Guinote afirma que crê firmemente que “boa parte da classe política tem um ódio - ou desafeição para os casos menos graves –particular pela classe docente, mesmo quando saíram dela”. E que por isso os persegue, rejeita as suas razões quanto à questão da contagem do tempo de serviço. Ao mesmo tempo, o dr. Guinote põe em dúvida a bondade dos dados da OCDE sobre a relação da retribuição dos professores com outras classes de licenciados, bem como questiona as conclusões sobre a média salarial dos professores mais velhos dentro dos países d OCDE.

Não tenho ideia de que a OCDE estará ao serviço do Governo português ou que os seus especialistas falsifiquem despudoradamente os dados para provar que a classe dos professores é privilegiada face aos restantes trabalhadores da função pública.

Quanto aos restantes trabalhadores, os “privados” nem vou falar. Esses, e quase só esses, pagaram duramente os anos de crise. Dezenas (provavelmente centenas) de milhares foram despedidos ou viram os seus salários diminuídos. Foram eles que tiveram de pagar a crise, foram eles que emigraram, são eles (e era bom que o dr Guinote metesse isto na cabecinha) que inda não tiveram aumentos e muito menos contagens de tempo. Não tiveram e não terão.

Em Portugal, o dr Guinote que me desculpe, mesmo quando a riqueza é produzida por uns são sempre os outros (e nisto incluo a função pública mesmo se o seu trabalho também mereça consideração) que aproveitam. Ainda agora, há fábricas que fecham, há trabalhadoras que se veem na rua ao fim de vinte ou trinta anos de trabalho duro e mal pago (basta citar-lhe o caso da “Triumph” uma fábrica de roupa interior cara que desandou do país: as valentes mulheres que lá ganhavam um pão escasso levaram a cabo um longo processo de ocupação do exterior da fábrica até conseguirem o mínimo, isto é o despedimento!)

Os senhores professores quando protestam lixam os alunos que ficam sem aulas, os pais que são obrigados a faltar ao trabalho para não deixar as crianças na rua. Perdem o salário de um dia? De dois? Mas não perdem nunca o emprego vitalício, as progressões quase automáticas e outras benesses.

Nesta altura, já o sr. dr. Guinote me está a apontar o dedo acusador tomando-me por inimigo visceral da classe docente que seguramente odiarei com violenta e medonha sanha. Está, porém, tremendamente enganado. Tenho muitos amigos professores, familiares professores, e um enorme carinho e gratidão por vários dos que me ensinaram. Vários, digo, não todos nem a maioria. Recordo com ternura e e respeito uma boa dúzia de grandes professores desde a escola primária, ao liceu e depois à faculdade. Não oculto que haverá dois ou três que detestei, e que a maioria me deixou numa espécie de limbo afectivo: cumpriam sem alegria, demasiado zelo ou simpatia, os devers do cargo. Eram apenas sofríveis ou razoáveis. Já lhes esqueci os nomes, as caras mas não as caraterísticas e os defeitos. Nisto, como em todas as profissões (sobretudo na função pública, claro que na privada as coisas fiam muito, mas muito, mais fino) há uma minoria de bons, outra de maus, bastantes medíocres, outros tantos sofríveis e o resto normal.

Com a classe política (e aqui incluo sindicalistas da função pública – e convenhamos que nos docentes aquilo, a função sindical eterniza-se...) passa-se o mesmo. Há de tudo, como na botica. Concedo que osdeputados poderiam ser melhores, muito, muitíssimo melhores. Mas enquanto forem eleitos à molhada, escolhidos a dedo pelos partido que os nomeiam e escolhem, nada feito. Um eleitor (por exemplo do Porto) nem sequer conhece metade - que digo?, um terço ou um quarto- das criaturas que lhe mendigam – de quatro em quatro anos – o voto. E uma vez eleitas desaparecem do radar cidadão e vão para o Parlamento, levantar e sentar o dito cuja nas votações. Raro é o deputado que contraria o partido nestas matérias de voto. E se contraria já sabe que, para a próxima fornada eleitoral não será escolhido.

Há em Portugal um problema com os professores, ou melhor sobretudo com os candidatos a professor. São dezenas de milhar os que saem das universidades e politécnicos e não conseguem entrar na docência. Os que, por bambúrrio, entram, passam anos de trouxa às costas, de terra em terra, sem criar raízes, amizades, sentido de pertença a uma comunidade educativa ou a darem aulas de substituição com horários incompletos e mal pagos. Um desastre! Um castigo! Um tremendo e estúpido sacrifício! Uma destruição de vocações! Um desperdício!

A resposta a este excesso de oferta é normalmente indigente e estúpida. A mais tola é a exigência de diminuição de alunos por turma. Eu até percebo que uma turma com vinte alunos funciona melhor do que outra com vinte e seis. Todavia, há uma claríssima diminuição de alunos e isso vai-se acentuar dramaticamente nos próximos dez vinte anos. Há menos crianças a nascer e essa pobreza demográfica só se modificará –se se modificar- a longo prazo. Até lá, o número de professores irá diminuir. Se não diminuir, criar-se-ão nas escolas mais horários zero, mais tarefas não docentes inúteis ou quase.

Os jovens licenciados tem de perceber que a entrada no mercado de trabalho não está de nenhum modo garantida. Ou então entram com funções menores. Vai-se a uma farmácia por uma aspirina ou por uma pasta de dentes e somos atendidos para um farmacêutico que só tira o lugar aos antigos ajudantes de farmácia. Entra-se num banco e o caixa é licenciado em Economia, Finanças ou Gestão. Nos grandes (e médios e pequenos) escritórios de advogados pululam profissionais que se rebentam por mil euros mensais. Nas universidades há assistentes com contrato precário, sem direito a férias pagas ou ADSE. E por aí fora...

Não duvido que haja gente farta dos professores. Muitas vezes são pessoas que sentiram na pele os efeitos das últimas greves. Outras já não conseguem enxergar o dr Mário Nogueira, eterno dirigente sindical que, convenhamos, é mais assanhado que uma dúzia de gatos bravos. Muita gente estranha que, neste torrãozinho de açúcar, as greves se repartam entre professores, transportes públicos e alguma saúde (pública, claro). Curiosamente, estas greves só atingem, ou atingem sobretudo, os mais desfavorecidos. Os que precisam do autocarro, do comboio e dos barcos da outra banda; os que tem de ir aos hospitais públicos para um exame, uma consulta, uma intervenção marcados há muito; e os pais de filhos na escola pública. Nas privadas não há greves, como não as há nos hospitais privados (que sorte para quem tem ADSE!...) Também não atingem ou atingem menos quem tem transporte próprio ou é o seu próprio patrão. O patrão Estado fica-se a rir, poupou uns dinheirinhos e não se sente beliscado. O Governo espera sabiamente que ninguém se lembre das greves na altura de eleições. Certos partidos, com influência determinante nos sindicatos também tem o cuidado de “recomendar” (isto é um eufemismo) aos seus militantes sindicais, uma pausa eleitoral. Não é por acaso que a causa dos professores não será tratada, muito menos discutida, pelos parceiros da “Geringonça” durante as discussões do Orçamento. Ou seja, as “correias de transmissão” existem, estão bem oleadas e servirão um único propósito: manter a pressão mas não estragar o “arranjinho”. Perceberá o dr Guinote estas questões elementares?

A progressão e o seu cumprimento integral vai de férias até à aprovação do OE. Depois, voltará, viçosa e combativa sempre com o renovado dr Nogueira e o seu bigode ameaçador. E a miudagem lá terá uns dias sem aulas e os pais outros tantos de cuidados redobrados.

(relembraria ao dr Guinote, se isso não o fizer ter dores de cabeça, que outras profissões dependentes de licenciatura se depararam sempre com a crítica feroz de certos elementos da elite, dos panfletários e dos intelectuais. O caso dos advogados é manifesto, basta ver as milhares de caricaturas que deles se fizeram, as farsas com que os mimosearam – quem não se lembra do “maître” Patelin, ou seja do advogado Patelin, advogado e não mestre, que “maître” é o título francês dado em tribunal aos advogados- ou dos médicos que em Espanha eram mimosamente  apelidados de “matasanos” (mata sãos, para quem detestar a língua dos vizinhos).