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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

29
Jan19

Estes dias que passam 386

d'oliveira

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O desastre absoluto e os seus defensores

mcr 29-1.19

A Venezuela continua a ser notícia e nunca pelas boas razões. A proclamação de Guaidó (actual presidente do Parlamento) como presidente do país é apenas um fait divers na longa e dramática agonia daquele desgraçado país onde o “chavismo” sem Chavez (que já não era coisa que se cheirasse) apenas acentua o desastre que a chegada daquele anunciava.

Uma inflação incontrolável (1.500%, mil e quinhentos por cento!) reduziu a população a níveis de pobreza inauditos que fazem a Coreia do Norte passar por um paraíso. De facto, o ordenado mínimo mensal á para comprar (notem bem) três bananas e sete tomates. Convenhamos que para alimentar uma pessoa (ou até uma família) isto roça a infâmia. Uma costeleta ontem custava 1.500.000 bolivares (um milhão e meio de bolívares. A imagem era extraordinária porquanto o monte obsceno de notas parecia querer dizer que o papel de que eram feitas poderia valer mais do que o seu valor fiduciário.

Não obstante, por cá, subsistem -se bem que prudentemente calados- alguns amigalhaços do país de Maduro, entre eles um cavalheiro coimbrão que ainda há pouco tempo alardeava as virtudes do regime chavista-madurista. Isto já nem é cegueira ideológica é apenas má fé pura e simples.

No plano internacional, afirma-se que há dois grupos de países cuja posição em relação à Venezuela é antagónica. Não é bem assim. A Venezuela conta entre os seus defensores com uma escassa dúzia de países de que se citam a Rússia, a China, o México, a Bolívia, a Guatemala e a Turquia. Exceptuando o México que há pouco elegeu o senhor Lopez Obrador como presidente, os restantes são surpreendentes exemplos de falta absoluta de democracia, regimes tendencialmente de partido único.

Deixando de lado a Rússia e a China, cujos méritos democráticos são amplamente conhecidos, conviria lembrar que na Guatemala, governada com mão de ferro por um casal pouco exemplar, houve no ano que findou algumas (bastantes) centenas de mortos mormente entre estudantes contestatários, sindicalistas, intelectuais e gente miúda. A Bolívia na sua paupérrima insignificância pouco mais é do que uma colónia disfarçada da Petrobrás, empresa brasileira que explora o seu gás natural e o exporta através dos seus gasodutos. Todavia, o grupo político dirigente afirma-se nacionalista, anti-imperialista e progressista.

Finalmente, a Turquia. Bastaria lembrar que o seu actual líder representa, com o partido que o apoia a mais violenta contestação ao passado atarturquista e ao estado laico. É verdade que, durante muito tempo, esse regime foi monopolizado pela Direita mas havia conquistas sociais que, apesar de tudo, pareciam ser positivas e aproximavam o país da Europa, a cuja porta bate insistentemente. Com Erdogan, as coisas foram desandando cada vez mais e agora pouco mais é do que um Estado policial pró-islâmico que manda para a prisão ou para o exílio quem quer conteste a acentuada viragem religiosa a que se assiste. Nem vale a pena falar dos curdos e da repressão que sofrem desde sempre. É verdade que não puderam ser exterminados como os arménios (que eram muito menos numerosos e cristãos) mas o que se vai vendo no que toca às ambições turcas na Síria. Se é verdade que foram as milícias curdo-sírias quem expulsou os radicais islâmicos de extensos territórios no norte do país (amparadas, é verdade, pelo escudo norte-americano que dessa maneira poupou o seu limitado contingente à fúria dos combates e, agora pretende sair da região), não menos verdade é que a Turquia, como o Irão e, de certa maneira, o Iraque não aceitam sequer a autonomia curda seja em que território for. Sabem, perfeitamente, que isso seria o princípio da realização do velho sonho unificador de uma nação curda distribuída pelos quatro países.

Além disto, talvez valha a pena recordar que, depois do alegado golpe de Estado contra Erdogan, subsistem nas prisões mais de cinquenta mil presos políticos! Um record digno do Guiness a que se devem juntar mais de cem mil funcionários demitidos, o silenciamento da grande maioria dos jornais, rádios e televisões do país, aliás os mais respeitados meios de comunicação lá existentes. A Turquia, contudo, mantem-se graças ao facto de controlar os Estreitos, de pertencer à NATO, de não hostilizar Israel e de conter, a troco de fortes somas, o caudal migratório de refugiados sírios.

Estes são os até agora aliados da Venezuela madurista que, não exportando petróleo por ter deixado arruinarem-se, por incúria, as estruturas produtivas, expulsa milhões de cidadãos fugidos à miséria, à fome, à doença.

Ver, e ouvir, as delirantes declarações de Maduro sobre o estado do país é, apesar de tudo, menos alucinante do que ler o que dizem os seus escassos defensores que deveriam ser obrigados a partir para Caracas com urgência e a subsistir lá com o mesmo salário médio do infeliz cidadão venezuelano. Um mês, só um mês para ver se o entusiástico apoio aguentava aquele deletério e malsão ambiente político-social.

(O Eduardo Prado Coelho contava com o seu subtil humor uma história por ele testemunhada na falecida União Soviética: aos fins de semana viam-se algumas dezenas de automóveis com placa do Estado a abandonar Moscovo. Os alto funcionários do Comité Central e do Governo partiam para um repousado e merecido fim de semana nas suas datchas (atribuídas pelo mesmo Estado). Ao ver esta prazenteira migração, um intelectual comunista português dizia-lhe enternecido: “Vê lá, Eduardo, estes tipos até ao fim de semana trabalham!”

Entretanto o Zé Povinho local continuava a fazer bicha nos poucos sítios onde se vendiam bens de consumo imediatos, mormente alimentação.

O ingénuo (?) interlocutor de EPC via a realidade medonhamente arrogante da “nomenkatura” soviética com os óculos baços da sua ideologia cultivada e alimentada durante muitos anos de teimosa e desesperada resistência à ditadura do Estado Novo. Isto não o desculpe mas faz-nos percebê-lo. Todavia, isto passava-se no século passado, logo a seguir ao 25 A ainda antes da realidade nua e crua do mundo nos entrar portas adentro e antes, muito antes, de nos habituarmos a ver fria e racionalmente o que se passava à nossa volta ).

* Hoje mesmo, um dia depois deste texto estar escrito e pronto para ir para o éter, há a notícia de uma nova desvalorização da “nova” moeda venezuelana. Em boa verdade isto nem sequer é notícia.