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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

23
Mar19

estes dias que passam 391

d'oliveira

 

 

Nós gostamos de viver

(anónima moçambicana)

 

mcr,  21/3/19

Não há palavras que consigam descrever com um mínimo de fiabilidade a tragédia que se abateu sobre o território de Sofala, desde a Beira até à fronteira com o Zimbabué. As imagens medonhas que a televisão nos oferece ficam sempre aquém da realidade.

De facto, o solo está empapado, quando não está completamente submerso. As chuvas violentas, as cheias dos rios (os casos do Pungué e do Búzi) a iminência de novas e fortes descargas nas barragens do outro lado da fronteira, ameaçam a sobrevivência dos sobreviventes (passe a expressão: é que quem ainda não morreu está em forte risco como se verá adiante).

E ameaçam por várias razões que se multiplicam umas às outras: as estradas estão cortadas; há pontes destruídas; o mar continua tempestuoso e as condições climatéricas desde o vento, às chuvas tornam ainda mais difícil a já de si penosa e escassa chegada de socorros.

Não há água! Ou melhor, não há água potável. Pior a água parada é um vector crítica da malária que, ninguém duvide, vem aí e em força.

Não há casas, ou quase: na Beira mais de dois terços do edificado está em ruínas. Mesmo a cidade do cimento, notem bem. Nem me atrevo a pensar nos imensos bairros periféricos, o “caniço” que acolhiam mais de 80% da população.

O ciclone levou tudo incluindo boa parte da resignada esperança: móveis, alfaias agrícolas, celeiros, excedentes – parcos, paupérrimos – agrícolas, economias, roupa, tudo. Dói ver a imagem de um homem carregando uma pobre cadeira de plástico (dessas que cá, à mínima esfoladela, ninguém quer e deita ao lixo. O nosso lixo é uma cornucópia de abundância naquelas terras devastadas.)

Seria fácil e tentador criticar os poderes públicos, a má governação, pela falta de meios, de manutenção, de cuidados de que a Beira sofre desde há décadas. Tudo isso é verdade mas nada disso importa agora. Sobretudo, porque as vítimas, e estamos a falar de centenas de milhares, de mais de um milhão, quiçá de vários, não são responsáveis pela desatenção, pela inépcia ou pelo desgoverno dos governantes. São, numa esmagadora maioria camponeses pobres, trabalhadores humildes na cidade que sempre tiveram pouco se é que alguma vez tiveram algo.

A urgência agora é enterrar os mortos e cuidar dos vivos, como diria o tirânico mas enérgico marquês. E até isso é difícil: ainda não foi possível encontrar todos os que morreram debaixo das casas, das árvores das ruínas, da água.

Os vivos, e nisso incluo os “ainda” vivos, aparecem nos noticiários em cima de telhados abatidos, de árvores, na bancada de um pequeno campo de futebol, errando por rios de lama e destroços, sem outro rumo do que uma possível   -mas longínqua (inalcançável?) – salvação.

Como essa mulher moçambicana que confidenciava à reportagem: “Precisamos de tudo, de uma manta, de comida que só comemos uma vez e não há nada para a noite. É que nós gostamos de viver... “

Mesmo no meio da mais profunda miséria, esta mulher, estas crianças, estes homens, este povo, gostam de viver. Mesmo se, aqui, essa vida pareça um longo e dramático caminho das pedras...

Eles não conhecem nada melhor e o pouquíssimo que tinham, mesmo se insuficiente, se injusto, era melhor do que nada. Vejam bem: a Beira e a sua região interior sobreviveram à guerra civil, às dezenas de milhares de minas terrestres que ainda há pouco matavam quase diariamente homens e bichos. Como a Gorongosa (que já foi um dos maiores e melhores parques de África e que, graças a um americano maluco e amante da África estava a renascer) onde o desastre ia cicatrizando...

Vivi em Moçambique entre o terceiro e o fim do quinto ano do liceu. Voltei lá por três vezes em férias longas de Verão. Aprendi alguns rudimentos (escassíssimos) das línguas vernáculas das zonas onde vivi. Na medida do possível tentei saber mais da história dessa sequência de terras que agora se chamam Moçambique. Tenho em casa alguns, muitos, centos de livros e revistas sobre a região. Em tempos longínquos, que não renego nem esqueço, tentei perceber melhor a situação colonial. Assinei, levantando as suspeições do costume, nas polícias do costume, algumas publicações legais (entre outras “O Brado Africano”) ou nem isso. Já aqui descrevi (testemunhando na medida do possível) a iniquidade dos sistemas de “contrato”, de culturas obrigatórias (sisal, copra, tabaco, algodão, sobretudo), da obrigatoriedade de identificação especial para se circular na cidade e de muitas outras que nem é preciso citar. Li com paixão (que mantenho) o Zé Craveirinha, a Noémia de Sousa ou o Rui Knopfi, sem esquecer o meu querido colega do liceu Salazar, Manuel Fernando Magalhães, autor de uma surpreendente novela “três vezes nove vinte e um”, sátira contra a militaragem em Moçambique (claro que foi preso).

 

A talho de foice, refiro outros dois autores moçambicanos: Luís Bernardo Honwana, autor de um exemplar conjunto de contos, “Nós matámos o cão tinhoso” (1964) e Luís Carlos Patraquim que, além de poeta, é jornalista e escreveu o que foi, para mim, a grande revelação da nova e arriscada ficção moçambicana: “A canção de Zeferias Sforza”, um retrato desconsolado de um país independente, de um partido na realidade único e uma concentração do poder (a todos os níveis) nos militantes mais obtusos mas mais obedientes.

 

Deixemos, porém, o domínio da escrita a que, em havendo tempo, voltarei, para nos concentrarmos no essencial: como ajudar? Como ajudar, já?

 

Basta ir ao multibanco em pagamentos, entidade 20999 e depois marcar 999 999 999 (nove noves, atenção) e doar o que puder. Claro que há muitas outras instituições (Cruz Vermelha, Caritas, Câmaras Municipais, corporações de bombeiros, o que se queira mas esta é simples e rápida. Por pouco que se dê, é muito para quem nada tem mas que “gosta de viver”.

Não estamos a ajudar um Estado ou um país mas tão ó um povo que não merece ser tão desventurado.

Não os deixemos morrer por incúria, indiferença, egoísmo ou preconceito que eles gostam de viver.

Kanimambu!, leitoras eleitores, kanimambu!, obrigado, kotchapela! Zikomo!, Kani! Bongile!, Eja! Assante!

*estas expressões tiradas de diferentes vernáculos moçambicanos querem todas dizer o mesmo : obrigado que é também moçambicano na medida em que o português é a língua oficial.