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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

estes dias que passam, 392

mcr, 13.05.20

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Diário das semanas da peste

Jornada quinquagésima sexta

“Irrecuperável!”

(Sartre, “As mãos sujas”, final)

mcr, 13 de Maio

 

O homem põe e o jornal dispõe. Ia escrever sobre a festa do Avante quando, ao ler – finalmente! – a revista do Expresso, dei com um artigo de Pedro Mexia sobre um dos volumes de “situações” de Sartre.

E, de súbito, as recordações acorreram em magote. Sartre, também ele, veio em piedosa peregrinação ao Portugal de 1975. Também, nessa altura, Portugal, estava na moda. De toda a Europa acorriam turistas revolucionários (ou nem tanto) para (vi)ver de perto a “revolução”. Recebi (e pastoreei) muitos que nos entravam porta adentro no MES em que militei até fins de Setembro desse ano. Holandeses, franceses, espanhóis, italianos sei lá que mais. Quando, uma vez, perguntei porque é que me calhava sempre a mim a tarefa de ser o cicerone, alguém (seria o Ivo ou o Zé Galamba, funcionários políticos e amigos, hoje, mesmo se raramente os lobrigo ao acaso de uma esquina?) me disse que, como eu me desembaraçava em línguas estrangeiras, tinham achado que aquela era uma missão adequada.

Nisto de missões adequadas, também me coube ser um dos que iam mais vezes a Lisboa, à sede. A razão era simples: tinha carro e podia pagar a gasolina do meu bolso! (como se vê, o slogan “os ricos que paguem a crise” já funcionava in imo pectore, naqueles tempos revoltos e naquela pequena organização!)

De certo modo, aquilo, aquele convívio rápido mas caloroso com gente que se entusiasmava com Portugal e com a nossa pequena formação política, não me desagradava, antes pelo contrário. E, uma que outra vez, conhecia-se alguém interessante.

E foi esse o caso quando Sartre e Beauvoir vieram em romagem ao país e ao Porto. Foi o Arnaldo Fleming (que há muito que já cá não anda) quem me pediu que fosse uma espécie de motorista, guia e intérprete de Jean Paul Sartre e de Benny Levy (que viajaria ainda sob o pseudónimo de Pierre Victor), antigo responsável da “Gauche Proletarienne”, antigo director do jornal “la cause de peuple” que Sartre apregoaria nas ruas de Paris depois da proibição da publicação, e um dos fundadores da Union des Jeunesses Comunistes Marxistes Leninistes, cuja revista ainda cá tenho quase completa.

(a sede da revista “cahiers de l’UJCML” era na rue Gît-le-Coeur, um cubículo que depois se reconverteu em livraria de bd erótica. Numa das vezes que lá fui por um determinado número, os dois rapazolas de serviço espantaram-se muito e declararam com venerável fervor  que eu era um dos antigo, dos primeiros, eventualmente dos melhores. Que candura!).

No dia aprazado, fui ter com os dois viajantes revolucionários que, entretanto, almoçavam num restaurantinho popular e simpático da rua do Bonjardim, uma das antigas praças fortes do bom comer tripeiro. Com eles estava Eduardo Lourenço que eu ainda não conhecia e que me informou placidamente que sentia especial simpatia pelo PS! Em 1975! Que ousadia, que descaramento, que coragem!

Amesendei-me e almocei e a conversa prolongou-se por várias horas. No dia seguinte, bem cedinho meti os dois peregrinos no mini e desandámos para fazer a via sacra das fábricas ocupadas. Numa delas, havia algumas simpatiquíssimas simpatizantes do MES e começou aí a faena.

Em determinada altura, uma das dirigentes da ocupação falou em comunidade. E eu, fiel tradutor, lá falei em communauté. Sartre deu um pulo e declarou que eu estava a embelezar a realidade. Que uma operária têxtil nunca usaria a palavra “comunidade”, noção demasiado elaborada...

A mostarda subiu-me ao nariz, pedi à rapariga para repetir e depois com evangélica paciência lá expliquei aos dois missionários que há um grande número de palavras portuguesas terminadas em ade ou dade que são exactamente convertíveis no franciú “té"  de liberté, comunauté, égalité e por aí fora. Terei sido tão expressivo e tão indignado que o “maitre  penser” me pediu desculpa e a partir daí aceitou sempre a tradução, aliás escrupulosa, que eu fornecia. Pelo caminho, parámos um par de vezes para nos reabastecermos de cerveja. Sartre era um bom apreciador da cerveja tirada a copo que por sorte nos serviram. Este comum gosto pelas bejecas, alguma sintonia ideológica, o facto de eu conhecer a sua obra (excepto a filosófica, claro) e de ter lido alguns dos seus escritores favoritos, não nos tornaram nos melhores amigos do mundo mas posso afirmar que simpatizámos. E muito. A viagem ainda teve alguns momentos altos, como aquele em que o principal dirigente da união de sindicatos têxteis, João Ribeiro, nos recebeu com um discurso muito bem elaborado que o filósofo apreciou bem que me dissesse à socapa que “aquela conversa era de pc”. Claro que era mas eu e o João Ribeiro já nos conhecíamos e tínhamos uma excelente relação de trabalho (eu presidia à Caixa de Previdência da Indústria Têxtil e o sindicato estava sempre a contactar-me).

Tive de explicar aos romeiros que, antes do 25 A, fora, entre outras actividades menos recomendáveis, advogado sindical e que daí vinha aquele conhecimento com um legítimo representante do mundo do trabalho bem como com alguns dos operários e operárias com que nos cruzámos. A partir daí, com uma subtil insistência  começaram a tentar perceber qual a razão de ter sido eu o escolhido (o “eleito”) para os acompanhar. Não valia a pena explicar que, provavelmente, dentre os falantes com algum à vontade de francês, ninguém se oferecera. Sartre e “Victor” tinham, com alguma razão, dadas as vénias já recebidas, uma ideia bastante lisonjeira de si mesmos. Nessa conversa de bica aberta que fomos mantendo durante dia e meio, veio à baila a minha pobre biografia pelo que quando souberam que eu tinha tido a bizarra honra de ter sido hóspede de alguns calabouços nacionais com relevância para Caxias (Não ficaram desapontados por me faltar Peniche no currículo pela simples razão de que ignoravam tudo sobre o Portugal anterior ao 25 A, coisa aliás comum em praticamente todos os intelectuais estrangeiros com quem contactei ao longo da vida), trataram-me com especial carinho. Merecia estar junto daqueles dois pilares d liberdade francesa!

De todo o modo, estas largas horas de convívio foram-me profícuas pois comecei a medir com mais modéstia as glórias alheias e os mitos da revolução do Maio francês.

Depois da partida para França, enviei-lhes recortes dos jornais que noticiavam a estadia breve deles entre nós. Para minha surpresa, Sartre escreveu-me a agradecer e quando enviei uma segunda leva voltou a fazê-lo educadamente e com um par de observações pertinentes. Via-se que não só estivera atento às nossas deambulações como extraíra de muitas outras conversas e encontros algo em que meditara.

Quando morreu, dei um depoimento a um programa de rádio então muito na moda e escrevi um artigo num jornal. Tal artigo foi em parte reproduzido num programa da ORTF (?) e, para minha surpresa, foi generosamente pago. Foi a primeira vez (fora um concurso literário que venci na categoria “ensaio”) que recebi dinheiro por escrever. Aliás, tal sorte só se repetiu mais duas vezes e sempre com alemães. Da primeira, o dr. Adolph Himmel, director do Instituto Alemão no Porto, convidou-me para participar num colóquio sobre a “resistência alemã contra Hitler” e, zás!, pagou generosamente o meu esforço. Mais tarde, e também por intermédio dele, escrevi um texto sobre uma exposição de arte portuguesa organizada pela DRN da SEC que correu algumas cidades alemãs e voltei a receber uns simpáticos marcos. Fora isso, apenas me pagaram traduções que, nem sempre, foram um prazer.

E as cartinhas do grande filósofo? Pois, custa-me confessá-lo, tanta é a minha burrice supina. Enviei-as para a sede dos “Temps Modernes” quando soube que se ia elaborar um número especial de homenagem. “Esqueceram-se” de as devolver e eu, por uma vez acanhado ou distraído mas sempre estúpido,, também não reclamei a sua devolução com a energia necessária. Aliás, nem sequer tive notícia do tal número especial de homenagem.

Conservo de Sartre uma imagem demasiado compósita: Disse barbaridades (algumas das quais elencadas por Mexia no artigo que já citei) que envergonham qualquer intelectual que se preze. Namorou desesperadamente uma ideia de revolução que evoluía à medida das modas parisienses, desde a famosa frase “um anti-comunista é um cão” ou estoutra “o terrorismo é a única arma dos oprimidos” até à derradeira elegia sobre o jornal “la cause du peuple”. Nem refiro as suas relações com Camus ou Boris Vian e muito menos com Raymond Aron. Deste último dizia-se que quando Aron acertava ninguém o citava e quando Sartre errava era aclamado.

O curioso nas relações entre estes dois homens é que Aron foi um resistente, exilou-se em Londres e colaborou com a “França Livre”. Sartre, depois de feito prisioneiro e libertado, passou todo o resto da guerra em Paris, escrevendo junto ao fogão de “Les deux magots” e permitindo que as suas peças fossem estreadas sob a ocupação alemã...

Ambos se encontrariam no mesmo barco, no final da vida na campanha “un bateau pour le Vietnam” que não só chamou a atenção para as exacções do governo de Hanói como permitiu salvar milhares de refugiados vietnamitas.

Devo muito aos dois e mesmo se no fundo devesse estar mais grato à lucidez de Aron de quem me recordo mais é de Sartre. De alguns textos seus, da força polémica que neles se respirava e da novidade de muitas das suas intervenções.

E ninguém pode esquecer a última palavra de “As mãos sujas”: “Irrecuperável!”

É todo um programa de vida!

Não faço a mínima ideia de quais os livros de Sartre ainda à venda por aí, mas todos merecem alguma atenção (o teatro, “As palavras” e “Situações”) mesmo em tradução. De Aron, sei que se traduziram as “Memórias”, “O ópio dos intelectuais”, “Defesa da Europa decadente” e provavelmente outros. Relembraria “Democratie et totalitarisme” e o utilíssimo “Marxismes imaginaires”  que, como os anteriores, facilmente se adquire em francês.

Com o covid à perna ler, se não for uma necessidade, é, pelo menos um modo de passar o tempo.

*na vinheta: Sartre vendendo “la cause du peuple” que acabara de ser proibida

O poder fingiu que o não via, assobiou para o lado, o costume. Já De Gaulle teria uma vez dito a Michel Debré, ministro do interior, que reclamava a prisão do filósofo “Debré, on n’arrete pas Voltaire”. Tirando o exagero da comparação, não deixa de ter graça a tirada do velho general que, como mais tarde, e a propósito de outro caso, Jean d’Ormesson escreveria em “Le Monde”, se repetiu:  “Sartre não conseguiu nunca obter a palma do martírio”.

 

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