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Incursões

Instância de Retemperação.

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24
Mai20

estes dias que passam 402

d'oliveira

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Diário dos tempos da peste

Jornada sexagésima sétima

Saudade burra

mcr, 24 de Maio

(vai o folhetim para o leitor atento, generoso e amável J Pereira que me deu a dica seguinte "Judeus errantes" de Joseph Roth, é editado por "sistema solar".

Não que seja importante mas mudei o título geral destes folhetins. De facto, diário das semanas não era brilhante mesmo se, no fundo eu apenas pretendia homenagear Daniel Defoe e o seu magnífico “diário do ano da peste”. Ora, escrevendo eu diariamente, a que vinham as “semanas”?

E já agora, para quem não teve a maçada de seguir isto desde o princípio, “jornada” é outra homenagem, desta feita ao senhor Giovanni Bocaccio que me foi apresentado há muito, muito tempo, antes seguramente do filme de Pasolini que também já tem barbas, barbas boas, seguras, que o Pier Paolo sabia da poda como poucos. Dele recordo todos os filmes, evidentemente, mas tenho uma ternura especial por Edipo rei (ai a Silvana Mangano que bem que vai, prova provada de que a beleza não desqualifica o talento), Evangelho segundo S Mateus.,  Passarinhos e passarões (Uccellaci e uccellini, com o gigantesco Tótó) e Medeia em que Maria Callas surpreende como actriz, ela que era uma diva de ópera (da Callas há que ouvir tudo pois é difícil apanhá-la em falso, aliás é impossível, e quando menos se espera, zás!, surge uma pérola negra...).

E lá me perdi eu, diabos me levem e ao entusiasmo que me transforma numa criatura logorreica, excessiva com um toque vagamente missionário, logo eu que não vi a luz, ou se a vi não era a que devia ser.

Portanto, tempos em vez de semanas. E ponto final, parágrafo.

Aviado o título geral, passemos ao do dia. A expressão é do Fernando Assis Pacheco, um poeta morto demasiado cedo, logo quando começava a publicar, ele sempre tão avaro, tão modesto quando se pensava, tão falto de generosidade consigo mesmo. Eu hei de ter escrito, sei lá onde, que “um coração daquele tamanho não poderia durar muito” que o raio da víscera rebentou-lhe à porta de uma livraria onde ele ia por novidades.

E novidades para o FAP eram pequenas plaquettes de poemas de gente nova que se intrometia no recreio dos grandes a gritar alto e desafiantemente “presente!”.

Tinham no Fernando um leitor paciente, atento, que logo dava notícia, se mereciam, numa secção de “O Jornal” (mais saudades burras!...) chamada “bookcionário” e que tarda em ser resgatada do limbo e publicada, anotada e divulgada. Este gosto pelos atrevidos que se chegavam à praça das letras era antigo confidenciou-mo ele, um fim de tarde em que saíamos da livraria Opinião (mais saudades, arre!) ali à Trindade, em Lisboa, onde agora é, ainda bem, a sede da editora e livraria Cotovia.

Nesse dia, o Al Berto apresentava o seu livro “á procura do vento num jardim d’Agosto” e um artista plástico Dodó expunha “lápis de amor e outras fantasias”. O FAP entusiasmou-se com os poemas do Al Berto , pegou-me o entusiasmo, também comprei a plaquette que depois, sei lá porquê, foi retirada do mercado (esta apanhei-a na bibliografia de “O Medo(trabalho poético 1974-1990) de Al Berto, Contexto-Círculo de Leitores, 1991

(ainda ontem referi depreciativamente o Círculo mas esta edição redime-o de muitos pecados)

Depois, fomos com mais quatro ou cinco amigos almoçar na “Trave”, um restaurante simpático de dois irmãos, o Jaime e o Santos (este último havia de abrir o “1º de Maio” duas ruas acima) e a conversa durou até às quinhentas. Neste grupo, quase de certeza que estava o Fernando António Almeida, nosso amigo desde Coimbra, desertor que voltei a encontrar em Liége e que ainda não tinha escrito senão três plaquettes de versos que, evidentemente andam por aí.

Como o FAA sucedeu, aliás algo de curioso. Deu-lhe para escrever um romance e o manuscrito, melhor dizendo, uma cópia dactilografada, andou uns tempos à solta na mão do Hipólito Clemente, na altura o livreiro da “Opinião” ( o Luís Pacheco - esse mesmo, o libertino que passeava por Braga etc...- dizia do Hipólito que ele era capaz de vender o catecismo ao diabo. Estão já a ver o grande livreiro que ele era).

Ora num sábado, o Hipólito mostrou-me aquilo, li de rajada meia dúzia de páginas proclamei que estava ali um grande romance e prontifiquei-me a subsidiar o número de fotocópias necessárias para começar a via crucis dos editores.

(também aqui se vê, como os tempos eram difíceis para quem queria estrear-se)

Já com a entrega das fotocópias aprazada, pagas de antemão por este aspirante a mecenas, eis que aparece o FAP. Falou-se do livrinho do outro Fernando (F AA) e dias depois no Jornal aparecia uma notazinha que dizia mais ou menos isto: “está a despertar grande curiosidade o livro de estreia de Fernando António Almeida em breve nas livrarias. Demorou mais de um ano, a “Esmirna, cidade azul”. Nesse parêntesis, ofereci cópias da fotocópia original a alguns amigos. Depois, publicado o livro, voltei a presenteá-los com o volume finalmente impresso.

Do Fernando Almeida tenho tudo, pelo menos assim o julgo. À uma porque somos amigos, depois porque ele vale a pena. Escreveu, mais tarde, outro romance “Marina noiva da vida” (Vega), “Contos cruzados” (teorema). Antes há ainda na Centelha, minha editora e de mais um largo punhado de alucinados, “Memória de Portugal”, poemas. Noutro domínio escreveu vários roteiros de Portugal e um excelente ensaio sobre Fernão Mendes Pinto, coisa séria editada pela Câmara de Almada.

Inconformista e independente, demasiado independente, FAA passou despercebido pela praça das letras e quem perde(u) são/foram os leitores.

O Hipólito, deixou uma plaquette “ por que não viajante sem carruagem quem sabe do caos e do seu fascínio” que, pela dedicatória, dato de 1983. Foi um curioso pintor naif mas quando tudo havia a esperar dele, morreu subitamente. A vinheta de hoje é de um quadrinho dele (acrílico sob tela, 25x16 cm) e tem o título “Adão e Eva no paraíso” . Quando lhe fiz notar que faltavam atributos sexuais aos dois personagens, o Hipólito, teólogo imaginativo, retorquiu que os dois ainda estavam no paraíso onde não havia sexo. Conformei-me com a explicação. Paguei o que me pediu e fomos, como de costume, jantar à Trave com a tribo completa dos Salomé, Vitorino, Janita, Manel e sei lá quem mais. Oh, que anos oitenta! “Saudade burra”, claro...  

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