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Incursões

Instância de Retemperação.

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25
Mai20

estes dias que passam 403

d'oliveira

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Diário dos dias de peste

Jornada sexagésima oitava

Nem tanto ao mar...

mcr, 25 de Maio

 

 

encontro a minha vizinha e amiga Irene e rumamos à esplanada para a bica da manhã e dois dedos de conversa. Ela pendurada na máscara que só tirou, et pour cause, para o café e, ai..., para um cigarrinho. E vai de analisarmos a reacção das pessoas, dos portugueses, aliás, ao flagelo que nos tem atormentado. A Irene tem sérias dúvidas, eventualmente legítimas, sobre o desconfinamento. Eu bem que lhe digo que, se é verdade que há que temer a doença, não podemos morrer da cura.

E corremos esse risco. As pessoas ouviram os apelos ao isolamento e às precauções em cascata e barricaram-se em casa de tal modo que sair de lá começa a parecer difícil.

E aqui, um primeiro ponto de ordem, como se dizia nas assembleias dos anos desassossegados e tumultuosos. Os portugueses portaram-se com um raro sentido de responsabilidade e disciplina que espanta o mais reservado dos comentadores.

Pode sempre dizer-se que o medo guarda a vinha e que foi o medo que fez as ruas ficarem desertas, os empregos em suspensão, as bichas ordeiras e distanciadas nos supermercados, nas farmácias e nos poucos pontos onde havia que ir. É verdade!

Pode dizer-se que o Governo promoveu uma campanha fortíssima, que também é verdade. Pode até acrescentar-se que as pessoas, a certa altura temeram sanções pesadas caso pisassem os famosos riscos vermelhos. Concede-se.

Mas, genericamente, os portugueses, que apanharam com um dilúvio de informação via tv, usaram de bom senso. Viram os vizinhos espanhóis com as barbas a arder e escanhoaram-se forte e feito para cortar caminho a essa bicheza infame do corona puta que o pariu.

Teriam procedido da mesma maneira sem as prevenções, avisos, proibições e ameaças com que foram bombardeados? A questão é, como a do nariz de Cleópatra, irrespondível.

Todavia, pareceu-me que a certa altura, e muito cedo, sucedeu algo que tornou a situação um tanto ou quanto paranoica. Em primeiro lugar, diria que a informação pecou “por excesso”. Não que as pessoas não devam ter um acesso absoluto e cabal a tudo o que lhes diz respeito mas, hão de ter notado, que durante semanas já não era um tsunami de notícias que se repetiam mas sim, também, uma cacafonia que roçava o histerismo.

Os desgraçados tele-espectadores, encafuados em casa, a maioria sem acesso aos jornais (cuja circulação baixou violentamente) sujeitos ao metralhar diário das conferências de imprensa da DGS e da srª Ministra que numa forte proporção dos casos não tinham nada para dizer de útil, sequer de necessário, aumentou – mesmo se involuntariamente – o pânico. Não vou sequer referir as “redes sociais”, bastaram-me as vezes que a CG se atreveu a bombardear-me com notícias e sobretudo com “opiniões”, para jurar a mim próprio que nunca por nunca havia de entrar no fcebookismo, no instragramismo e nas restantes teias de aranha que se alimentam de inocentes e aprisionam outros mais expeditos.

Um dos temas mais recorrentes foi o da notável resiliência do Serviço Nacional de Saúde. É verdade que o bunker erguido pelas autoridades foi suficiente para conter a peste em limites que nunca puseram em causa a frágil rede que existia. Porém, também é verdade que a mobilização maciça de meios, arrasou toda a restante estrutura hospitalar desde o serviço normal de consultas, até às cirurgias. Todos os serviços hospitalares ficaram em stand-by e, segundo o presidente da Associação dos administradores Hospitalares o rombo sofrido no dia a dia dos hospitais não será reabsorvido tão cedo (se é que o conseguirão fazer) e as consequências sobre a saúde pública vão ser graves para não dizer gravíssimas.

É claro que deste esforço (e já não falo dos médicos, enfermeiros, auxiliares de todo o género, especialistas de diagnóstico, enfim de toda a família hospitalar incluindo os serviços administrativos) algumas consequências positivas se tiram. Em primeiro lugar, houve a contratação de um número apreciável de médicos e enfermeiros, reivindicação antiga que até Março de 2020 o Ministério da Saúde tratou sobranceiramente quando não a ignorou totalmente.

De repente, o público viu que os profissionais da “linha da frente” com salários merdosos conseguiram autênticos milagres. Trabalharam um sem número de horas a mais, caíram doentes como tordos, tiveram que inventar modos de se proteger (e de proteger os doentes) quando a falta de meios era gritante.

Desta vez, o público terá percebido que um terço dos médicos (dez mil) do SNS estavam ainda em formação. Um terço! Estão a ver como é que rapazes e raparigas acabados de sair da universidade marcharam para as trincheiras apenas animados pelo juramento de Hipócrates. Dirão: mas havia médicos mais velhos ao lado. Havia, claro que havia, mas nunca tantos quanto os necessários, nem a todos os momentos.

Nós portugueses devemos muito a esses trinta mil profissionais e, entre eles, a esses dez mil recrutas. Ainda ontem uma televisão punha quatro miúdos em cena e foi admirável ouvi-los contar da violência do choque, do receio, do cansaço, da valentia e do que em poucas semanas que valem anos aprenderam, a começar, como dizia uma jovem médica, a aprendizagem da calma.

Os portugueses que ainda há pouco tempo assistiram a duas greves de enfermeiros e que foram matraqueados pela enxúndia governamental, pelo ataque despudorado à obtenção de meios para financiar a greve (oh quantos tenores no Parlamento blasfemaram contra isso! Oh quantos protetores do sindicalismo verdadeiro uivaram insultos, destilaram venenosas acusações de manipulação política!

E de repente, pela voz do Boris Johnson, veio um elogio à enfermagem portuguesa que, de resto, em Inglaterra está farta de obter distinções e reconhecimento. Ontem mesmo, tive oportunidade de ver e ouvir um casal de enfermeiros portugueses que tendo tido a possibilidade de regressar a Portugal, ficaram na ilha do Príncipe e tem feito a diferença entre o desastre a bonança sanitária que lã se goza. Dois enfermeiros para uma ilha inteira e dezenas de milhares de cidadãos sem recursos, com uma assistência que só por favor se pode considerar medíocre! Um milagre! Ou a prova provada da qualidade, da dedicação, da coragem.

Virá o tempo, está já a chegar, em que os louros serão, como é hábito, distribuídos não entre os que os merecem mas entre os que se pavoneiam.

Note-se que com isto não pretendo reduzir a importância de quem governa, da oposição que mostrou saber sê-lo, dos jornalistas que tentaram retratar o país e a crise.

Mas também não posso deixar de anotar que houve alguma impreparação (que se tentou reparar com alguma eficácia) que houve instituições que se atropelaram umas às outras, que a um mês e pouco dos fogos ainda há quatro distritos sem meios aéreos (e este ano tudo leva a crer que vai ser, já é, de seca), que os velhos reflexos centralistas condicionaram alguns dos esforços das autarquias.

E, agora, o mais grave: em que percentagem é que o PIB vai cair? Quantos postos de trabalho foram destruídos? Quantas empresas vão desaparecer?

A resposta de um habitual sector político começa a ser a do costume: intransigência, intransigência, estatização, nacionalização, os ricos que paguem a crise, abaixo os monopólios (mesmo se já se verificou que não é no sector das grandes empresas que houve as famosas malandrices, se é que houve assim tantas, um número expressivo.

A sr.ª Catarina Martins, o sr. Jerónimo de Sousa por uma vez com um aliado absurdo, o cavalheiro do Chega, já vieram clamar contra os despedimentos. É óbvio que não há ninguém que defenda os despedimentos. Mas também parece certo que os vai haver e que, muitas vezes, quase sempre, serão a única salvação de outros – muitos ou poucos –postos de trabalho. Clamar contra o lay off parece querer dizer que seria melhor que não o houvesse. Que os trabalhadores em vez de terem um terço do salário perdido poderiam perdê-lo todo.

Depois, temos o habitual recurso à Europa. A culpa de virem ou não viram os dinheiros europeus é da Europa. Eu gostaria de perguntar, como é que seria sem a Europa. Onde estaríamos neste preciso momento?

E relembraria as excomunhões tremendas que ainda há meia dúzia de anos caíam sobre a senhora Merkel que, em fim de carreira, passa de anjo exterminador a rainha Santa Isabel. E perguntaria, oh pesadelo!, que reacções esperam os admiradores do medíocre senhor Sanchez aqui ao lado depois de numa extraordinária aliança com o partido Bildu? Acham que os eventuais “doadores” “frugais” estarão de acordo em financiar a estrafalária política de distribuição de rendimentos de Sanchez & amigos? Acham que não seremos, nós, a Itália e a Grécia, vitimas desse “síndroma do sul” a que o Presidente Sanchez pode ser associado?

Ontem, os portugueses foram à praia. Pelo que vi, e li, o distanciamento social foi notório, com pequenas excepções nas zonas onde se acumularam pessoas a banhar-se. Mesmo aí não pareceu haver especiais abusos de proximidade. Ou seja, mesmo enlouquecidas pelo primeiro anúncio de Verão, pelo dia quente depois de semanas em casa, as pessoas portaram-se bem. Sem polícia, sem cabos de mar, sem nadadores salvadores, sem semáforos nas praias.

Eu não sei se vai ou não haver segunda vaga. Se a vacina (chinesa, de Oxford, da Moderna ou israelita) vai chegar a tempo. Se inventam, sempre a tempo, terapêuticas eficazes para combater a doença, para retardar, para abrandar o vírus. Bem queria que a minha carcaça já leva demasiados anos a vaguear por este mundo. Já apanhei a minha dose de sustos, incluindo uma pandemia (a da gripe asiática. Ou foi só uma epidemia?).

Espero é que desta provação tenhamos saído um pouco mais experientes, um pouco mais dotados de meios de prevenção e de combate, um pouco mais conscientes do que somos, do que fazemos. E com, já agora, um pouco mais de compaixão.

(por exemplo: os supermercados tem à venda vales do Banco alimentar. Agora ainda mais simples. As pessoas compram os que quiserem nas caixas e logo ali aquilo é registado e vai directo para a instituição. Há vales de produtos ou de cabazes. Estes custam menos de cinco euros. Vá lá, cheguem-se à frente. É caridade? Talvez. Mas, para quem tem fome, é um pequeno momento de alívio. E será que alguém recusa ver a fome por o seu gesto ser conotado com a caridadezinha? Ora porra!)

* a vinheta: vista da minha casa na praia durante alguns verões na Galiza. E este ano como é que vai ser?