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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

estes dias que passam 406

d'oliveira, 28.05.20

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Diário dos dias da peste

Jornada septuagésima primeira

28 de Maio sempre? Depende de que ano se trata...

mcr, 28 de Maio

 

Leitores não se arrepelem. Maios há muitos e não é do de 1926 que falo mas de um outro mais próximo, mais significativo para a geração a que pertenço e que, como a fotografia indica, a mim diz muito.

Imaginem, primeiro o espaço visto. Estou a arengar para uma verdadeira multidão que enchia por completo o jardim da Associação Académica de Coimbra. E era um jardim grande podem crer quantos o não conhecem. Por cima da “mesa” da Assembleia Magna, cujo presidente, o Décio está ao meu lado, havia uma comprida varanda que ia de um lado ao outro das salas de convívio e do refeitório, Nós estávamos no piso do ginásio onde, por vezes se realizavam as “magnas” que é assim que se apelidam, oh tradição!, as assembleias gerais da Associação Académica de Coimbra.

Não vou atirar números que os não tenho e os que há são pouco fiáveis. Todavia, estavam ali, nessa manhã de 28 de Maio de 1969, cerca de três mil estudantes duma universidade que na altura teria entre sete e oito mil alunos, voluntários incluídos. Nunca uma “Magna” o fora tão exactamente.

O dia amanheceu soalheiro, uma ligeira brisa, como é que lembro disto? Pois porque enquanto falava havia um grupo de pessoas sentadas na relva com uma camisola vermelha suspensa dum ramo. E a camisola agitava-se docemente.

Eu estou a dizer que a assembleia decorreu de manhã mas admito que cinquenta e um anos depois possa estar equivocado. Mas se olharmos bem para a fotografia e se soubermos que a orientação daquelas varandas era mais ou menos noroeste parece plausível que isto acontecesse de manhã.

E porque é que o dia 28 de Maio de 69, quarenta e três anos depois do outro, do de Braga, do que marcou o “passeio” militar de Gomes da Costa, um antigo herói republicano, até Lisboa, foi importante, pelo menos para a geração dita de Coimbra 69?

Foi neste dia, já quase em cima da época de exames, que finalmente, uma assembleia decretou a greve geral aos exames.

Desde o dia 17 de Abril, data da inauguração do edifício das Matemáticas e da manifestação que o gesto imbecil de Américo Tomaz ao recusar dar a palavra ao Presidente da AAC, provocou, nada mais foi como dantes na velhíssima universidade.

Eu, mesmo hoje, não consigo entender um gesto tão torpe, tão burro, tão prenhe de consequências que facilmente se adivinhavam.

Vejamos: depois de três anos de “comissões administrativas” desacreditadas que, aliás, acabaram ( ou viram-se forçadas a) por propor um regresso à normalidade, uma fortíssima maioria de estudantes votou a favor de uma lista proposta pelo Conselho de Repúblicas e pelos “Organismos Autónomos” (Orfeon, TEUC, Tuna, CITAC, Coral de Letras, Coro Misto e GEFAC) que, de per si, agrupavam mais de mil estudantes. Mesmo outros organismos informais (Conselho de Veteranos ou Comissões da Queima das Fitas faziam parte dos apoiantes de um regresso imediato às liberdades académicas, a uma Associação independente e democrática.

Entre o corpo docente, contavam-se também umas dezenas de professores simpatizantes com a causa estudantil. Para só referir Direito, a faculdade eventualmente mais conservadora, Teixeira Ribeiro, Férrer Correia, Eduardo Correia, Mota Pinto e Orlando de Carvalho, para só citar catedráticos, eram conhecidos como apoiantes dos estudantes. As restantes faculdades, com relevo para Medicina, alinhavam pelo mesmo diapasão. A “Academia”, no seu sentido mais pleno, não acompanhava as “autoridades académicas” (Reitor, Senado e directores de faculdade esses sim redondamente, et pour cause, apoiantes do Governo e, em alguns casos, mais radicais do que as autoridades ministeriais).

Havia, nesta Universidade um forte e arreigado respeito pelas tradições (nem todas especialmente recomendáveis) e nisso incluía-se, desde sempre, o reconhecimento dos líderes estudantis, incluindo os informais. E desde que a Associação Académica apareceu em finais do século XIX os seus dirigentes foram sempre reconhecidos e convidados para todos os actos importantes da vida da Universidade.

Nada fazia prever desfecho diferente para a inauguração do edifício agora em causa. De todo o modo, para além dos muitos estudantes que se apinhavam na sala onde decorreria o acto solene, cá fora juntaram-se mais umas centenas de estudantes que empunhavam cartazes referentes à a criação de uma União Nacional de Estudantes, a um par de reformas pedagógicas e outras tantas de carácter académico-social (bolsas, etc). Nada de grave, nada que fosse novidade, nada que sequer pudesse chocar especialmente as autoridades. Todas as “reivindicações” constantes da dúzia de cartazes tinham feito parte do programa da lista vencedora das eleições vários meses antes.

No entanto, dentro da sala onde decorriam os habituais chatíssimos discursos próprios destas ocasiões, perante uma panóplia de ministros e professores, sob a presidência do Presidente da República, o ambiente era calmo. Quando depois de uma boa hora de discursos pareceu haver um pequeno intervalo, o Presidente da AAC levantou-se e, respeitosamente, pediu ao Presidente da República para usar da palavra. Este, um pouco confuso, como era seu timbre, diga-se, aquiesceu dizendo que antes falaria mais um ministro, no caso o das Obras Públicas. E o ronronar comemorativo continuou.

Quando o ministro acabou de soletrar o seu panegírico. Américo Tomás levantou-se e encerrou a cerimónia.

Foi um momento digno de uma comédia dos irmãos Marx: as figuras dos figurões a tentar escafeder-se e a rapaziada a levantar-se num sobressalto numa berraria infrene. A confusão armou-se. As autoridades a cavarem entre encontrões e insultos, uma desordem total. Cá fora a multidão arremeteu em direcção à porta e secundou a vaia monumental que saudava a saída indigna das autoridades. E eu consolado... não só por ter ficado a la fresca, cá fora, a fumar os meus cigarrinhos mas sobretudo por poder chamar uns quantos nomes aquela corja académico ministerial.

Saído o poder, instalou-se na sala o contra-poder. E Alberto Martins lá debitou o discurso. Palmas, muitas palmas e o povo “sereno” começou a debandar para o almoço. Ainda a noite era uma criança e soube-se que o presidente da AAC fora preso, provavelmente por uma brigada da pide. Em alguns locais, mormente na Sé Velha, houve pequenos motins, bastonadas, o costume.

E no dia seguinte, a “academia” indignada juntou-se no Pátio das Escolas numa improvisada Assembleia que, além de verberar a “repressão”, imediatamente exigiu numa dúzia de moções, a libertação de Martins e mais umas quantas coisas.

A polícia não se mostrou mas Martins também não. E a indignação cresceu. A direcção órfã de presidente pediu uma magna que reiterou tudo o que já fora dito na véspera e proclamou “luto académico” ou seja greve às aulas.

Martins entretanto foi restituído à liberdade, aureolado com as palmas do martírio. Mas as autoridades, desnorteadas, entenderam reabrir os confrontos desta feita ameaçando com processos disciplinares. Gasolina sobre as chamas! E o clima febril que já não era pequeno aumentou.

Meia dúzia de dias entre greves cruzadas, o tonto ministro da Educação resolveu vir à televisão em horário nobre para discorrer sobre o que ainda não era especialmente grave. Os cafés da cidade encheram-se. Os proprietários alugaram televisões para que a freguesia ouvisse S.ª Ex.ª e, ao mesmo tempo, consumisse. Vê-se que os comerciantes coimbrões conheciam os seus hóspedes melhor do que as autoridades conheciam os seus discentes.

O discurso de Hermano Saraiva, homem pequenino que provavelmente não tinha dotes de bilarino, foi uma obra prima de imbecilidade e teimosia. E de ameaças. A última com que terminou a sua pobre cena de faca e alguidar foi mais ou menos esta “ E amanhã espero que todos os estudantes de Coimbra estejam presentes nas aulas”. O silêncio estupefacto e irado com que as palavras do homenzinho foram ouvidas, no café Mandarim onde eu estava, foi sublinhado com um comentário rápido de alguém lá no fundo. “Esteja descansado, senhor Ministro!” uma gargalhada homérica, uma salva de palmas e encomendas de cervejas, muitas cervejas, barris, foi a resposta. Presumo que em todos os outros estancos da cidade, o clima e a sede fossem idênticos.

E Coimbra reamanheceu com uma greve total. E assim continuou pois o pobre Saraiva não percebia nada de nada e sobretudo era uma galinha pedrês vaidosa que presumia de pavão.

A Coimbra estudantil instalou-se na greve às aulas. A equipa de futebol trazia sinais brancos de luto nos equipamentos. As fitas e grelos recolhidos nas pastas, as batinas fechadas até cima, a capa a cair direita dos ombros sem se traçar, a praxe de rua suspensa com alegria e estupor dos caloiros, as reuniões de cursos, de faculdade, as assembleias, as discussões, algum êxodo de estudantes chamados pelas famílias mais temerosas, tudo contribuía para um desenlace previsível. A Queima das fitas (a exemplo de 1962) foi anulada. A população de Coimbra, prejudicada com isso, não protestou contra os estudantes mas contra quem os obrigara a anular a sua grande festa. Os jornais mandavam jornalistas que ficaram pela primeira vez a conhecer a fraternidade coimbrã, as repúblicas, a animaçãoo cultural dos organismos autónomos, as sessões culturais de toda a ordem que pretendiam preencher aquele dia a dia inquieto e nervoso que se vivia. E a grande pergunta começou a espalhar-se: isto vai até aos exames? Vão realizar-se exames?

Até à assembleia magna de 28 de Maio. Não sei em que lugar falei mas fiz parte dos primeiros seis ou sete oradores. Tenho por certo e seguro que terei sido o primeiro a dizer alto o que muitos já afirmavam baixo. Que era necessário ir até à greve aos exames. E disse-o, não por bravata, não por me querer antecipar, sabia que muitos dos se seguiriam carregariam na mesma tecla, mas porque estava também a responder a um, aliás corajoso, discursante de Direita (Carlos Ganho?) que justamente se lembrara de prevenir essa hipótese nefanda. Depois de mim, muitos mais falaram e recordo mesmo o Celso Cruzeiro que referiu o outro 28 de Maio dizendo que este era a adequada resposta ao do golpe militar. Em poucas palavras, quando foi posta à votação a proposta de greve, apenas umas escassas quatro ou cinco dezenas de estudantes foram contra. Se não estou em erro, eram os mais militantes, alguns antigos simpatizantes do Jovem Portugal, outros, monárquicos legitimistas que, honra lhes seja, estiveram ali, sabendo que a sua recusa poderia ter consequências. Não teve. Nada lhes aconteceu, nem sequer uma vaia. Mais tarde, muitos anos mais tarde, um deles disse-me, na minha esplanada favorita, que ao ir para a assembleia estava convicto que ninguém o insultaria ou agrediria e rematou, filosófico e nostálgico “Coimbra era mesmo assim”. Concordei com a mesma destemperada nostalgia. E pedi mais um café. E um copo de água se faz favor...

 

A fotografia é obra de um alucinado fotógrafo que, se não me falha a memória, se chamava (Carlos?) Fraga e era um segundanista de Direito. Acho que não nos conhecíamos mas, no Inverno desse ano ou um pouco mais tarde, apareceu-me com a fotografia.

Foi ele que me entusiasmou a frequentar o Curso Superior de Direito Privado, pois atrevidamente tinha tentado fazer o primeiro ciclo que só não completou por não estar ainda formado.

Soube dele, já juiz e posteriormente tive notícia de uma guerra dele com o Conselho Superior de Magistratura por ter, depois de avisado, publicado um livro sobre os podres da classe.

Ao que parece, o CSM não perdoou mas perdi-lhe por completo a pista. Alguém quererá ajudar-me?

A fotografia impressa é já uma cópia. Na verdade, numa altura em que o Expresso quis fazer um artigo sobre a crise de 69, apareceu-me cá por casa uma criatura jornalista que conseguiu transformar o meu depoimento em algo de completamente delirante (felizmente a minha mulher assistiu à nossa conversa e depois de ler a reportagem concluiu que a mulherzinha era absolutamente parva) Emprestei-lhe a fotografia verdadeira e até hoje.

 

Quando ia propor um livro, lembrei-me de ir ao meu ficheiro ver o que li nesse ano. Eis algumas dessas leituras: “l’homme sans qualités (dois volumes desemparelhados comprados em “promotion”) Musil; “Cosmos” e “Ferdidurke” de Gombrowicz; “Legendes et Poémes" de Bernard Dadié; “As Elegias de Duíno” de Rilke; “Longa noite de pedra”, em galego, de Celso Emílio Ferreiro; “Mémoires d’ Adrien”, Marguerite Yourcenar; ”Le monde de Ulysse” de Moses Finley; “Critique de la vie quotidienne” de René Lefebvre; “Rum” de Cendrars; “Liberté grande” de Gracq e “Na terra do crioulo doido” Stanislaw Ponte Preta, aliás Sérgio Porto. E farta dose de livros de teor marxista e até um de Stalin!!! Alguém nessa época ao ver a minha estante, afirmou que eu acabaria como o Quixote de tanto tresler.

Acho que os recomendo todos tanto mais que agora vários tem tradução portuguesa.

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