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Incursões

Instância de Retemperação.

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05
Jul20

estes dias que passam 443

d'oliveira

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Os dias da peste

Jornada centésima nona

As patrióticas indignações

mcr, 5 de Julho

 

 

Isto seria risível se não fosse patético. E tolo!E mais uma séria de adjectivos que não vou usar por temer um processo por ofensas aos mais altos poderes do Estado.

A Inglaterra tem, com mais uma série de países europeus, um critério para a quarentena obrigatória de quem vem de países onde o covid se passeia impune e sem pudor: o número de novas infecções por cem mil habitantes. É um bom critério? É um mau? Um assim-assim ?

É um critério, e basta. E não é só inglês mas está, tal qual o covid fdp, espalhado por vários países da União Europeia (e não só!...).

Portanto não há aqui nenhuma maldade escondida com o dito cujo de fora. Não há aqui nenhuma intenção de perseguir a terra lusitana dos egrégios avós e das areias algarvias.

É uma chatice? É!

Estamos a ser discriminados? Não.

Eu não quero assacar culpas a ninguém, mas a verdade, verdadeira, a “áspera verdade” de que Danton falava, é esta. Por cá, melhor dizendo (mas não só...) pela cintura pobre de Lisboa, o covid ceva-se impunemente em milhares de portugueses, mormente pobres, proletários & assimilados, gente que vive em casas miseráveis, que é obrigada a “enlatar-se” em transportes públicos insuficientes, a horas impróprias.

Gente que tem de trabalhar sob pena de não poder pôr na mesa uma refeição apressada e exígua para os filhos e restante família a cargo.

Gente que é mal paga porque tem as piores tarefas, as que pedem menos preparação e educação e que, em consequência, não oferece grandes salários. Gente emigrada, claro, mas não só.

De todo o modo, gente, seres humanos, escondidos para lá dos prédios luxuosos, das avenidas largas, do mar à vista, do progresso que o actual Governo tem dado às mãos cheias depois de um par de miseráveis ter gerido a herança de uma criatura que dava por Sócrates.

Comecemos pela Sr.ª Ministra da Saúde que fala pelos cotovelos mas, como dizia um sábio cozinheiro macua para a minha mãe e acerca de um rapazola na rua, “está só a falar...”

A dita criatura tem prosápia e descaramento. S.ª Ex.ª entende que o mal não é dos transportes mas do ambiente de trabalho. Traduzindo: o mal não é da meia hora para cá e da outra meia hora para lá como sardinhas em lata. O mal é do local de trabalho onde eventualmente até há hipótese de se manter algum “distanciamento social” e onde há, ou pode haver inspecções de toda a ordem de agentes dos poderes públicos. A nova salvadora sanitária deve confundir dois tempos diferentes: o tempo da viajem e o tempo do local de trabalho. O primeiro será sempre inferior ao segundo mas tem uma agravante de peso, de muito peso. É tudo a monte, uma rebaldaria absoluta e obrigatória. Se isto não convida o covid a lixar o mais resistente, vou ali e venho já!

Eu percebo, olá se percebo, a senhora ministra, coitada. Os transportes públicos dependem e muito do Governo, do Estado. Comboios, metro, autocarros dos serviços de transporte municipalizados etc... tudo isso tem a mãozinha do Estado e do Governo por trás. E a mãozinha pode não estar convenientemente lavada e desinfectada.

Querem que eu faça um desenho ou basta-vos ver as imagens deprimentes e acusadoras que a televisão nos traz à hora do jantar?

Depois temos o trio maravilha: o Sr. Presidente da República que se afirma “magoado” com a nossa “mais antiga aliada”. O Sr. Primeiro Ministro que, à imagem e semelhança de Trump, entendeu twitar uns números engenhosos para provar que o Algarve está bem e recomenda-se eque a Inglaterra está pior e não tem vergonha. Se a Inglaterra está pior, a que título se querem cá os “bifes” infectados? Será para pôr o Algarve como Lisboa? Ou S.ª Ex.ª julga que basta o ar de Faro para matar o covid clandestino e transportado pelos turistas da “pérfida Albion”?

E finalmente, o Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros que, em tempos, até ameaçou retaliar, a dizer um par de inconsequências que alguém menos generoso do que eu qualificaria de dislates sobre este grave assunto.

Só falo deste trio (e ainda da criaturinha da saúde que aqui só aprece como o contrapeso de uma compra no talho) por uma simples razão. Estes três senhores não são, nem têm a fama de ser, estúpidos. Eu conheço o terceiro e garanto que ele é, até, uma pessoa claramente inteligente. Os drs. Costa e Rebelo de Sousa, provaram em inúmeras intervenções televisivas que de burros nada têm, bem pelo contrário. Aliás, só assim se explica o sucesso político que lhes vem caindo em cima.

 

Todavia, estes ilustres varões, têm da malta, da marabunta, dos paisanos, dos cidadãos em geral uma ideia simples: acham-nos uns paus mandados, carne para canhão, uns simplórios, uns pobres de espírito (mesmo sem lhes dar em troca o reino celestial mas apenas uma caricatura de Portugal). No fundo, desprezam-nos. Esta gentinha serve para selfies, beijinhos e votar de quatro em quatro anos.

E, por isso, vá de nos enrolar com a maldade intrínseca dos ingliches & assimilados. Só por pura inveja é que nos metem no saco da quarentena.

Daqui a pouco vão citar o mapa cor de rosa e o Ultimato. E antes que venham com essa, e virão!, conviria lembrar que na época do mapa rosadinho a ocupação de territórios africanos na “costa e na contracosta” se resumia ao litoral e em alguns escassos casos no mato até cem duzentos quilómetros do litoral. O resto era desconhecido ou quase. Não havia, como resultava das diligências diplomáticas que precederam e, mais, tarde continuaram, a famigerada Conferência de Berlin, uma verdadeira ocupação dos territórios imensos para os quais aliás não tínhamos tropa, recursos e, muito menos, candidatos a colonos.

É verdade que, de permeio, e contra as ambições lusas, apareceu um “cavalheiro de industria” chamado Cecil Rhodes, que tinha o sonho imperial de ligar o Cabo ao Cairo.

É verdade, também, que houve um primeiro acordo entre Portugal e a Grã Bretanha que foi miseravelmente torpedeado pela minoria parlamentar republicana (com forte ajuda de várias facções monárquicas, convém acrescentar). Depois foi o que se viu. À recusa nacional e patriótica sucedeu-se o Ultimato e assinou-se um acordo pior. A pátria, ou alguns por ela, protestou com veemência cobrindo de crepes a estátua de Camões (coisa que assombrou todo o mundo civilizado), organizando procissões civis de protesto, um peditório nacional para comprar uma esquadra de guerra capaz de bater os piratas bretões. E um cavalheiro seguramente influenciado pelo grande vate coberto de luto escreveu “A Portuguesa” onde se dizia, preto no branco, “contra os bretões, marchar, marchar”.

Tudo isto, e muito mais, se desvaneceu vinte e muitos anos depois, quando, para participar numa guerra que não era nossa, mandamos para França umas dezenas de milhar de soldados, treinados à pressa em Tancos (o milagre de Tancos”!!!) que, à falta de navios nacionais, embarcaram em barcos ingleses, foram posteriormente treinados por oficiais ingleses e fardados pela Inglaterra. E fique claro que nem a França nem a Inglaterra nos queriam lá. Depois, foi o que se viu: a tragédia de La Lys, o soldado Milhões, e o regresso à pátria de centos de oficiais que engrossaram as fileiras do 28 de Maio.

 

Ai meus amigos e leitores, só me lembro e mal de António Nobre e da má sina de ter nascido em Portugal. Merecíamos mais e, desde logo, a verdade.

Será que esta gente pensa que engana o Pópulo? Não percebem que a simples informação diária de mais infecções, mais mortos, mais internados, desmente o triunfal êxito nacional que eles usam como gabarolice extrema?

Por quem raio nos tomam?