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Incursões

Instância de Retemperação.

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13
Jul20

estes dias que passam 451

d'oliveira

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Os dias da peste

Jornada 117

Tão portuguesinho que isto é!

mcr, 13 de Julho

 

 

Um português, por acaso professor no Técnico, por acaso presidente da Partex, a empresa da Gulbenkian que geria (com farto e notório lucro) os petróleos da Fundação, foi convidado pelo 1º Ministro para apresentar uma proposta de plano para Portugal. Aceitou a encomenda e avisou que o faria pro bono, isto é de borla (o que é coisa mais rara do que os diamantes em Estremoz.., ou emVila Pouca de Aguiar que vai dar ao mesmo....)

No prazo indicado apresentou o que me pareceu ser a 1ª versão.

E caiu o Carmo e a Trindade.

Como é que uma só pessoa se ateve a apresentar um plano quando, muito à portuguesa, deveriam ser várias, regiamente pagas e com as demoras do costume?

Mas há pior, segundo um comentarista habitual. O plano tem 120 páginas enquanto que um plano alemão do ano passado só tinha trinta. Que desfaçatez!

O plano , segundo outro, tem coisas boas, coisas más e, vá lá, coisas assim-assim. E isso, é inaceitável. Um plano só deve ter coisas boas ou, melhor e mais portuguesmente, só coisas excelentes. Assim como 11 numa escala de 1 a 10...

O plano diz vulgaridades ou contém narizes de cera. Sempre, muitas vezes, algumas, raras? Não se sabe nem ninguém nos diz quais.

O plano fala do mar enquanto destino que teve algum êxito e nunca da Europa que é o que nós agora temos. Ou melhor, só fala da Europa como fonte dos indispensáveis recursos financeiros para se concretizar.

Pelos vistos haverá outros recursos financeiros que o professor Costa e Silva não viu...

E por aí fora.

Por acaso, mero acaso, a História está pejada de planos feitos por uma só pessoa. Uns bons, outros menos bons como é evidente. Nada garante que dez criaturas (e nem falo das nacionais) metidas numa sala produzam mais e melhor do que uma se esta tiver algum talento, rigor e qualidade expositiva.

Pelos vistos este plano não tem uma origem colectiva que lhe assegure qualidade. Estou a ver algum leitor meu a exprobar-me o facto de, nestes folhetins despretensiosos, eu estar sozinho diante do computador. Ah, se eu tivesse dois ou três colegas o que daqui não sairia!

Assim o que sai é, digamo-lo sem receio, uma aguinha pé que só se perdoa porque anda por aí o covid. Coitado do mcr, ele é bom tipo mas francamente produz pouco e fracatível. Devia pedir uma ajudinha por aí. Nem que fosse a Fátima! Ou à santinha da Ladeira... Ou ao bruxo de Carreço, ali entre Moledo e Caminha...

Eu, que não tenho tabuleta na televisão ou nos jornais, que trabalho pro bono, aliás nunca considerei que estas redacçõezinhas fossem trabalho, diga-se para já. Escrevo porque me apetece, porque me dá na real gana, não tento angariar leitores, nunca fui ver quantas pessoas se dão ao trabalho de me lerem, aliás nem sequer sei como é que isso se faz, mesmo sabendo que é coisa pouco dificultosa.

O facto de um concidadão meu ter moído a mioleira para oferecer um projecto chega-me e sobra-me para, em primeiro lugar, agradecer. Tanto mais que não foi ele quem entendeu citar o toiro na arena mas apenas correspondeu a um pedido do dr. Costa.

Pelos vistos, o plano tem algumas coisas que, a crítica apesar de tudo, considera, boas e aceitáveis. Optimo! Vamos a elas. Do mau não vale a pena discutir. O Governo, mesmo este, em que às vezes parece que anda cada um para seu lado, sem rei nem roque, não é obrigado a aceitar tudo, a programar tudo. Pode até convidar mais alguém para uns retoques, por exemplo uma comissão a quem pague o esforço de cerebrar violentamente durante algum tempo (pouco por favor que há pressa) para adicionar o que for preciso sem, é bom que se diga, transformar o plano num molho de brócolos. Todos os planos podem ser melhorados, quase todos são revistos aqui e ali, mais cedo ou mais tarde.

Claro que eu etou a pretender falar para um país de cidadãos e não de súbditos, para um conjunto de ministros que sejam responsáveis e não se armem em prima-donas. E para uma elite que saiba, a todo o momento separar o trigo do joio e não ficar mesquinhamente à soleira a rosnar impropérios.

É que estou farto, fartíssimo de ver planos mal amanhados, se é que de planos se trata, de bizarrias que acodem ao espírito de um qualquer abencerragem, muito cheio de si, da sua importância e, normalmente, impreparado, inculto e incapaz.

Conheci, in illo tempore, uma criatura que posta a falar não parava. E tinha algum humor e alguma razão. Pedia-se-lhe que concretizasseo que perorava em meia folha de papel almaço. Nada! Não consegui alinhar cinco palavras seguidas. Isto a vida toda e já vai longa. Uma total incapacidade para traduzir em letra de forma o que o seu discurso prometia. Aliás, esse discurso era sempre para meia dúzia, jamais para uma multidão. Também nisso se lhe morria de morte macaca a verve. Andou, uma legislatura a arrastar-se pelo parlamento. Deram por ele? Nem eu! Aliás, dei, uma vez em que, apanhado pela televisão, teve de explicar uma posição do seu grupo parlamentar. Um desastre. Naufrágio mais rápido do que o do Titanic. Mas, en petit comité, que ironia, que graça, que brilho. Ia-se pela sequência e, em vez de diamantes, saiam lantejoulas. Das fracas, das de 2ª mão...

Não vou dizer que este caso extremo mas real, seja exemplo do que está aí para vir na discussão sobre o plano do professor. Mas que, daqui a uma semana, aquilo, o documento, há de parecer mais esburacado do que um queijo Emmental restam-me infelizmente poucas dúvidas.

 

Há uns tempos, discorri aqui sobre Joseph Roth. Queria citar um livro em que ele, com uma enorme perspicácia analisava a chegada, pouco depois do fim da 1ª Gerra, de multidões judias paupérrimas e camponesas e iletradas provenientes dos shetls da Europa Central. E de como isso tinha surpreendido os berlinenses, habituados a uma elite judia culta. Em boa verdade, aquela pobre gente só queria fazer de Berlin uma etapa. A ideia geral era emigrar para a América. Mas mesmo curta, e nunca há etapas curtas para pobres, eles não deixaram boas recordações a alguns berlinenses. Para esses, já bastava o horror do período que se seguiu à derrota, com a fome, a falta de tudo e uma inflação jamais (antes ou depois) vista para não olhar com piedade para estes infelizes. Talvez por isso, muita gente, tenha fechado os olhos o que a seguir ocorreu.

Agora que finalmente o encontrei, recomendo-o vivamente.

Suponho que o livro não está traduzido em português. O meu exemplar é em espanhol e chama-se “crónicas berlinesas” (Joseph Roth in Berlin. Ein Lesebuch für Spaziergånger, título alemão). A minha edição é de Editorial Minúscula, Barcelona, 2006