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Incursões

Instância de Retemperação.

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estes dias que passam 48'1

d'oliveira, 14.08.20

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Os dias da peste

Jornada 147

As petições

mcr, 14 de Agosto

 

 

anda por aí um forte burburinho à conta do destino a dar às petições que entram no Parlamento. E sobretudo à conta do número de assinantes que uma petição deve ter para ser considerada.

Este critério, na aparência muito democrático, esconde um vício absoluto. De facto, há causas, pouco ou nada populares que, entretanto, merecem ser discutidas. O problema é que, para o efeito, têm de encontrar subscritores em número considerável que defendam a sua entrada no Parlamento.

Por outro lado, há causas que só por ignorância de quem as subscreve trazem atrás delas uma multidão. Eu recebo, de quando em quando, mails a pedir a minha adesão a petições sobre assuntos que ou me não interessam de todo ou, sobre os quais não consigo ter uma opinião que me permita saber se vale ou não a pena pedir um exame atento da questão.

O Parlamento, a meus olhos, merece não ser alvo de uma enxurrada de petições que pouco ou nada acrescentam à cidadania, ao bem público ou que sejam o reflexo de preocupações gerais e sensatas.

Ainda há pouco tempo, circulava uma petição que exigia que a Câmara Municipal do Porto, chumbasse o projecto de instalação do “Corte Inglês” num terreno propriedade desta empresa e situado nos “escombros” (não há outra palavra melhor) da antiga estação de caminho de ferro da linha da Póvoa desactivada há um largo par de anos.

Os peticionários alegam que nesse local, a cem, duzentos, metros do Jardim da praça Mousinho de Albuquerque, vulgo Rotunda da Boavista, se deveria erguer um jardim!

Há aqui algo de aflitivamente imbecil. Na realidade o jardim que cerca o monumento sobre a guerra peninsular é um deserto que, nem sequer serve de passagem especial para quem usa as oito ruas e avenidas que entroncam na enorme praça. Fora, uma que outra animação natalícia ou sãojoanina nunca vi a praça animada. Em tempos, já distantes, ainda aí se realizava a feira do livro que, depois, migrou para a Avenida dos Aliados e agora habita com mais conforto e sombra (e estacionamento, mesmo se pago) no Jardim do Palácio de Cristal. Se bem m recordo, a queixa dos feirantes era a da fraca afluência de público mesmo se a zona tinha uma enorme quantidade de transportes públicos e uma forte densidade de cafés, restaurantes e pastelarias nas proximidades imediatas. Preferiram a Avenida dos Aliados onde à tarde o sol torrava impiedosamente os eventuais compradores e os vendedores mesmo se estes estivessem fracamente protegidos pelas barraquinhas que se transformavam em autênticos fornos.

Mais tarde, apareceu outro projecto tonto e ridículo: propunham umas tantas ou quantas almas que na rotunda se erguesse uma “casa de chá”, pastelaria ou confeitaria. Isto quando na própria praça, na rua Júlio Dinis, na Avenida da Boavista e em mais um ou dois arruamentos existiam dúzia e meia de estabelecimentos com os mesmíssimos fins!!!

Agora, as mesmas almas ou outras similares embirraram com o “Corte Inglês” e o seu projecto de construcção de raiz dos armazéns e de um hotel, num terreno, aliás particular e onde só crece mato, se injectam drogados e se despeja lixo.

Dir-se-á que o edifício, feio, baixo e nada sugestivo da antiga estação merecia ser poupado como memória. Nem isso. Aquela estação nada tinha de interessante, de arquitectonicamente valioso e nem sequer era algo de especialmente memorável. Pior, nunca ninguém apareceu interessado nos diferentes imóveis abandonados da zona que não se restringem aos terrenos da estação.

Mesmo a construção da “Casa da Música” não aliciou investidores embora os espaços imediatamente circundantes sejam frequentados por jovens que utilizam as rampas existentes para acrobacias com os skates. De todo o modo, nenhum deles atravessa a rua para gozar o arvoredo das larguíssimas e desérticas veredas da rotunda.

Indo um pouco mais longe: a zona da Rotunda da Boavista tem uma ocupação francamente terciarizada. Há evidentemente alguns moradores mas a a ocupação humana predominante é de estabelecimentos comerciais e escritórios. O que significa que o jardim solicitado nunca seria logradouro de vizinhos ou de crianças. Argumentar-se-á que, mesmo assim era um “espaço verde” um pouco na continuação do jardim da rotunda. Convenhamos que é pouco, que é caro e que, de qualquer modo nunca teria dimensão que se visse.

Resta saber quem são os peticionários. Vizinhos? É duvidoso dado que como se apontou aquela zona é fundamentalmente de serviços. Restam os do costume, os que peticionam porque sim, porque isso é divertido, os distrai ou porque fica bem assinar uma petição.

É evidente que não sugiro que todo e qualquer abaixo assinante faça em documento anexo a sua declaração de interesses. Basta o alegado interesse público que, porém, e no caso vertente, é dificilmente entendível.

(declaração de interesses: gosto de espaços ajardinados, eu mesmo os frequento, aliás, na zona onde vivo e por extraordinária sorte, metade do espaço urbanizado é um jardim, desde o início. Não me canso de diariamente o ver enquanto tomo café e escrevia antes este blog que por razões de covid está exilado em casa, perto de uma varanda transformada em pequeníssimo (3 m2 ) jardim de inverno. Não sou um frequentar assíduo do Corte Inglês, mesmo se aprecio bastante a sua livraria e o seu supermercado. Também não sou um frequentador regular da rotunda ou da sua zona circundante. Quando quero ar puro vou para a Foz onde há mar e uma escolha enorme de esplanadas. E, finalmente, irritam-me sobremaneira os peticionistas por dá cá aquela palha. São eles os causadores das propostas de desqualificação das petições)

 

* na vinheta: imagem aérea da rotunda da Boavista

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