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Incursões

Instância de Retemperação.

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estes dias que passam 489

d'oliveira, 16.09.20

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Uma vitória e uma derrota

mcr, 16 de Setembro

 

 

Estejam descansados os leitores. Não vou falar de futebol, assunto, aliás.de que não percebo patavina. A menos que se trate de futebol na praia, o dos meninos que corriam com cachorros alucinados pela extensa praia da Figueira, ali entre o viso e o “ferro de engomar”. Aí nesse território sagrado da infância feliz e exaltante, o futebol ocorria duas vezes ao dia. De manhã, antes do primeiro mergulho e de tarde antes da “bolacha americana” que era o que se usava nas décadas de 40 e 50. Era o Xico Neves quem organizava as infindáveis partidas que metiam também equipas locais de Buarcos capitaneadas pelo João “Mantana”, aliás João São Marcos que, espero, estará ainda vivo e a gozar de uma merecida reforma depois de muitos anos de desenhador e mestre de trabalhos manuais. O João era colega de escola, protestante, refilão e um admirável amigo.

Fora isso, o futebol para mim é uma solene chatice agora cercada de uma rede de interesses inconfessáveis e mafiosos. E digo mafiosos só por raríssimas vezes ter parado num dos canis onde pululam comentadores encarniçados, aos gritos e impropérios defendendo o indefensável, o clube, as manigâncias, os capos da seita, enfim tudo o que de pior a televisão tem, usa e abusa.

Resolvida esta questão, vamos ao que interessa. E o que interessa são duas quase novidades, um pouco antigas que se ainda não tem barba já ostentam buço viçoso. A primeira é uma triste notícia. A editora Cotovia fecha portas no fim do ano.

Esta editora que, em indo a Lisboa, frequento com prazer, todos os meses fica situada na rua da Trindade, quase a chegar ao largo Trindade Coelho ou da Misericórdia e paredes meias com uma sex shop.

Neste local, existiu durante anos a Livraria Opinião, um baluarte do livre pensamento, das tertúlias estúrdias e bem humoradas, uma loja de livros de três andares onde conheci dezenas de autores (entre todos o Al Berto que lançava um primeiro (ou quase) livro que já deixava adivinhar a sua força, o seu talento e a sua especial língua). Acho que já, por aqui, contei episódios vários ligados a essa assembleia de gente culta e livre e talentosa. A Opinião fechou depois do Hipólito Clemente ter decidido ir fazer outras coisas, entre elas licenciar-se, ganda maluco. Do Hipólito basta dizer como o Luís Pacheco: era um livreiro de mão chia capaz de vender a Belzebu, um inteiro catecismo católico!

Já está do outro lado, como o Assis Pacheco, o outro Pacheco, o Cabeça de Vaca et alia.

Agora é a vez da “Cotovia”. obra de um André Jorge, que também já não frequenta este mundo de merda e covid, fechar a porta. Demasiada boa literatura, uma escolha impecável de títulos, colecções primorosas de poesia e teatro (o Brech, o Ibsen e quantos mais!), uma série de livrinhos que traziam os brasileiros até nós, enfim um regalo. Pelos vistos nenhum dos grandes grupos livreiros tentou adquiri-la. Ou então foram os da Cotovia que não quiseram abastardar a sua herança, sei lá. Mas vai fazer falta, malta. Vai fazer muita falta.

 

A vitória é a doação de todos os arquivos do grande arquitecto Paulo Mendes da Rocha, Pritzker (o nobel dos arquitectos), Leão de Ouro de Veneza, etc., etc.. , à Casa da Arquitectura (Matosinhos). Mendes da Rocha é brasileiro mas tem trabalhos em todo o mundo. Por cá é autor do novo Museu dos Coches e só isso basta para ver quão bom o homem é.

Parece que no Brasil e na faculdade onde ensinou vai um murmúrio grosso e a engrossar de tristeza. Aguentem, amigos brasileiros, vocês tem aí a espantosa Biblioteca Real levada por d João VI e por cá não se ouvem queixas. Por duas ou três razões: porque ninguém sabe: porque ninguém se interessa; porque se entendeu respeitar a vontade desse rei que só vale a pena conhecer porque fugiu, e bem, aos franceses para evitar a triste sorte do colega espanhol que mais não foi do que um capacho de Napoleão. Claro que o, na altura, regente poderia ter mandado resistir às tropas de Junot que entraram no país famintas, doentes, cansadas e facilmente derrotáveis por um par de regimentos de linha portugueses. Não foi assim e Junot instalou-se em Lisboa, apanhou o título de duque de Abrantes que a viúva fartamente usou nas “memórias” que escreveu. Junot , uma vez chegado à capital entregou-se aos prazeres de Cápua, dentre os quais sobressai a notória ligação com a condessa da Ega, justamente conhecida em toda a Lisboa como a “égua do Jinote”. Fora dessas tropelias amorosas, Junot roubou quanto pode, deixou roubar e quando vencido seguiu para França, os ingleses permitiram que levasse um saque imenso de preciosodades incluindo um gigantesco espólio científico organizado pelo dr. Alexandre Rodrigues Ferreira, o homem da “viajem filosófica” à Amazónia, de onde em dez anos fez chegar a Portugal uma incrível e extraordinária colecção naturalista e iconográfica e etnológica.

Aliás, ARF, português nascido na Baía, licenciado em Coimbra e emérito explorador é sobretudo conhecido e reverenciado no Brasil onde se sucedem as edições da sua “viagem philosóphica”. Aponte-se o nome da editora que graças à Odebrecht, presumível corruptora nos dois continentes, editou, e bem, não só Ferreira mas toda uma série de textos holandeses do tempo da ocupação do norte do Brasil por Mauricio de Nassau: Kapa editora.

Is leitores ter-se-ão apercebido qu o texto como de costume se afastou do seu propósito inicial para acabar nas invasões francesas. Se é verdade que, alguns portugueses se terão sentido órfãos, não menos verdade é que os franceses forem recebidos pelos proto-liberais em salvadores, em enviados da Revolução. Dí à colaboração foi um pequeno passo alegremente dado. Quando o Portugal ultramontano, e sobretudo o Portugl profundo, se ergueu contra os ocupantes, não admira que muitos “pedreiros livres” teham sido perseguidos. Daí até ao caso Gomes Freire de andrade que combateu em nome da França foi só um pequeno passo que Beresford não hesitou em dar. Ou dito de outro modo, na história dos acontecimentos de 1820 nem tudo são rosas. A começar pelo Brasil que os pais do vintismo queriam de novo reduzir a uma mera colónia. A liberdade não estava propriamente prevista para todos. A independência do Brasil, a reacção absolutista, as guerras civis tem um tronco comum e tudo a ver com os anos 20 E até com os primórdios da invasão francesa.

Ou de como a mancebia com a belíssima condessa da Ega não causou especial repulsa patriótica nem fez cair a “honra” do conde cornudo nas sargetas de Lisboa. Não fora o regente e futuro rei que ordenara que se recebesse “bem” os franceses? Não o exigia também a nova ideologia nascida à sombra da Revolução que fizer de Napoleão, 1º Cônsul? Que ele, depois, se tenha coroado Imperador e criado uma série de pequenos reinos para os seus familiares não horrorizou especialmente os franceses, mesmo os mais assanhadamente democratas. Dessa tentativa de criar reis subsiste, intacta, a monarquia sueca ganha pelo geral Bernardotte.

Provavelmente, em boa hora!

 

Na vinheta: Museu dos Coches, projecto de Paulo Mendes da Rocha

 

 

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