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Incursões

Instância de Retemperação.

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estes dias que passam 494

d'oliveira, 28.10.20

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Para variar da política

mcr, 28 de IOutubro

 

Convenhamos. Não é só para variar do triste espectáculo que a geringonça dá neste momento. E só refiro a geringonça porque a Direita foi varrida da discussão pelo dr. Costa

há já várias semanas. Aproveite-se o momento para estranhar as contínuas frechadas atiradas ao PPD a propósito do sentido do seu voto. Este OE tem a marca da bizarra “frente popular” que nos governa (ou desgoverna) e seria milagre forte que o dr. Rui Rio movido por um misterioso sentido de Estado e outro não menos incrível sentimento patriótico pudesse dar o seu aval a algo que a própria UTAD já qualificou de desastrado.

Deixemos pois mais este patético episódio da vida nacional, sinal, aliás, de um atávico modo de estar no mundo, enquistado no corpo da Nação desde há séculos, e passemos a outro assunto bem mais interessante.

Soube-se hoje que o prémio Pessoa, iniciativa do “Expresso” (um dos raros meios de comunicação que resistiu à usura dos anos, recaiu sobre um professor universitário, Victor Aguiar e Silva que começou a sua carreira docente em Coimbra e a finalizou em Braga na Universidade do Minho.

Nos meus tempos bem longínquos de faculdade, ouvi, por várias vezes, alunos e alunas dele, referirem-no. Tinha fama de competente, interessado, culto e (se não erro) de vagamente conservador. Li, sem especial atenção mas com indisfarçável interesse, alguns artigos dele e não sendo oficial do mesmo ofício nem pretendendo sê-lo, fiquei impressionado com a qualidade desses textos de que já só tenho uma vaga (mas boa) recordação.

O jornal refere-o como ensaísta o que, sendo verdade, deixa na sombra um labor de dezenas de anos de ensino universitário. Não pretendo aqui abrir uma guerra do alecrim e da manjerona mas convém relembrar que aos senhores professores doutores fica bem irem escrevendo e publicando o fruto dos seus estudos e do seu ensino estendendo assim à arraia miúda não universitária uma mão cheia de noções sobre os assuntos da sua especialidade. Ora VAS conseguiu sair o estrito e estreito circuito universitário e criar um público que o foi conhecendo e, seguramente, ficou melhor, mais culto e mais conhecedor de, por exemplo, Camões.

Cite-se a “Teoria da Literatura”, um tijolo que já vai na 18ª reimpressão da 8ª edição!!! É obra! E é, sobretudo, um excelente sinal de que o autor não se ensimesmou na 1ª, 2ª ou 3ª edição. Foi trabalhando pacientemente o texto, modificando (opor vezes profundamente) a discurso didactico-crítico um esforço com raros paralelos na cultura literária portuguesa. Que me lembre, assim de repente, só a Profª Dr.ª Maria Helena da Costa Pereira (estudos clássicos) ou a dupla Óscar Lopes/ António José Saraiva foram republicando e melhorando continuamente os seus textos. Há de certeza mais mas estes dois exemplos chegam para afirmar que nem tudo é sonolência na Universidade Portuguesa.

Apetecia-me dizer que o prémio é merecido e vem, felizmente, em boa hora que o autor é vivo e está ainda ali pronto para mais trabalho e para gozar o prémio. Não posso porém afirmar que este ano foi o melhor candidato mas apenas, isso sim, que é um prémio justo, justíssimo a um homem digno, um professor notável e um estudioso de grande mérito. Uma vez mais o júri do “Pessoa” mostrou estar à altura. Este é um dos raros prémios que tem merecido forte consenso. Só isso dignifica os laureados e os patrocinadores do prémio.

Ah se a política fosse pelo menos vagamente semelhante....