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Incursões

Instância de Retemperação.

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estes dias que passam 495

d'oliveira, 30.10.20

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Sepultar os mortos e cuidar dos vivos

mcr, 30 de Outubro

Bolinhos e bolinhós
Para mim e para vós
Para dar aos finados
Que estão mortos, enterrados
À porta daquela cruz
Truz! Truz! Truz!
A senhora que está lá dentro
Assentada num banquinho
Faz favor de se levantar
Para vir dar um tostãozinho.

O título recorre a uma frase atribuída ao Marquês de Pombal e que seria a resposta a uma pergunta do rei logo depois do grande terramoto. Se é ou não verdadeira pouco importa e só a refiro porque estamos em plena época de celebração dos nossos mortos, o dia de finados.

Em tempos muito próximos, ontem, isto é no ano passado, uma vez mais se floriram os cemitérios, as campas rasas como os jazigos imponentes. Sei de pessoas para quem esta piedosa romagem faz parte essencial das suas vidas e que, por isso, lamentam doridamente a proibição de circular entre concelhos.

Em boa verdade, a civilização, ou os seus primórdios, passa, eu diria começa, pelo hábito de enterrar os mortos, de proteger os seus restos da violência dos elementos e dos animais selvagens.

A tradição não é apenas ocidental e cristã mesmo se aqui ela se expresse com grande força. Dezenas de civilizações protegem ciosamente os seus cemitérios, consideram o território por eles ocupado como santo, há tabus diversos para proteger ossadas perdidas no tempo, eventualmente desaparecidas na terra. As pirâmides (e Gizeh é uma , a única – julgo – das sete maravilhas que se pode ver quase tal qual como foi erigida. Havia uma outra maravilha também tumular o mausoléu de Halicarnasso mas desse nada resta) ou o Taj Mahal para não falar do túmulo do imperador Qin Shi Huang e do admirável exército de terracota que o guarda mostram bem que o fenómeno é universal mesmo se, das chamadas civilizações primeiras haja apenas um vago rasto (alguns lugares sagrados, máscaras mortuárias, esqueletos cuidadosamente guardados, ritos funerários ( p. e. o caso da etnia dogon que enterrou simbolicamente com grande pompa o etnólogo Marcel Griaule, grande divulgador da sua extraordinária cultura).

Tudo isto para referir a proibição de circulação relativa a este dia que força muitas dezenas de milhares de cidadãos a não cumprir a tradição (e bem mais do que isso) de lembrar os seus mortos.

Não faço parte desse enorme grupo mas, sei lá porquê, tenho um grande respeito pela tradição deste dia. Recordo-me que foi em Coimbra, andava eu no terceiro ano, acabado de sair da casa paterna por não haver na Figueira 2º ciclo dos liceus, que ouvi numa noite fria e feia a cantilena que acima reproduzo. A tia Cristina lá foi dar qualquer moeda aos rapazitos que cantavam à porta e isso, essa sensação de solidão essa falta dos pais e irmão, foi algo que nunca esqueci. Nunca fui ao jazigo familiar mas em chegado este dia lá me lembro dos meus mortos, e já são tantos. E percebo a incomodidade dos que não poderão ir florir as campas sobretudo agora que paira sobre todos a sombra aziaga do vírus.

Percebo as razões, racionalmente admito-as, mas não entendo o facto da medida se estender a todo o território.

E, também sem perceber as extravagantes voltas e reviravoltas da memória, recordo-me de ter chegado a Berlin justamente num “Totentag”, dia dos mortos, no ano longínquo de 1970. A cidade, murada pelos soviéticos e pelo regime fantoche da RDA, respirava um ar pesado. Ali, no palco final da 2ª grande guerra europeia, esse dia ainda estava muito vivo. Centenas de milhares de mortos entre soldados russos e alemães e civis berlinenses apanhados naquela armadilha, ainda eram demasiado próximos dos habitantes actuais, enfim dos que lá viviam nesse ano de permanente contestação que desde o SDS até aos grupos esquerdistas e aos ainda fortes núcleos vagamente simpatizantes da Rote Armée Fraktion, o grupo dito “Baader-Meinhof”.

Enfim, esperemos que estas medidas, e as que se imaginam bem próximas, permitam, de facto, tornar actual a frase do Marquês.

Seria terrível que no afã descontrolado do combate ao covid se descuidassem os mortos e se sepultassem em casa, isolados e acabrunhados, os vivos.

 

*na vinheta : ritos funerários Dogon com a presença das famosas máscaras “kanaga”