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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

estes dias que passam 515

precedente perigoso

d'oliveira, 19.01.21

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Os dias da peste (2ª série) 154

Precedente perigoso

mcr, 18 de Janeiro de 2021

A criatura que amanhã sairá da Casa Branca andou quatro anos a inundar as redes sociais de mentirolas, gabarolices, injúrias e ameaças. Tudo numa linguagem grosseira, imprópria de um vulgar cidadão quanto mais de um presidente dos EUA. Pode dizer-se que estabeleceu um precedente aviltante, indecoroso e... perigoso.

Esta sinistra e obscena farsa durou quatro anos e só terminou quando se tornou mais que evidente mesmo à miopia das redes sociais que o seu autor perdera as eleições.

Nessa altura, e só nessa altura, convém acentuá-lo, éque as redes, que o tinham acolhido sem reservas, entenderam que os vitupértios trumpistas ultrapassavam todas as barreiras!... E vá de cortar-lhe o acesso.

Mesmo que eu respeite o salutar e higiénico gesto de varrer a merda para a fossa, gostaria de lembrar que o acto libertador contende com a liberdade de expressão.

É verdade que esta liberdade, absolutamente fundamental e intrínseca à democracia, não deveria ser usada para mentir, conspurcar, enganar ou animar a insurreição contra as instituições democráticas como de resto ocorreu.

Também é verdade que o twiter, o facebook e restantes redes são instituições privadas que não dependem dos poderes públicos pelo menos directamente.

No entanto a dúvida põe-se: tivesse o detestável Trump ganhado a eleições teriam as redes procedido da mesma maneira? Será que o facto de serem privadas lhes permite sem mais nem menos cortar o acesso a um cliente inscrito? E sob que critérios? É que este Donald, que não é o honrado pato da nossa infância mas tão ó um mentiroso contumaz e um político inábil e malcriado, andou todos estes anos a conspurcar as redes sociais sem que estas se dessem por achadas ou indignadas.

Cortar a palavra é sempre um acto de censura e deveria, pelo menos, ser precedido de avisos, de correcções inseridas no texto em causa. Isso terá ocorrido algumas vezes, bem poucas, aliás, sem quem na generalidade afectasse a mensagem de ódio e mentira.

Na América, não são poucas as vezes em que uma correcção de algo errado voe directamente para o exagero e para o impensável. Ainda há pouco o #me too” ou mesmo o #black lives matter # movimentos cuja intrínseca justiça é inegável, resvalaram para mais uma perseguição às bruxas ou para um excesso de violência que permitiu resposta dura e pior de movimentos racistas e xenófobos endógenos.

Por cá, numa versão imbecil e anti-histórica quem pagou as favas foi o padre António Vieira, personagem que eventualmente teria sangue africano mas sobretudo defendeu os indígenas brasileiros, Basta ler o que escreveu.

Claro que os pobres e acéfalos vândalos que pintaram a sua estátua (de notório mau gosto, diga-se) nunca leram Vieira, nunca sequer terão sabido quem ele foi mas bastou-lhes alguém soprar o vento agoirento para se atirarem à estátua.

Do mesmo modo, e neste preciso momento, andam por aí duas candidatas que se dizem de Esquerda a pedir não só a cabeça dum tonto arrivista político mas sobretudo a alanzoarem proibições extraordinárias de um partido que, segundo o Tribunal Constitucional, é legal.

E é bom lembrar que começando pela proibição desse ajuntamento, se acaba por atacar o Tribunal que o permitiu, a Constituição que nos governa e a liberdade tout court.

Poder-se-á dizer que uma dessas criaturas nunca soube o que era viver sob o Estado Novo e que a outra também só o conheceu nos seus estertores e que boa parte do seu currículo de resistente se deve ais excessos alegadamente revolucionários de um copcon que tentava com o seu exacerbado activismo post 25 de Abril encobrir o passado pouco saudável da grande maioria dos seus dirigentes que durante bastante tempo executaram zelosamente a política da “velha senhora”.

Recordo, como se fosse hoje, aqueles dias que mediaram o 25 A e os que imediatamente o continuaram. De um momento para o outro surdiram à crua luz do dia dezenas, centenas de milhares de anti-fascistas de toda a vida que até 24 estiveram calados como ratos, que mal viam um suspeito de “politicamente suspeito” (segundo a definição da polícia política) logo mudavam de passeio e assobiavam para o lado. Isto quando não denunciavam apressadamente um vizinho ou, pelo menos, lhe negavam ajuda.

Infelizmente, uma lei imbecil tornou impossível consultar o arquivo dos denunciantes, dos colaboradores da polícia e do antigo regime. E dos que viviam confortavelmente, dos que assinavam toda e qualquer declaração política a renegar ideologias anti governamentais para agarrar um lugarzinho na funçanata pública.

Alguém viu os magistrados que nos tribunais políticos ou nos de polícia condenavam os manifestantes, os militantes, os suspeitos de pensar mal, serem sequer apontados? Alguém viu os militares, que nas colónias toleravam ou apoiavam a pide na caça aos negros, serem sequer incomodados? E por aí fora....

E por hoje, basta que as estatísticas da mortandade são terríveis.

E um livro: Camus, qualquer obra deste genial autor. Qualquer! Para se perceber quão estreito, mas quão excelente, é o caminho da opinião livre e sem alcavalas ideológicas.

*na vinheta: máscara Kumu (ou Komo ou Bukumu), República Democrática do Congo, 27x16, madeira, pigmentos variados de cor, pintados com a ponta dos dedos, datação: 1ª metade do século XX. Proveniente de uma colecção alemã, pode mesmo ser anterior ao final da 1ª Guerra mundial. Não há qualquer razão para a inclusão desta gravura excepto o facto de ser a mais recentemente adquirida e de ue gostar dela..