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Incursões

Instância de Retemperação.

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estes dias que passam 517

d'oliveira, 20.01.21

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Os dias da peste 156

De regresso à dignidade

mcr, 20 de Janeiro de 2021

 

 

Vi em vários canais (o melhor foi o euro-news) a tomada de posse de Joe Biden como 46º Presidente dos EUA. Faço parte dos que acreditam que na América é sempre possível o milagre e, Deus seja louvado!, ele aconteceu. Sou um incréu conformado mas, porventura devido à educação recebida, de quando em quando invoco o nome de Deus.

E, no caso vertente, bem que valeu a pena pois na maior votação da história dos Estados Unidos até o derrotado bateu todos os recordes de votantes.

Ouvi com atenção o discurso de posse e disse aos meu botões que tomáramos nós cá um discurso com aquele tónus. E com aquela abrangência. Depois de quatro anos de bazófias grosseiras e insultuosas, é bom ver um homem decente, um americano comum (enfim, quase comum) e um político experiente e experimentado, dirigir-se aos seus fellow americans. Num tom calmo, a que por vezes não faltou emoção e sabedoria, em vinte e três minutos, Biden deixou uma mensagem de paz, de dignidade, de determinação e de conforto. Foi comovente ver este velho senhor pedir um momento de oração pelos quatrocentos mil americanos mortos pelo ocovid.

Mesmo que a procissão ainda possa ir no adro, é uma janela de esperança a primeira missão que o Presidente assume: vencer a epidemia.

E vai vencê-la porque bem que sabemos que a América, quando se mobiliza, mobiliza-se a sério e com uma inflexível determinação.

E é simbólico: num Gabinete pejado de símbolos (pela primeira vez uma mulher das “primeiras nações”, uma índia para simplificar, está lá Chama-se Deb Haaland e é dela a fotografia que serve de vinheta. De certa maneira, mesmo se não seja tão evidente quanto a ascensão de Kamala Harris (“negra”e asiática pelas origens é também filha de dois membros da elite científica e da burguesia abastada americanas) esta mulher vem reparar uma horrenda injustiça histórica, racial e ética. De repente, recordo que na campanha do Pacífico, 2ª Guerra mundial, as tropas americanas incluíam umas centenas de índios da nação Navajo que serviam no corpo de transmissões. De tal forma foram importantes (os japoneses nunca conseguiram identificar a língua usada) que havia uma insrucção secreta: abater estes homens no caso de(em boa se correr o risco de eles caírem prisioneiros.

(em boa verdade, a morte era a maior certeza para quem caía prisioneiro dos japoneses, facto que, hoje, é obliterado por muitos pacifistas que fingem ignorar qual seria o real custo em vidas (americanas e japonesas) de uma prolongada guerra de invasão do território do Japão – as baixas americanas atingiriam um mínimo de 500.000 mortos e as japonesas poderiam multiplicar este número por dez!

Deixemos, no entanto, essa discussão sobre o “nariz de Cleópatra, para os filisteus e recordemos que o anterior inquilino da Casa Branca tinha prevista menos de duzentos mil mortos. À hora da saída e o desastre ainda vai a meio, já número negro vai mais que dobrado!...

 

E por cá? Pois, por cá é naufrágio absoluto. Ontem, a Sr.ª Ministra da Saúde em tom emotivamente gritado pediu ajuda “a todos”. Mais vale tarde do que nunca mas embora não possa garantir que não teríamos chegado até aqui (e amanhã será quase certamente pior!) sempre direi que a ideia, a toleima, de que a pandemia poderia ser contida só com os meios do SNS revela toda a sua estúpida falência. Deveria ter sido há oito, nove, dez meses que se devia pensar a sério numa colaboração com todos os agentes sanitários.

E seria bom lembrar que, apesar de tudo, às escondidas, quase clandestinamente, houve colaboração em pequena escala. Porém, uma hábil campanha de “fake news” foi movida para fazer acreditar a tese do “mercantilismo da saúde” e foram usados números enganadores (como, aliás, tem ocorrido durante esta campanha eleitoral) para manter a ficção de um divórcio entre bons e maus de que as principais vítimas são os portugueses.

Eu, se calhar porque sou velho, prudente e cuidadoso, cumpri todas as medidas que nos iam impondo. Deixei de visitar a minha mãe (em Lisboa) a sugestão dela que temia as longas viagens mensais desde o Porto. Já a não vejo desde finais de Setembro (antes também estive privado de a visitar entre Março e Junho. Felizmente, tenho um irmão médico perto dela e que todos os dias passa duas horas lá em casa)

Aqui, limitei as saídas de casa ao essencial (farmácia e compras para poupar o mais possível a CG que nunca mais pôs o nariz fora de portas). Com o pequeno-grande luxo de poder ir buscar o jornal e tomar uma bica a cerca de duzentos metros. Essa escapadela diária durava entre dez e quinze minutos que só eram excedidos se havia compras a fazer.

Fora isto, tive de ir ao hospital CUF para ser operado à catarata, e irei fazer a consulta de rotina semestral do diabetes.

Excepcionalmente, saí duas vezes para entregar (e trazer) livros para encadernar mas aí, as precauções eram tantas que praticamente nem vi as pessoas que lá trabalham.

Por isso mesmo, tenho o direito de reclamar não só contra quem estúpida e imprudentemente prevarica mas também contra quem em vez de governar andou a reboque dos acontecimentos sem sequer fazer o que os restantes governos da UE faziam. E o resultado é este: estamos em primeiro lugar em todas as listas de perigo, mortos, infectados, atraso nas medidas. Em primeiro lugar! Em primeiro lugar destacado. Arre!

Algum(a) leitor(a) poderá entender que me atiro com unhas e dentes à sr.ª Temido. Nem por isso: basta ir à internet e ver as declarações que ela foi fazendo durante estes dez meses: aquilo é uma antologia da cegueira ideológica e da mais desvairada falta de senso comum.

Uma palavra, já atrasada, sobre a “festa da democracia” gabada pelo sr Presidente da Câmara de Coimbra e pelo sr. dr. Cabrita a propósito das eleições antecipadas. Sobre esse espectáculo ominoso e vergonhoso de gente exposta ao risco, estas duas tristes criaturas compuseram uma ode à alegria dos cemitérios. Há momentos em que não falar dá prémio.

Outra palavra: o dr. Costa deu a mão à palmatória mesmo se de forma indirecta e tentando fugir com o dito cujo à seringa. De todo o modo, é verdade que na balda do Natal teve inesperada e suspeitosa companhia. Ninguém, ou muito poucos, nos corredores de S Bento, ousaram criticar as medidas governamentais e dar o nome aos bois: populismo baixo e ânsia de agradar a gregos e troianos. E, como alguém se lembrará, da guerra de Troia poucos saíram bem. E mesmo entre os vencedores, como Ulisses, muitos penaram para regressar à pátria.

 

A minha referência a uma “nativa” americana ficaria incompleta se não aproveitasse para convidar os/as leitores/as a lerem os romances de Tony Hilerman . Nos que existem em português (é só irem à página da wook que estão lá cinco) os dois personagens principais são d nação navajo.

Acrescento que se trata de obras excelentes e cheias de pormenores sobre a mundivisão deste povo.

Boas leituras. Cuidem-se!

 

 

 

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