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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

estes dias que passam 520

d'oliveira, 23.01.21

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Os dias da peste 160

Tempo de reflexão

mcr, 23 de Janeiro

 

 

Hoje é o negregado dia de reflexão, ou seja um dia em que umas luminárias entenderam dever proteger “o povo” de influências malsãs sobre o voto. Claro que isto mostra, sobretudo, um desconhecimento descarado e elitista sobre o “povo” que coitado se deixa guiar como os cegos conduzidos pelos loucos naquele célebre quadro de Bruegel o velho.

A Constituição portuguesa está cheia destes dislates. Por exemplo, negou-se o voto unipessoal (como existe em quase todo o lado) por um voto em partidos com o c “receio” do povo ceder às vozes das sereias e “votar mal”

Vai daí, caiu-se no poder dos aparelhos partidários que obviamente escolhem a seu bel prazer os futuros deputados, tornando-os eventualmente dependentes da máquina do partido. Os eleitores, nas eleições parlamentares e municipais, acabam por votar numa ranchada de criaturas, muitas das quais desconhecidas, tendo ainda por cima que correr o risco dessas mesmas criaturas poderem ser substituídas por outras ainda menos conhecidas. Refiro-me, claro está aos grandes círculos (Lisboa, Porto, Braga, Coimbra, Setúbal, Aveiro) que sozinhos elegem cerca de dois terços dos deputados. Como muitos dos eleitos irão ocupar cargos governamentais, a distância entre a vontade do eleitor e a realidade parlamentar torna-se ainda maior. Três quartos dos eleitos estão no plenário com a simples função de levantar e baixar o dito cujo nas votações. É verdade que podem ter um papel mais relevante nas comissões mas mesmo aí a sua função pode ser obliterada.

Há, em Portugal, este estranho hábito de transferir dos cidadãos para um corpo alheio todas as decisões importantes sob a falácia de que, a devido tempo, os eleitores confiaram o poder a um pequeno grupo de pessoas. Só que, se o cidadão não concordar com o rumo que as coias tomam terá de esperar por novas eleições. E, sobretudo, não pode dirigir-se ao seu eleito e pedir-lhe contas.

É curioso como todos os maus hábitos de sonegar às pessoas alguns direitos persistem. Quando a República se implantou, a primeira decisão que foi tomada no que toca a eleições foi reduzir o corpo eleitoral a cerca de um terço. A ideia era evitar que os monárquicos, fortes fora das duas ou três cidades mais importantes, arreganhassem os populares e os convencessem a votar contra a nova ordem.

O dr. Salazar, criou uma série de barreiras à inscriçãoo de eleitores, ao mesmo tempo que, ferindo a República num dos seus pontos mais frágeis (o voto feminino proibido) estendeu a certas mulheres o direito de voto e inclusive elegeu deputadas!

Com a 3ª República o voto tornou-se universal, é verdade, mas o monopólio partidário na constituição de listas acaba por perverter o sistema. É assim que pequeníssimas formações, desde que lisboetas, conseguem eleger um deputado ou alguns, sem que a sua implantação no país seja de facto real. De certa maneira, ainda bem que fintaram o sistema mas é um mau sinal para a democracia e sobretudo para o país real.

Amanhã, se as previsões mais negras sobre a abstenção se concretizarem poderemos assistir a um resultado falso mas “democrático” Dez ou quinze por cento dos eleitores poderão decidir quem vai presidir ao pais, impor uma 2ª volta. Tudo porque o vírus anda por aí à solta, porque a versão inglesa dele é muito mais contagiosa e, sobretudo, muito mais mortífera.

Todos os argumentos brandidos sobre a inevitabilidade das eleições chocam de frente com este facto alarmante: o país está sob uma ameaça evidente, morre-se cada vez mais, as infecções atingem números impensáveis pelo que é preciso alguma coragem e muita despreocupação para arriscar entrar numa escola para votar. E com o mau tempo a não permitir que se aguarde pacientemente, cá fora, a vez para entrar...

Mais uma vez nada se previu quando já era visível a ameaça da 2ª e da 3ª vagas.

Agora, que o mal está feito, resta-nos desejar que as previsões sobre a abstenção estejam erradas. Já imaginaram o que seria por exemplo um candidato creditado com uma franca maioria absoluta à primeira volta ser obrigado a uma segunda para os próximos dias altura em que, tudo o indica, as coisas estarão ainda bem piores?

Até eu, que não votarei em Rebelo de Sousa, me sinto perplexo e enganado. E se for a criatura do Chega a ficar em 2º lugar?

Isso ocorreu em França numa memorável eleição perdida por Lionel Jospin (2002) que ficou em terceiro lugar. A eleição disputou-se entre Jacques Chirac (Direita) e Jean Marie Le Pen, extrema Direita. A Esquerda foi obrigada a escolher e a apoiar Chirac.

Aliás o mesmo ocorreu em Portugal nas presidenciais que opuseram Soares a Freitas do Amaral. Nessa altura, o dr. Álvaro Cunhal fez das tripas coração e apelou os comunistas a engolir não um sapo mas um autêntico elefante e Soares ganhou à justa.

Seria espantoso se a história se repetisse e, como Marx avisava, tivéssemos de participar na farsa de uma 2ª volta para barrar o caminho a um aventureiro.

* na vinheta: Bruegel  o Velho os loucos guando os cegos