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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

estes dias que passam 521

d'oliveira, 24.01.21

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Os dias da peste 161

Bernardo Trindade, até breve, muito breve, se possível

mcr, 24 de Janeiro

 

Comecemos pelo óbvio, ou quase: lá fui votar, desta feita numa escola cujo ginásio está a pouco mais de 50 metros da porta do prédio onde vivo. Só que... entrava pelo outro lado da escola e, portanto a volta que tive de dar ainda foi maior do que que dava numa outra escola também aqui nas proximidades!

Depois, verifiquei que os eleitores já não votam pelo antigo número do cartão de eleitor pelo que caí imediatamente antes das Marias mas já com elas. Escusado será dizer que a bicha para mesa 18 era a maior e, pareceu-me a mais lenta.

Votei porque, apesar do tempo de espera, o dia estava ensolarado e a mesmo ao ar livre podia-se estar: nem frio nem chuva. Tentei ir cedo, pelas dez mas mesmo assim não me livrei de uma larga meia hora até votar.

Pronto, já está, ainda não foi desta que falhei uma votação e, de certo modo, fiquei com a impressão que havia bastante gente. Com sorte a abstenção será menor do que eu pressagiava.

 

Cumprido o dever cívico, cheguei-me a casa para ler tranquilamente o jornal e bebericar um par de cafés nepresso que é ao que estou reduzido.

E dou com a notícia em quatro longas páginas: A livraria Campos Trindade, alfarrabista de excelência vai fechar! O preço do arrendamento torna incomportável a manutenção ali na rua do Alecrim em Lisboa!

Eu sou cliente do Bernardo desde que descobri a livraria. Posso dizer que lhe comprei à vontade mais de duas centenas de livros, fora uma outra e maior quantidade de revistas.

E só comprei o número de publicações, porque vivendo no Porto e só indo a Lisboa uma vez por mês, terei perdido um ror de oportunidades. O Bernardo não tinha site, pelos vistos não está disposto a ter esse trabalho pelo que era mesmo necessário ir lá. Recordo que, normalmente chegava a Lisboa à quarta feira pelas 11.30 , estacionava o carro no Camões e ala que se faz tarde dava uma corrida para chegar antes do fecho do almoço. No sábado seguinte, pela manhã, “fazia” a feira dos alfarrabistas e voltava lá com mais tempo. Às vezes fazia tantas compras que precisava de ir buscar o carro, estaciona-lo à porta para encher a mala.

Ainda por cima, os preços praticados pelo Bernardo eram óptimos para o comprador, E ele tinha sempre a amabilidade de me fazer um desconto.

Vezes houve que, depois de encher um saco de supermercado de livros, resolvia não comprar mais, na esperança de numa outra volta ainda encontrar títulos que tinham chamado a a atenção. Erro colossal porque compradores tão atentos e mais próximos, não deixavam escapar a hipótese de enriquecer as suas bibliotecas, como ocorreu quando houve uma venda de livros sobre o Brasil. Depois de atafulhar o saco, entendi que havia ali livros para muito tempo de estante. De todo o modo, logo que cheguei ao Porto, telefonei e da lista dos que me lembrava ainda consegui mais alguns que ficaram a aguardar a próxima visita mensal. Mas tenho a absoluta e dolorosa certeza que perdi bastantes, entre eles umas curiosas edições sob o título geral de “Brasil Holandês” que em sete caixas agrupavam várias obras fac-similadas de textos holandeses do tempo da ocupação deste fo norte do Brasil. Com uma iconografia riquíssima ainda por cima. Trouxe um mas falhei (se falhei) os restantes que porventura lá estariam.

O Bernardo promete continuar mas, para já, e nesta incerteza, nada mais adianta.

Vive-se um mau momento para as livrarias e, em especial, para os alfarrabistas. Em pouquíssimo tempo desapareceram vários, outros tiveram de emigrar para longe do Bairro Alto onde se concentravam e onde era fácil, para os clientes, procurá-los.

A explosão do turismo, a procura de espaços para hostels, hotéis e arrendamentos de curta duração ainda está a produzir efeito mesmo se tudo parou. Alguns senhorios perderam a cabeça e ainda não perceberam que, se expulsarem da zona os pequenos comércios, a desertificam e a tornam cada vez menos atractiva.

Nos últimos cinco anos desapareceram pelo menos seis alfarrabistas que eu conhecia. Tudo num raio de um par de centenas de metros. Em vez deles, coisas incaracterísticas de fraca qualidade e pior mau gosto.

Estamos, com o atraso do costume, a entrar na mesma espiral que assolou os 5º e 6º bairros de Paris onde contabilizei mais de um quarteirão de livrarias desaparecidas que frequentava.

Como se vê, cá só se imitam os maus exemplos.

* na vinheta: homenagem a uma das livrarias parisienses que durante anos frequentei e onde gastava o pouco dinheiro que tinha