estes dias que passam 531

estes dias que passam 167
como o cão andaluz
mcr 3 de Fevereiro
isto hoje vi curto grosso, a despachar. Já contei que fiz uma operação às cataratas, no caso, só uma, no olho esquerdo. Correu tudo bem mas...
Mas descobriu-se agora que eu também tenho lesões em ambos os olhos, uma doença degenerativa que só se travará com umas injecções intraoculares, de quatro em quatro semanas sabe-se lá por quanto tempo. A professora que me atendeu disse-me com uma brutalidade que lhe agradeço que tem um doente desde 2006!
Portanto, “o melhor, afirmou, é começar quanto antes com o tratamento. Se quiser é já hoje”. Aturdido, assustado mas intrépido, respondi-lhe: “vamos a isso”. O medo dá-me forças que eu ignoro. Todavia, descobriu-se que, como eu tinha ido para o hospital a guiar, não convinha sobretudo porque as injecções não deixam nenhum olho de fora. Portanto, para daqui a oito dias, pels 14.45 lá estarei. Com medo claro, mas com mais vontade inda de continuar a ler, mesmo com conta e medida. E a jogar bridge no computador. E a escrever estas balivérnias (ia a dizer que hoje a coisa é mais lamúria que o costume mas o caso não é para menos). E a chatear esta gente que nos desgoverna, estes intelectuais que escrevem para o umbigo, estes críticos que são sobretudo crípticos e tutti quanti.
Ia-me esquecendo dos cineastas indígenas que todos os anos dão ao mundo um par de obras primas que ninguém vê e são sempre rotundos fracassos de bilheteira. A culpa é, claro, do público boçal, da falta de visão de quem devia ajudar o cinema, o costume.
Co teatro já nem falo uma vez que vi uma audaciosa encenação do Frei Luís de Sousa em que a pobre da Maria aparecia semi-nua e apalpada pelo criado enquanto o romeiro rosnava que não era ninguém.
Tirando dois ou três casos sérios e honrados, o teatro que se faz é inexistente. Não se produzem as grandes peças do repertório porque exigem muitos actores e não há orçamento que aguente. Quando por acaso se afirma que se está a traxer um clássico à cena, o resultado é apenas uma vaga interpretação pessoal e pindérica e ignara do que o autor teria pensado e nunca o que realmente escreveu.
Há mais actores, encenadores, técnicos do que espectadores. Assim a miserável subvenção estatal não chega tanto mais que o bolo tem de ser dividido por muitos. Estes muitos, se preteridos, armam um escândalo dos diabos, que a imprensa faz ecoar. Convido os leitores que tiverem pachorra a inventariar o número de companhias de teatro que se constituem. Depois, veja-se qual o orçamento para o sector e digam-me da vossa justiça.
Mas finalmente, o que hoje me tira do sério são os miseráveis olhos cansados e tristes que envelheceram num dia dez anos. Depressa vacinem-me que estou já no grupo prioritário. E com jeito também sou hipertenso, obeso e diabético. E as vacinas estragam-se se não forem aplicadas.
(ia acabar ali em cima mas tive a feliz noticia da demissão do senhor Ramos que, na minha modesta opinião mais parecia um pavão arrogante . Bon debarras, como dizem os franceses.
O dr. Costa diz que os que furaram as regras da vacinação devem ser punidos. Em boa hora: comece pelo cavalheiro de Reguengos, dê um salto a Setúbal e continue por Portimão onde uma senhora da Comissão Nacional do PS. Logo veremos se falou a sério...)
*ma vinheta : uma imagem de “um cão andaluz” do genial Luis Buñuel e de Salvador Dali
