estes dias que passam 533

Os dias da peste 170
Os amigos do Donald
mcr, 6 de Fevereiro
Há já muitos anos, estava eu a dar os primeiros passos neste blog, uma amiga minha veio do México com notícias surpreendentes sobre um líder político de lá que prometia grandes coisas, entre elas a renovação da Esquerda. Eu, macaco velho de rabo pelado e caloso, sempre desconfiei deste tipo de anúncios. Que o PRI (Partido Revolucionário Institucional) mais parecia um cadáver insepulto era mais do que claro. Que urgia uma mudança nas instituições anquilosadas do México onde uma elite instalada governava a seu bel prazer, era evidente.
Todavia, no senhor Lopez Obrador, a mais recente estrela do firmamento mexicamo, eu não via (e depois de me ter informado, não vi) esse sinal de esperança que a minha amiga anunciava.
Os tempos passaram, anos e muitos anos, e Lopez Obrador chegou à Presidência do México. Mo exacyo momento em que o vizinho do Norte era (des)governado pelo extraordinário e bizarro fenómeno, digno de Barnum, Donald Trump.
“Vai haver bernarda”, previ ingenuamente. “Estes são como o cão e o gato”
Provavelmente, já na altura via mal porque à medida que Trump fanfarronava com o muro, com a ameaça de expulsões maciças, parecia ver-se da parte de Obrador um assentimento mudo, uma disfarçada simpatia que alguns, nanja eu, não esperavam.
Trump foi defenestrado mais pelas burrices próprias do que pelos resultados eleitorais significativos. Mal ou bem, obtivera uma votação record mesmo se Biden o tivesse largamente ultrapassado.
Percebe-se que clamasse contra uma derrota inesperada, fruto muito de um voto que os pais (ou padrastos) da pátria teimam em não consignar na Constituição, o voto postal. Se, porém, tivesse agido com o mínimo de civilidade ( já não se pede elegância coisa provavelmente estranha ao universo esdrúxulo de Trump) poderia ter saído da Casa Branca pela porta grande. Haveria, certamente quem lhe louvasse as virtudes republicanas, mesmo se quatro anos de estridência alucinada e de patacoadas grossas e grosseiras já lhe tivessem minado a estatura presidencial.
Saiu, no entanto, a uivar vingança, a jurar traições e trapaças e, parece, ainda anda a recolher dinheiro para continuar a campanha jurídica que já perdeu e de que forma.
As suas declarações, tecidas de mentiras, de ameaças, de grosserias levaram as redes sociais onde destilava o seu veneno, a cortarem-lhe o acesso depois de múltiplos avisos.
Ora, pelos vistos, agora, Obrador e Bolsonaro (uma tradução, para o português, caricata e em calão de Trump) resolveram entender-se para lançar uma campanha internacional de defesa de Trump, um desgraçadinho vítima do Facebook & similares.
Eu não me facebooko nem, aliás, frequento qualquer rede social exceptuada este do blog. Estou-me marimbando para a sorte das ditas redes e nem sequer me dou ao trabalho de tentar perceber se são úteis ou inúteis. Aliás, nem sequer sei como funcionam. Por junto, sei que se alguém gostr de alguma declaração trata de carregar no botão “like” (se é que sequer percebi isso). Convenhamos que é pouco e não anima nenhum diálogo mas isso é com quem anda por essas redes e se contenta com tal.
Todavia, ao que sei, Trump foi varrido desses territórios por usar sistematicamente de mentiras e de insultos. Parece que, inclusivamente, foi alvo de repetidos avisos aos quais não ligou. Claro que foi corrido quando já estava em fim de mandato e com prognostico eleitoral desfavorável. Ao leão ferido até o burro dá coices...
Bolsonaro e Obrador já tem nos respectivos países problemas mais que suficientes. Em ambos os casos, não se vê que, até à data, tenham tido grande sucesso, bem pelo contrário. Tenho mesmo a ideia que no México mandam mais os gangs da droga que o Presidente. De todo o modo, este está constitucional proibido de se recandidatar e é duvidoso que consiga impor um sucessor pela célebre política do “dedazo”, isto é de o apontar. Isso teve êxito durante décadas de PRI mas parece ter caído em desuso.
Quanto a Bolsonaro, não há expressão que o descreva pelo menos sem cair num vicentino soez e ordinário que, bem que custa, não pratico nem sei usar convenientemente.
Agora, juntarem-se os dois à esquina a tocar concertina e dançar o solidó , e que me parece bizarro. Les beaux esprits se rencontrent dizem os francius “Et les mauvais aussi” reponto eu num gaulês impecável e digno de melhor sorte e melhores personagens.
As leitoras apreciarão o facto (facto e não fato!) de hoje não ter atacado o Governo (coisa que venho fazendo desde os tempos de Sócrates (o José!...) e Passos Coelho). Mais, vou publicamente louvar uma declaração da dr.ª Temido que, e muito bem, disse perante os deputados europeus que “ na questão das vacinas, o desafio já não é a eficácia mas a capacidade de as produzir “. Como os meus olhos estão sob vigilância pouco mais li da sua intervenção. Todavia registo que, agora, a Ministra valoriza e agradece os apoios que tem recebido e os que ainda vai receber . Antes tarde do que nunca.
Lembraria, apesar de tudo, que o Centro Europeu de Controlo de Doenças, considera Portugal “o pior no mapa europeu da covid 19” (Público, pag 3)-
E, já agora, saiu uma notícia de que Portugal regrediu no capítulo das liberdades e direitos democráticos e que é considerado uma “democracia com falhas”. Parece que alguns indicadores nos são (enquanto país) desfavoráveis. Aceito que a passagem dos debates semanais para quinzenais no Parlamento, e o caso da substituição do Presidente do Tribunal de Contas mereçam censura. Já no que respeita ao confinamento e às restrições temporárias que comporta, gostaria de ver como é que se evitam mais mortes do que as que desgraçadamente já temos (+-300/dia). E a verdade é que, desde que começou este novo período baixou significativamente o número de infecções )Ainda não sei os números de hoje). Não sei quem são os avaliadores da democracia que nos baixaram de lugar mas tenho uma vaga ideia de que talvez não saibam exactamente o valor da liberdade. É que eu passei 33 anos (trinta e três, a idade de Cristo) sob a pata de um governo não democrático. E como sou (ou era) um mau carácter, levei uns largos pares de safanões dados a tempo e a destempo. Claro que me custa não poder ir beber a bica à esplanada, conversar com amigos. E detesto andar com açaime. Ou com mordaça se preferirem! Máscaras nem pelo carnaval, mesmo o de Veneza.
Cuidem-se, aguentem, leiam, não se resignem nem chateiem demasiadamente os familiares mais prócimos que, como vós estão metido nesta fossa até ao pescoço.
Na vinheta: o “muro” na fronteira americano-mexicana.
PS varios/as leitores/as e amigos mandaram-me mails ou telefonaram inquietos com os meus olhos. Comovida e ternamente agradço a simpatia e o desvelo. eu não me rendo facilmente. Tenho medo mas a alternativa às injecções nos olhos (brrr, arre!) é ir cegando. Portanto lá estari intrépido e com um aperto no coração, para a primeira dose. Se fosse americano e crente diria God bless you all. Como não sou digo-o à mesma e com o mesmissimo sentimento de gratidão.