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Incursões

Instância de Retemperação.

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estes dias que passam 537

d'oliveira, 08.02.21

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Os dias da peste 173

Como se fora um irmão...

mcr, 8 de Fevereiro

Hoje, pelas oito da manhã, morreu o Manuel Sousa Pereira Escultor, professor, activista cultural, leitor de excelência, amicus certo in re incerta, homem de múltiplas actividades, foi vitimado pelo covid. O Pedro, um filho de que ele se orgulhava sobremaneira (aliás repartia esse orgulho pela Leonor a filha) quis telefonar-me, alegando recear que “eu viesse a saber pela internet”. Enfim ternura por um velho amigo do pai. Aguentei dois minutos até desatar a chorar. Em boa verdade, eu deveria ter conhecido o MSP em Coimbra mo longínquo ano de 1961 por ocasião do proibidíssimo “1º Encontro Nacional de Estudantes”.

O Manuel fazia parte de um aguerrido grupo de estudantes do Porto cujo autocarro foi impedido de circular na zona da Mealhada. O autocarro parou, que remédio mas aquela malta entendeu que havia de chegar a Coimbra pelo que botaram pés ao caminho. Chegaram tarde, mas chegaram entre efe-erre-ás da multidão estudantil concentrada na Praça da República. Já não sei como regressaram-

Porém mesmo que possivelmente nos tenhamos cruzado, só nos encontramos de facto en finais de 74, princípios de 75. E ficamos amigos quase instantaneamente. Se não foi no primeiro, foi no segundo dia que ele mais alguns outros amigos, apareceram na “casa azul” o meu primeiro apartamento aqui a cem metros de distância. Claro que, já todos íamos na quinta ou sexta bejeca e o Manuel já tinha aviado dois pacotes de leite (um remédio contra uma imaginária úlcera que ele tratava com desvelos de mãe cachimbando doses inauditas de tabaco holandês), quando se atreveu a dizer que não gostava de jazz.

Lá tive que, para gáudio dos restantes, lhe dar um curso breve começando obviamente por New Orleans. E tudo explicadinho, desde as letras algumas em cajun até à música de funerais. Quando lhe apresentei Jerry “rol” Morton ele já estava rendido, em parte pela anedota da alcunha em parte por perceber (o MSP tinha uma curiosidade elefântica e gostava de perguntar). Com mais um disco de Ellington já dançava. E que excelente dançarino era ele...

Dois dias depois apareceu-me com a famosa “black box” da Verve, uma antologia do melhor que havia de jazz num conjunto de meia dúzia ou mais de discos LP . Alguém lhe oferecera aquilo mas ele nunca sequer ouvira e entendia que era eu quem devia estrear a audição da caixa que, aliás me oferecida. Recusei a oferta, passei tudo a cassetes num exercício de pirataria de que nunca me arrependi. Hoje tenho tudo aquilo em cd mas comovo-me cada vez que oiço, recordando o gesto desse meu recentíssimo amigo.

A partir daí foi sempre a abrir. Deu-me a enorme honra de ser eu a escrever para o seu primeiro catálogo de exposição individual e até aí exagerou. Enviei-lhe o texto para Vila do Conde onde dava aulas e antecedia-o com uma breve carta. Mal eu adivinhava que nem esta escapava. Em vez de uma apresentação levou com duas “porque”, explicou-me “ gostei dos dois textos!”

O Manuel desenhou-me todas as estantes desta casa, pendurou quadros, fez de marceneiro inúmeras vezes e bebeu-me hectolitros de leite e de café. Tinha um jeito de mãos espantoso a que aliava um bom gosto, um conhecimento e uma cultura absolutamente invejáveis. Ao longo de uma vida que já entrou nos oitenta (fiz 79 há quase três meses...) não serão mais de uma dúzia os artistas que conheci com uma preparação igual ou superior à dele.

É que ele saía da caixa, metia-se em tudo e, em tudo, saía-se bem, com graça, com humor e com uma inigualável ternura. A vinheta aí em cima ilustra uma das suas obras, quiçá a mais importante. Trata-se de um grupo escultórico, encomenda da Câmara de Vila do Conde e inaugurado em 1 de Maio de 2002.

O Manuel está vestido a rigor (a única vez que o vi de gravata!). O cavalheiro grande é o conselheiro do STJ Manuel Simas Santos, amigo do peito e igualmente amigo absoluto do MSP. Eu, uma vez não são vezes, vim sem a gravatinha.

Vi crescer este grupo desde o primeiro barro, ao gesso e por aí fora. Discutimos cada pormenor, melhor eu perguntava e ele explicava. E o tema, trabalhadores da construção civil mostra bem de que farinha era feito o autor. Um profundo respeito e uma total solidariedade com os pequenos, os de baixo, os que são personagens mudas da história. Leitores, desculpem este texto às três pancadas. É que hoje não só levei a paulada da morte do Manuel mas também tenho os olhos como tamancos pois estive a fazer exames desde as três da tarde e já são oito e acabei de chegar à casa cansado, dorido, e a ver as coisas um tanto ou quanto distorcidas. Mas tinha que começar a fazer este luto, o luto por um gajo que reclamava ser meu herdeiro da banda desenhada X. Afinal deixou-me para aqui, só desamparado e triste, muito triste.

A vida prega-nos cada uma! 

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