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Incursões

Instância de Retemperação.

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estes dias que passam 538

d'oliveira, 09.02.21

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os dias da peste

uma carta perdida 

mcr, 9 de Fevereiro

 

como os leitores sabem, os funerais em Nova Orleães tem dois ritmos: para o cemitério a música é lenta, grave, triste. Uma deitado o corpo à terra eenterrado, o regresso é feito num ritmo vivo, alegre, pois o morto está já junto de Deus e livre de incómodos.

Assim se quer este texto que não é mais do que uma carya enviada ao Manel Sousa Pereira em 1988 e que, ao que sei, ele nunca recebeu, Procurei-a a pedido dele, anos a fio, no meio da confusão dos meus arquibvos em papel e nos computadores. Nisso o MSP era bem melhor durante anos imprimiu os meu folhetins com uma paciência de santo e a generosidade de um amigo. 

Vai a carta agora pata onde quer que seja e para quem quer que seja: antigas mulheres e numerosíssimas namoradas, amigos, conhecido e leitores pacientes. Em ritmo vivo e alegre, se posível. E assim vou fazenfo o luto

 

 

Exmo. Senhor

Escultor MSP

a/c Joãozinho Simas

 

 

Já não sei a que Santo me votar, a que bruxa acudir, que remédio (droga, elixir, drageia, xarope, clister, vasectomia...) requerer ao meu médico assistente para quebrar o enguiço que entre V e este seu antigo amigo se ergueu.

 

Forte coisa há-de ter sido para V me ter cortado as voltas, a palavra e as visitas. Bem sei que a pobre mas honrada casa onde descanso o futuro cadáver ao fim de um dia de estrénua labuta intelectual é pequena e situada em local pouco recomendável. Sei ainda que, as mais das vezes, tudo nela falta para receber um hóspede de gabarito: é grande a crise de bailarinas do ventre (todas, ou quase, reconvertidas em agentes do Ayatolah Komeini), as grandes cortesãs dedicam-se apenas aos telefonemas eróticos ou reciclaram-se em escort-girls e, no que toca a jovens púberes de frescos peitos, é o que se sabe: Népia!!!

 

Todavia, tempo houve em que, apesar de tudo, V. era assídua visita da minha garçonnière onde sempre foi servido de leite Agros em quantidade, música de jazz sem restrições e o eterno Frank Sinatra a trinar "strangers in the night..." . Dizem-me mesmo, e disso tenho vaga recordação, que, a horas mortas, estando eu recolhido no meu catre, V entretanto, insone e resoluto, se dedicava a desviar, no meu salon, jovens pecadoras, sabedor que é da máxima amigo não empata amigo e que, por isso, eu jamais me levantaria para lhe perturbar os folguedos eróticos que V, com surpreendente audácia e evangélico silêncio, levava a cabo em minha casa.

 

Parece que tudo isso o vento levou para citar um filme que ambos, há muitos, muitos anos, vimos. De V nem novas nem mandados! Black-out total! Perdido na imensidão do deserto, na frialdade dos gelos polares, na selva espessa e amazónica ou, mais prosaicamente, no labirinto inextricável de Vila do Conde, V terá optado pela velha sentença pas de nouvelles, bonnes nouvelles.

 

Acontece contudo, il.mo e dig.mo escultor, que não estamos nas Franças e Araganças mas apenas, ahimé!, em Portugal, neste rectângulo de mar e vento abandonado pelos deuses imortais e pelos emigrantes, que se recicla em estância de férias de pequenos burgueses da CEE ou em mercado abastecedor de espanhóis fronteiriços.

 

Num país destes cai mal o silêncio e a ausência. As gentes sentem-se órfãs e desprotegidas, suspeitam abandonos e traições, criam rugas e remorsos, desconfiam que caíram em desgraça, coçam as partes pudendas temendo herpes, hemorroidal, impigens, porventura lepra ou tinha. Isto quando as não assola o receio do mau hálito...será? Não será? Cruel suspeita, dúvida terrível, acabrunhante incerteza!

 

Poder-se-ia também temer algum gesto, palavra, acção ou omissão que Vos tenha mortalmente ofendido. Ele há agravos infamíssimos, injúrias imperdoáveis, avanias celeradas, ultrajes inapagáveis que nem um canalha hereditário por parte do pai e da mãe pode suportar sem um gesto de desafronta, sem uma bengalada, um tiro, uma maldição, enfim uma resposta. Nada me pesa, porém, na consciência a não ser uma breve recriminação por não ser alvo de visita Vossa. Mas mesmo essa pundonorosa admoestação foi polvilhada com amigável bonomia. Mais: continuo a defender com unhas e dentes o Fernando Pessoa que cá tenho para oferta e as Vossas obras continuam a ocupar os locais de honra de minha casa. Tudo como dantes quartel em Abrantes.

 

Namoradas também não Vos roubei nenhuma que me lembre. E se, porventura, isso tivesse sucedido não seria tal facto causa de grande guerra: é que, desde o rapto das Sabinas, nós sabemos que as mulheres não representam, para um cavalheiro que se preze, objecto de propriedade imutável e perpétua mas, tão somente, algo de efémero que nos vai acontecendo: uma figura na paisagem, um arco-íris, um breve oásis entre preocupações seriíssimas tais como os resultados do futebol ou a resolução de um problema de palavras cruzadas. Esses débeis seres que só têm alma desde o concílio de Trento não poderiam nunca semear a zizania entre nós. Há que chegue, benza-as Deus Nosso Senhor, e de todos os tamanhos e feitios!

 

Subsiste, apenas, como razão insuficiente e mesquinha de Vosso afastamento algum vitória mais cruel ao "crapaud" ou nas damas chinesas. Disso me penitencio rasgando fervorosamente quatro bons baralhos da afamada litografia Maia. Mais não posso fazer: o azougue, a rapidez, a inteligência, o golpe de vista (e o golpe de asa...),a técnica subtil e empolgante e os favores da Fortuna são consubstanciais à minha personalidade, à minha Weltanschaung como diria aquele reboludo intelectual que V. tanto preza. De resto que mal há em ser vencido em jogos de tavolagem? Acaso o não são também os Brandões (macho, fêmea e cria, quando tiver idade...) , familiares, os Simas bem como os restantes frequentadores da mansão forrada a cimento?

 

Abespinham-se eles por isso, ou, pelo contrário, repegam nas cartas, baralham e voltam a dar, teimosa mas enganadoramente convictos de que alguma vez será ? E quando, por mero acaso, ganham, que festa!

Que alarido! Que empáfia! Que sorrisos de orelha a orelha! Que baba de puro gozo!

 

Eis-me, pois, perdido no mar proceloso da ignorância sobre Vossas motivações, agarrado aos destroços mesquinhos do batel naufragadíssimo, salgado como um bacalhau norueguês, perdida a esperança de ver terras de Espanha areias de Portugal, rodeado de ignominiosos tubarões e evanescentes alforrecas que só esperam o último desfalecimento para me meterem o dente na carne martirizada. É um novo capítulo da história trágico-marítima que ora começa por obra e graça do Vosso desprezo e desatenção.

 

Comino-Vos, portanto, em nome dos mais sagrados princípios (meios e fins...), de Santa Rita de Cássia padroeira, de Staline (que está vivo em nossos corações), de Marilyn Monroe (a quem, porco dio, nunca chegámos) e do spaghetti alla bolognese, a uma resposta, um sinal, um tiro, um foguete de lágrimas. Tudo me servirá -mesmo um bilhete usado do jardim zoológico de Lisboa ou uma pia imagem de santinho já desactivado pelas novas e perigosas doutrinas do concílio Vaticano II.

 

Que se passa? Que se não passa? Passas do Algarve? Pássaras novas na vila, a quem tendes de apaparicar para melhor depois as abaterdes no atelier ou em casa à luz tenória de um quarteirão de velas, passepartout de um engano das ledas e inseguras virgens (?) que, doidonas, ainda se maravilham com Vossas cãs e Vossos passes de chá-chá-chá (ou de chacha?...). Pôssa pró tango Sô Tôr, que eu não mereço tantas e tais afrontas!

mcr

(1988 ) 

* na vinheta: MSP e mcr  em Moledo na casa fraterna da Laurinda e do Manuel SimasSantos. data desconhecida ,as anterior a 2000 ("Tão amigos que nós éramos", titulo de um filme que adorávamos)