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Incursões

Instância de Retemperação.

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estes dias que passam 544

d'oliveira, 15.02.21

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Os dias da peste 179

“a salto” memórias de um “passador”

mcr, 15 de Fevereiro

 

Ontem, vi a parte final de um documentário sobre o que suponho ser a história da fuga “a salto” de um grupo de oficiais desertores da guerra colonial. Tenho pena de não ter visto a totalidade do filme pois acho que era por aí que poderíamos começar a estabelecer uma filmoteca da história mais recente de Portugal (desde as fugas, a emigração clandestina, os bairros portugueses em Paris, e por aí fora. Isto sem esquecer todos os documentários sobre a guerra, incluindo aí a extensa e ignorada filmografia oficial. Há nesse acervo, muita pepita aproveitável e, em boa verdade, a história faz-se de todos os documentos disponíveis e não apenas de algumas tentativas mais partidarizadas ou ingénuas.

Há dias falei de raspão nas minhas actividades transfronteiriças e, depois de ver o filme acima referido, entendi que valia a pena pegar nelas e encher um folhetim.

Foi o meu grande amigo Manuel Simas Santos (agora Juiz conselheiro jubilado do STJ) quem me meteu nesses trabalhos. À época, inícios de 70, o Manuel começava a sua carreira de magistrado do MP em Melgaço. Começava também, e imparavelmente, a namorar uma moça da terra que era estudante e que viria a tornar-se professora universitária na área do Desporto. Ela, natural da terra ter-lhe-á contado algumas das proezas do pai,  pessoa notável com um passado aventuroso.

De facto o senhor João alves que conheci e muito apreciei, emigrara muito jovem para as Astúrias onde trabalhara nas minas. A guerra civil sobreveio e foi incorporado à força na Brigada Máximo Gorki (forças republicanas, está bem de dizer) com o cargo de cozinheiro. João Alves era, além de uma inteligência natural duplicada de esperteza minhota e ancestral, um bom coração e por isso mesmo teve oportunidade de, no meio da carnificina, salvar a vida a uns pobres diabos apanhados como ele como carne para canhão. Só que carne de Direita, franquista. Em boa hora o fez porquanto, derrotada a brigada, feitos prisioneiros os elementos que não morreram, foi mandado para um campo de prisioneiros onde, milagre de S Bentinho da Porta Aberta que é um santo muito milagreiro!, foi reconhecido por um dos ajudados. Lá o mandaram embora para Portugal. Uma vez instalado no torrão natal, andou durante anos numa dupla vida. Por um lado fazia um honroso e lucrativo contrabando (profissão assaz fronteiriça) e por outro ajudava fugitivos republicanos que tentavam escapar da prisão a céu aberto que era a Espanha franquista.

Quando o conheci, ele explicou-me vários truques de sobrevivência guerreira na Espanha enfrentada. Um deles era instalar a cozinha de campanha numa igreja pois, argumentava “os nacionalistas não bombardeavam igrejas!”. Nessa tarefa de dar de comer à tropa republicana tinha de encontrar madeira para o fogão. Também isso não foi problema para o portuguesinho valente: “Ia à procura dos santos “reformados” e arrumados na sacristia e zás! Havia madeira para várias refeições. Nunca queimei santos em actividade (leia-se na Igreja propriamente dita)” Um carácter! E uma catástrofe para o património religioso espanhol! Um homem de bem e um grande contador de histórias.

A Cândida terá aprendido com o pai, ou só por ela, não sei, os caminhos da fronteira. Ensiná-los ao namorado foi uma fervurinha. Este, por sua vez passou-me a informação bem como ao Zé Teixeira Gomes (hoje professor emérito da Faculdade de Medicina do Porto).

Lembro-me que ainda tentámos explorar outros caminhos alternativos da raia e que, uma vez, já dentro de Espanha demos com uma patrulha da Guarda civil “caminera”. Sem hipótese de fuga, eu, o condutor do carro, decidi parar e dirigir-me aos guardas afirmando andar à procura de uns arqueólogos (aliás sabia que a uns bons quilómetros dali havia umas escavações). Os guardas super prestáveis deram-me todas as indicações e até me disseram que o melhor era voltar para trás e tentar a fronteira de S Gregório que seria melhoe e mais fácil caminho. O que fizemos, obviamente, aliviados mas orgulhosos daquela façanha de invasão clandestina de um território estrangeiro.

 

Instruído pela Cândida, o Manuel, lá me mostrou uma ribeirinha (rio Trancoso) que fazia a fronteira entre a pátria imortal e a vizinha Espanha. Andavam-se cem metros ribanceira acima e havia um café bar . A ideia seria mostrar a ribeira ao candidato à fuga, e ir com o carro passar a fronteira legalmente em S Gregório, apanhar o fugitivo a salvo no café e levá-lo até à estação de caminho de ferro de Ourense para ele poder seguir viajem rumo à Franças e Araganças.

Logo que aprendi estes elementos de passagem, autonomizei-me. De facto, isto de ser passador já é um risco enorme para um, quanto mais para dois ou três. Assim só recorria ao Manuel, magistrado digno e respeitado, se algo de mais complicado o impusesse.

A montante, também tomei as minhas precauções. Para ser passador, mesmo gratuito e por política, é preciso freguesia, isto é candidatos à fuga para ambientes menos guerreiros e africanos. Na altura, preveni, quatro ou cinco pessoas da máxima confiança (entre eles o meu irmão) e era eu mesmo que  acolhia os candidatos à fuga e os escondia no Porto e, depois os transportava para a fronteira. Os meus cúmplices no Porto, aliás as minhas cúmplices, eram duas: a minha mulher na altura (Maria João Delgado) e a Teresa Feijó que tinha um apartamento minúsculo onde ainda não vivia e que serviu de esconderijo para vários fugitivos). 

Narrarei em folhetim próximo uma das aventuras mais estranhas com um “cliente” amigo desde Coimbra que, nem eu sei como, adivinhou ou suspeitou que eu o poderia ajudar na sua tentativa de turismo clandestino. Como já escrevi isso em livro, bastar-me-á copiar (fica para amanhã se não houver assunto mais palpitante).

O meu irmão também recorreu aos meus serviços. De facto, já ele era médico, foi incorporado, fez parte da instrucção em Mafra mas, como tinha fortes antecedentes (estivera preso e fora mesmo julgado), foi subitamente passado a soldado raso com ordem de marcha para as colónias. Claro que marchou direito ao mano mais velho, dormiu um ou dois dias em casa da Teresa, passou a fronteira mas escorregou e molhou um pé até quase ao joelho. Lá me esperou no café receando a todo o momento que alguém notasse os vestígios da sua notória inabilidade fluvial e depois levei-o a Vigo onde alguém, que nunca conheci, o faria passar a fronteira hispano-francesa. Lofo que chegou a Paris mandou-me uma carta onde descrevi uma miraculosa (e outra) fuga anunciando-me que era um emigrado político. A PIDE tomou nota desta carta que consta num dos meus processos sem haver qualquer menção à hipótese de eu o ter ajudado.

Nenhum, ou quase nenhum, dos meus transportados teve qualquer arrelia neste passeio por terras espanholas.

Digo quase, porquanto, um houve que só causou problemas mesmo se chegou a bom porto.

Esta criatura, negro e angolano, com um passado de vários anos no Tarrafal, residia em Lisboa onde era trabalhador nas obras do metro. Suspeitando que estava próxima outra prisão, pediu ajuda e fui eu quem o foi  buscar a Lisboa. Instalei-o na minha casa e começamos a planear a sua saída. Um preto no Alto Minho ou na Galiza naquele tempo era mais raro que os três reis magos juntos, por isso havia que tornar a coisa tão discreta quanto possível.

A primeira declaração dele apoquentou-me queria ir para Bilbau, onde (sic) alguém que trabalhava no “hospital central da Guipúscoa” o ajudaria. Expliquei-lhe que a Guipúscoa tinha como capital S Sebastian portanto algo estava errado. Acabou por entender que era para Bilbau (capital do País Basco) que teria de ir.

Entretanto a Maria João (Deus a abençoe e conserve por muitos e bons sempre gentil e bonita e inteligente) fervilhava de vontade de fazer uma "passagem". Era corajosa, guiava melhor do que eu e, que diabo, uma vez não são vezes!

Alistei-a como co-piloto. E partimos para o que eu já considerava uma rotina. A passagem foi pacífica mas à chegada à estação onde abandonaríamos o cavalheiro negro, a João condoeu-se do ar assustado dele. “E se o levássemos a Bilbau?”, sugeriu ela. O negro até deu saltos de entusiasmo. E eu, burro, burro burríssimo ajaezado à andaluza, cometi o primeiro erro: concordei.

E vá de atravessarmos meia Espanha, em dia de Santiago padroeiro, com um negro negríssimo no banco de trás. Chegámos a Bilbau demasiado tarde para podermos depositar o prófugo no hospital, até porque tínhamos (teria ele mas alegou a sua inabilidade na língua de Cervantes) de contactar o dr. Juan Diaz Guerrero (nome fictício). Mais uma vez, arrisquei dirigir-me a uma parelha de polícias perguntando por um hotel baratinho. Os agentes lá me indicaram uma zona (Siete cales? Siete ciudades?, já não me lembro) onde havia fartura de acomodações. Instalados no hotel lá fui fazer a chamada. Com o angolano a tiracolo lá consegui falar para o hospital. E 2ª surpresa: não havia nenhum médico chamado Juan Diaz Guerrero! Mas, rufem os tambores: havia um Juan Guerrero Diaz que só estarai no hospital no dia seguinte pela fresca manhã.

O ex presidiário tarrafalense achou que se enganara e eu, burro, burríssimo com cinco patas e só com um olho, concordei. Na aflição da prisão iminente, da fufa rápida qualquer um treslê.

No dia seguinte, levámo-lo ao hospital onde o largaríamos. Mas a João, uma espécie laica da Madre de Calcutá, rogou que esperássemos para saber se tudo correra bem. Este vosso imbecil criado, aceitou mais essa falha às mais elementares regras da clandestinidade.

E eis que o negro nos aparece, mais branco que o fantasma da ópera. O dito juan pata que o pôs não era o verdadeiro!

E agora? Que fazer, como diria o camarada Ulianov, esse mesmo que está empalhado na praça vermelha?

Do nosso eventual álibi fazia parte estarmos nesse mesmo dia em S Pedro de Muel onde uma amiga se casaria. Trazê-lo de volta para Portugal, nem pensar. Só havia uma hipótese: mandá-lo para a casa da Luisa Feijó e do Ocávio Ribeiro da Cunha que faziam férias na Galiza junto à praia da Lanzada (cerca de Sanxenxo). Metemos o malfadado num comboio, com um bilhete para os casal emigrado na Suíça e avançamos a mata cavalos para a fronteira de Vilar Formoso e para o casamento.

Dois dias depois, aparece a Luísa, aflita em nossa casa, Recebera o obscuro filho de África e verificara que ele não tinha passaporte. A única hipótese era o Octávio (emigrado político e admirável médico e amigo e velho companheiro de Caxias) ir a um determinado consulado português em Espanha e comprar a um venal funcionário um bom passaporte mais falso que judas. A coisa custaria a pequena fortuna de 15 contos de reis. Lá fui bater à porta do meu sogro, Jorge Delgado, um ex-preso político, engenheiro de sucesso e amigo ímpar, que prontamente adiantou o dinheiro logo que lhe contei a aventura extraordinária.

E o africano de má raça (já explico) lá foi para o seu destino europeu. Uma vez chegado ao raio que o deveria partir, pegou na caneta, escreveu-me uma carta infame, não só porque contava todo o sucedido mas sobretudo porque me acusava de o ter influenciado na escolha do hospital (que, de facto seria o de S Sebastian, como depois viemos a saber). A carta veio em mão, transportada por outra amiga nossa que vivera anos na Checoslováquia e fora casada com outro desertor e militante comunista. Está-se mesmo a ver o que sucederia se a polícia desconfiasse, como deveria, dela e a revistasse. Essa carta imunda e infame seria o meu passaporte a custo zero para mais uma estadia, provavelmente plurianual numa cadeia.

Este miserável regressou anos depois a... Portugal (!!!) e não a Angola entretanto independente. Soube, anos mais tarde, que era uma espécie de sem abrigo em Lisboa e que recusara participar numa reunião de ex-presos do Tarrafal porque, alegava, o queriam matar, razão aliás porque não regressara a Luanda!!! Também aí uma conspiração tremenda esperava por ele para lhe fazer não sei que barbaridades.

Aliás, ninguém, apoiava a teoria de ele ser perseguido em Lisboa na altura em que pedira ajuda. Até o davam como adaptado à vida portuguesa!  

Nunca mais passei alguém para além da estação de Ourense. E ainda hoje estou grato ao San Benitinho de Paredes (este na Galiza) que, como a cantiga diz, é muito milagreiro. Contem comigo para o confirmar. Se for preciso irei na procissão a segurar o andor que milagre maior do que este não há.

Amanhã há mais.

Aceitem um abraço deste passador reformado e vingativo que, pela primeira vez, dá à estampa a história do preto filho da puta (cujo nome, por piedade espúria e estúpida, não revelo).

Na vinheta: da esquerda para a direita e de cima para baixo_ Prof. Dr. José Teixeira Gomes; Conselheiro Manuel Simas Santas; Profª Drª Candida Alves Simas Santos e o escriba. Fotogramas do filme "Le Passeur" de Filipa César., ontem mencionado.

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