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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

estes dias que passam 546

d'oliveira, 17.02.21

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0s dias da peste, 181

Não há volta a dar-lhe...

mcr, 17 de Fevereiro

 

“ Um país embiocado”, diz o “Miro” (W, com exige que o chamem, Vladimiro como constava do BI , Wladimir , como conseguiu depois de uma luta bur(r)ocrática que demorou anos e consumiu fartos cabedais), um pais que se não habitua à discussão civilizada, à tolerância e que é pasto de minorias activistas, de talibans do politicamente correctíssimo!!!"

“Mirinho, seu doidão, estamos em Portugal, pá, a milhares de léguas da europa, ainda cheiramos a cueiros e a sacristia e a inquisição (a verdadeira e a que se nos meteu no corpo mal lavado)  ainda por cá anda!” reponta a Jujú Cachimbinha, de que falaremos um dia destes. A Jujú queixa-se de que não consegue explicar à neta mais nova, nascida na Bélgica, em Liége e regressada à madrasta-pátria há um par de anos para estudar coisas ligadas ao mar, este país com tanto sol, tanta luz, tanto sal e tanto sul e tantas vendas no olhar vesgo e matreiro. “Não há pachorra, Heinzie (este sou eu para um par de amigos, ou “Tio” para outro par), “esta gentinha não tem emenda!”

Tudo isto animou um bate boca internético à conta do Juiz Caupers e do Tenente coronel Marcelino da Mata .

Comecemos pelo Juiz.

Parece que há dez anos, este juiz que também é professor universitário, escreveu umas larachas sobre uma lei que permitia o casamento de homossexuais. Parece que o actual (indigitado) Presidente do Tribunal Constitucional entende (ou entendia) que o dito matrimónio e algumas das suas consequências contendem com a noção de casamento mais comum (entre pessoas de sexos diferentes com várias finalidades incluindo a reprodução da espécie). Entendeu e escreveu isso numa obscura publicação da faculdade de Direito de Lisboa. Há dez anos!

Durante esta longa década, ninguém atribuiu qualquer importância ao que o juiz agora classifica de “tolices”. Bastou a criatura aparecer votada para a Presidência do Constitucional para se ouvir um coro de acusações e protestos.

Se o juiz tivesse mais espinha dorsal, poderia assumir o que escrevera e reiterar o que então dizia sobre o “lobby gay”. Infelizmente, tenta, agora, com ou sem arrependimento, defender-se mal e frouxamente com a desculpa de “palavras tolas”.

Ao que sei, o juiz Caupers é um competente professor de Direito e um juiz sem mácula. As suas ideias sobre a sexualidade não o impediram de, até hoje, desempenhar o seu mester no TC. Conhecidos meus, mais ao par do que se passa no soturno mundo do Direito, afiançam-me que a criatura pensa pela própria cabeça. Até me dizem que é um próximo do PS o que em nada o eleva ou diminui.

O juiz Caupers poderia, por exemplo, acreditar em fadas, elfos, duendes, bruxos ou ogros. Viria daí mal ao mundo? Poderia acreditar na superioridade do homem negro, dado ser a África o berço presumível da nossa espécie. Poderia ser adventista do 7º dia, católico apostólico romano ou hinduísta e acreditar naquele gigantesco panteão.

Nada disto o impede de, no exercício do seu múnus, ser exemplar, justo e decente. De servir o Direito e de interpretar a Constituição mesmo esta que temos, mais comprida e muito mais chata do que a espada de Afonso Henriques.

Eu, um pouco (bastante) mais velho do que o juiz Caupers fui educado no respeito por Deus, pela Virgem, pelos santinhos, pela Pátria imortal dos egrégios avós, pelo dr. Salazar, pela ideia de que Portugal do Minho a Timor era eterno. Aos trancos e solavancos,soltando muito lastro, lá fui chegando ao que sou hoje e acreditando no pouco, pouquíssimo, em que acredito. Fora o padre confessor da minha muito longínqua mocidade a polícia do Estado Novo, nunca ninguém me açulou as matilhas das verdades oficiais, oficiosas, actuais ou politicamente correctas. E que açulasse que eu estou, sempre estive a marimbar-me para essa obscena gritaria (onde o berro faz as vezes de argumento). Foi tardiamente que conheci homossexuais. Foi tardiamente que verifiquei que os havia inteligentes e imbecis, assumidos e reservados, activistas ou não. Fui amigo de alguns. Detestei outros como detestei muito hetero cabrão.

Acaso o juiz na discussão de uma norma qualquer decidiu com base no sexo ou nas preferências sexuais de quem a escreveu, a defendeu ou quanto a quem ela, eventualmente seria aplicada?

Acaso o juiz (ou o professor enquanto tal) prejudicou algum(a) homossexual disparando sobre as suas preferências sexuais?

Consta que não. Então a que vem esta cabronada, este coro de uivos à lua?

 

A sehunda questão que me põe os cabelos em pé é a reacção absolutamente racista (e eventualmente fascizante...) á vida do tenente coronel Marcelino da Mata.

Como ele era preto (e eu insisto nesta palavra “preto”, e não africano ou negro, pelas razões que adivinham) "preto da Guiné", teria por força de combater contra os colonizadores, contra os “portugas” na Guiné.

Alguém pode apontar-lhe “crimes de guerra”, crimes que por isso mesmo, ultrapassem as pouco recomendáveis acções que em tempos de conflito armado acontecem? Alguém, sobretudo entre os senhores militares puros, heroicos, exemplares, democratas desde o berço ou até antes (desde a concepção, quando um anjinho avisou as futuras mães que eles já vinham vestidos de Galaaz, directos da Tavola Redonda , destinados a descobrir o Graal da liberdade para as colónias - sobretudo as portuguesas- ), nunca cometeu, nos momentos em que combatiam na mata nenhum deslize, nunca omitiu nenhum acto impróprio, nunca mandou para a morte certa um pobre galucho vindo directamente das berças para o inferno africano?

Eu não vou – mas poderia- nomear ninguém desses que, ao fim de muitos anos de combate entenderam pôr fim à contenda, poderão ter um passado muito, pouco, assim-assim, comprometido com o regime que serviram desde os tempos da Academia Militar.

Eu não vou comentar – mas poderia, e com toda a facilidade! – as vidas e opiniões de muitos cavalheiros, paisanos que, em seu momento de militância mais exaltada, uiularam que Stalin (ou Mao ou Lenin) "estava nos seus corações", enfebrecidos pela miragem da ditadura do proletariado, da revolução cultural do prodigioso centralismo dito democrático, do culto ao sol na terra e outras inanidades que encheram o mundo de campos de escravos e as valas comuns de cadáveres esquecidos.

É provável que na turbamulta dos indignados haja gente de boa vontade e incapaz de, num momento de maior lucidez, fazer o julgamento apressado e sumário que nestes casos sempre pode ocorrer. É tão fácil ceder ao estereótipo do preto bom e do branco mau. É tão fácil dividir a nossa história africana entre bons e escuros e maus pálidos e soberbos.

A história pregressa da Guiné (mas podíamos, sem qualquer dificuldade, acrescentar-lhe Angola ou Moçambique) mostra como o país “de Amilcar Cabral” não é exactamente (nunca foi) uma espécie de heroico Vietnam africano e que todos os seus naturais estavam do lado bom da História.E que os seus líderes  (que se combatem e combateram, que se exilaram para a pátria do opressor,  são exemplos seja para quem for?

Ou, como em Angola, foi possível o “nitismo”, o sangrento “anti-nitismo”, a guerra fratricida, a corrupção no coração do Estado e uma valente dose de racismo de todas as cores. Ou, como em Moçambique, foi possível levar a julgamento sumário muitas das figuras que encheram as prisões do tempo colonial e que no tempo da liberdade foram enviadas para campos de correcção, de onde regressaram para, depois de desaparecido Machel, reintegrarem os órgãos de direcção da Frelimo. Tudo isto, durante um cenário pavoroso de guerra civil, de fome, de abandono dos mais desprotegidos que são sempre as vítimas dos regimes que enchem a boca de povo para melhor o cuspirem para a valeta.  

Eu não vou agora indagar se todos os militares ditos “de Abril” tem as mãos (e as cabeças) inteiramente limpas de sangue africano inocente. A guerra, o medo, a angustia, a necessidade de disparar primeiro para não ser morto, tem muito mais força do que aquela que eu, que nunca me vi em tais assados, posso imaginar.

Também não vou chamar à colação o eminente acto de profunda cobardia que foi o de sequestrar o negro Marcelino da Mata e torturá-lo como eventualmente a pide torturaria os resolutos anti-fascistas que o fizeram. Não foi caso único, depois do 25 A, como não foram casos únicos algumas prisões de “capitalistas”, de “terra-tenentes” e outros cúmplices do antigo regime. Os momentos de exaltação revolucionaria convocam em nós o melhor e o pior de que somos capazes.

Também, para voltar ao primeiro caso, não vou absolver o juiz e professor das “tolas” opiniões que agora o perturbam. Mas também não vou dar-lhes especial importância, sequer relevo capaz de o afastar de um Tribual onde já está há anos

Tento apenas, agora que sou mais velho e mais tolerante e menos propenso a uivar com os lobos ou a balir como os cordeiros, perceber. Perceber, perceber.

É que, cada vez tenho menos certezas e mais dúvidas., Cada vez vejo um passado que vivi e de que, até o momento, julgo ser uma testemunha que tenta ser lúcida, falseado por juízos apressados, muito fruto do ar do tempo e pouco da reflexão.

 

 

 Ó Portugal, se fosses só três sílabas,...

se fosses só o sal, o sol, o sul,...

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós . . .

 

*na vinheta: mácaras transmontanas cuja origem se perde no tempo e que talvez possam esconjurar a estupidez fominante que grassa no torr\aozinho de açucar. Assim seja!

 

 

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