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Incursões

Instância de Retemperação.

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estes dias que passam 562

d'oliveira, 05.03.21

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Os dias da peste 194

Dr. Costa: prudência sim,

malabarismos, não!

mcr, 5 de Março

 

 

Eu tenho pelo dr. António Costa um misto de simpatia e de admiração. Que a criatura é simpática e esfusiante, como compete a um cavalheiro gordinho, não há dúvida. Além do mais é inteligente. E habilidoso.

Demasiado habilidoso, por vezes, mas esse é um pecado venial da política.

Agora deu uma longa entrevista ao “Público” que mereceria ser mais escrutinada do que vou fazer. Aliás, apenas tenciono pegar na sua rigorosa prudência e no que está subentendido na narrativa que faz, ou deixa implícita, sobre a sua governação nos últimos seis meses.

É verdade que todos, todos sem excepção, estamos a lidar com algo de absolutamente inusual que nos caiu em cima. A última grande pandemia foi há um século e já não há quem a tenha vivido com tempo para perceber o que se passava.

Eu percebo perfeitamente que o Governo português tenha “andado à nora” com o cataclismo que se anunciava há exactamente um ano. Ainda por cima, Governo e país andavam extasiados com o dinheiro fácil do turismo que entrava a rodos e punha meia cidade de Lisboa a correr com os inquilinos e a dedicar-se entusiasticamente a ao alojamento local.

Convém, aqui, dizer que, pela parte que me toca e à minha família, talvez por termos vivido numa estância balnear que rebentava pelas costuras no Verão e se apagava nove meses por ano, não nos deixámos maravilhar. Dos nossos prédios os inquilinos só costumam sair de pés para a frente. Com uma excepção de uma doida que, depois de lhe permitirmos mudar de casa dentro do mesmo prédio para um apartamento que vagara e fora todo reabilitado (sempre ao mesmo preço do arrendamento anterior) entendeu, ao fim de meia dúzia de meses, informar o meu plácido irmão que iria abater cem euros na renda!

Abater abateu, mas comeu logo com uma acção de despejo que ganhámos sem esforço. Melhor, como o contrato era a termo certo, também não lho renovámos, pelo que a sentença judicial caiu na mesma altura em que o arrendamento findava.

Não nos entusiasmámos nem choramos agora, pelo facto de alguns inquilinos recentes e comerciais estarem em mora. Não é que o dinheiro não nos dê jeito mas eles foram bons pagadores até ao desastre e se tudo correr bem sê-lo-ão no futuro. Não seremos nós quem os vai afundar ainda mais. Isto não é generosidade mas mera solidariedade. Mais dia mnos dia esta desgraça terá fim e até lá dormimos todos em paz e a noite inteira.

Voltemos, porém, ao dr. Costa. Ao contrário de outros Governos europeus, talvez não tenha havido por cá a mesma prudência, as mesmas medidas fortes, a mesma previsão. Havia poucos casos e o turismo tinha que ser defendido.

Não serei eu que atire a primeira pedra às medidas tomadas até ao Verão.

Ou melhor, teria sido mais avisado começar a pensar n hipótese das vacinas e fazer o que vários outros fizeram: um plano de vacinação. Como se lembram, fomos o último país a ter tal coisa e a tê-la atabalhoadamente. Com um responsável irreflectido e toleirão que mais parecia uma agente eleitoral do que alguém que devia trazer a calma e as vacinas. Claro que essa criatura caiu graças a si própria, por incúria, por não saber o que no hospital onde também estava colocado se faziam malabarismos vacinais estrondosos. De todo o modo, já desandou. Paz à sua alma e que tenha muitos meninos pela barriga da perna.

O que gravemente me incomoda é a história do Inverno, melhor dizendo do Natal. É verdade que não fomos o único país a consentir num Natal quase normal como os de antigamente. É verdade que o Natal tem fortes tradições em Portugal. É verdade que uma atitude mais severa traria consequências em matéria de popularidade. É verdade que a oposição de Sua Majestade também não foi suficientemente aguerrida na defesa de medidas mais prudentes. (convém, no entanto, salientar que no capítulo covid o PPD tem sido cordato e colaborante com o Governo e, porque não?, sensato).

Mas, lá fora, muitos governos não cederam ao populismo e , de certo modo, fecharam o Natal, ou abriram-no muito menos. Mas lá fora e cá dentro, foram muitas as vozes que clamavam por mais prudência. E nesse vozear cabe mencionar a grande maioria das vozes científicas! Houve mesmo quem na televisão antecipasse um estrondoso número de infecções e de mortes.

Vir agora dizer, que o inverno foi frio, que a variante inglesa é pérfida como a celebrada Albion, ou que as pessoas são descuidadas, abusadoras umas ingratas... é o cúmulo da desfaçatez e uma tentativa de atirar com poeira para os nossos olhos e as mortes para debaixo do tapete.

Deixemo-nos de truques: Com um Natal mais apertado e medidas mais claras e duras, Janeiro não deixaria de ser eventualmente mau mas nunca seria o que foi: um atestado de irresponsabilidade e de estupidez. Aos Governos pede-se que governem, ponto parágrafo. A nenhum Governo se pode permitir que se venha esconder atrás da irresponsabilidade de alguns, muitos ou muitíssimos.

A culpa destes dois meses horribilis cai fundamentalmente em quem não previu, não actuou não preveniu e não fez. Ponto, parágrafo, outra vez!

É claro que agora, o dr. Costa faz peito e mesmo perante um cenário felizmente menos feio ou eventualmente mais promissor, vem severo e inflexível avisar que nem pensem em facilidades até à Páscoa.

O sr. Primeiro Ministro habilidosamente faz-se prudente tanto quanto antes o não foi. E com essa cambalhota deve julgar-se a salvo de uma futura prestação de contas. Tem as costas quentes graças à geringonça que mesmo com desentendimentos lá vai salvando o essencial. Dispara sobre os “extremismos” mas parece não perceber que isso, esses movimentos inorgânicos que dão voz grossa a um malabarista de Direita são muitas vezes, quase sempre, protestos de quem vê que não tem voz para protestar contra um estado de coisas de que o PS se aproveita. (O PS e os outros todos, aliás).

Claro que o dr. Costa não é o Trump. Ou o Bolsonaro que é uma imitação grosseira do anterior. Mas no que respeita à criação de verdades artificiais não lhes fica muito atrás. E a sua navegação à vista tem sido um pouco de fraqueza diante dos fortes e força diante dos fracos.

E nem sempre a coisa lhe corre bem.

Por exemplo, ao clamor da sociedade civil e dos muitos adeptos das candidatura municipais independentes parece que vai recuar e desistir de um maquiavélico plano para ganhar na secretaria e com exigências extravagantes as eleições municipais. Bastou a ameaça de se criar um fictício partido que amparasse os independentes que, lembremo-nos, tem de eleição para eleição ganho de forma concludente e contundente. E nos locais onde concorrem, até a abstenção desceu!

O dr. Costa, cuja sorte se decidiu numa noite em que apareceu derrotado e humilhado ficou a dever a uma declaração de Jerónimo de Sousa, a ressurreição política. Ainda há pouco tempo, lhe tem de agradecer a vitória tangencial no Orçamento. Agora, que o PC   uma candidatura própria a Lisboa, tem pela frente um adversário difícil. O dr. Moedas veio de Bruxelas aureolado por uma reputação de bom trabalho. Apresenta-se como candidato abandonando o lugar bem apetecível de administrador da Gulbenkian. Nada garante que vá ganhar mas são poucas e trémulas as vozes que o dão como perdedor.

Veremos que trunfo Costa tira da manga para manter Medina que, de resto, tem sido eficaz e sensato.

PS: não faço ideia se Rio se opõe ou não a Carreiras em Cascais. Este autarca tem um trabalho que fala por ele. E tem os apoios das comissões concelhia e distrital. Atirá-lo para a independência é seguramente perder Cascais. Assim se vê que como Costa, rio tem problemas e não são poucos. É bem feito.

 

A vinheta: uma leitora perguntou-me se tenho álbuns de exposições. Demasiados, respondo eu, “uma fortuna” réplica a CG apontando para a parte baixa da estante carregada de edições do Moleiro, da CM editores, da Dianne de Selliers e da Siloé. “Antes nos livros que na farmácia!”, reponto sem especial convicção.

Ai os livros, leitora amiga, são uma perdição.