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Incursões

Instância de Retemperação.

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estes dias que passam 563

d'oliveira, 06.03.21

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Os dias da peste 193

“les temps sont difficiles...”

mcr, 6 de Março

 

Antes que alguém, em alta grita me censure o (ab)uso de um título (aliás dois) de Leo Ferré, apenas pretendo dizer que as coisas vão difíceis para quem, mesmo em tempos de pandemia, queira fazer prevalecer algum bom senso nos disparates que a ociosidade faz nascer como cogumelos.

Ora vejamos

A câmara Municipal do Porto decidiu há uma boa desenha de anos aceitar a proposta de erguer um memorial aos combatentes da última guerra em que Portugal esteve metido e comprometido: a guerra do ultramar, colonial ou de África (façam o favor de escolher a palavra que preferem sem nunca esquecer o essencial: houve uma guerra, houve mortos, houve feridos, há vítimas que ainda hoje se sentem perseguidas por fantasmas, medo, remorso, angustia...)

Faço parte da geração que viveu a guerra. No meu caso não fui combatente, escapei quase milagrosamente, à tropa o que não me impediu de sentir essa guerra como também minha. Perdi amigos e conhecidos de ambos os lados, fui incriminado por alegadamente ter simpatias por um dos lados mas safei-me, outra vez com alguma sorte, muita prudência e cuidados redobrados da acusação possível de ter ajudado cidadãos portugueses a fugir à guerra. Ou seja, para prevenir zarolhos, arrisquei o coiro mais do que alguns, quase todos, os que subitamente resolveram agora mostrar a sua coragem e combatividade contra um memorial em honra dos soldados portugueses que, com ou sem vontade, andaram perdidos pelos sertões africanos. Em poucas palavras terão sido um milhão, no mínimo. Entre eles, dezenas de amigos meus, de colegas de escola ou da faculdade que não tendo tido a minha sorte (e também alguns outros azares que povoaram os meus anos sessenta e parte de setenta) tiveram que cumprir dois anos, normalmente mais, o famoso “matabicho” combatente naquelas plagas africanas sempre com o coração aos saltos, à espera de um tiro, de uma emboscada, enfim da eventual morte. Vi-os regressar calados e nervosos, vi-os tentar aclimatar-se à paz e à família, às namoradas e às esposas, divorciei, como advogado e amigo, vários. E ouvi-os, longas, longas horas a desfiar recordações, a conter as lágrimas, a calar o inenarrável.

Neste blogue não foram poucas as vezes que referi essa tragédia que testemunhei. E contra a qual lutei e por sisso sofri as consequências.

Isto para dizer, claramente dito, que lições de anticolonialismo não as recebo de ninguém e muito menos dos escassos nomes que a notícia de hoje no Público refere.

Pelos vistos, o “equânime” jornalista entende que uma dúzia de criaturas em cumprimento de uma agenda partidária e em carência de aventuras mais interessantes, tem direito a gastar três quartos da reportagem. Do lado “mau” apenas se refere a CMP e um promotor (Luís Cabral) da associação que pretende homenagear os que lutaram na guerra de África.

Veio-me à memória o memorial dos combatentes no Vietnam onde em longas placas de granito estão inscritos os nomes dos cinquenta e tal mil mortos americanos dessa guerra. Como é sabido, foi a América ela própria quem mais lutou contra uma guerra que ofendia todas as suas memórias. A guerra perdeu-se primeiro nos campus universitários, nas violentas manifestações de rua, na crescente mobilização da opinião pública americana (a única que realmente contava).

No caso português conviria lembrar que a guerra foi popular durante alguns, bastantes, anos. Acabou com o golpe militar levado a cabo pelos que de certo modo a tinham aguentado (nem valeria a pena citar Spínola ou Costa Gomes que tiveram importantes cargos de chefia em África e depois no Governo de Marcelo Caetano. E com eles centenas de outros cidadãos civis ou militares que depois apareceram triunfantes de cravo ao peito...mas isso é uma outra história...)

A guerra de África deveria ser discutida? Claro que sim mesmo se já se vá tarde para recolher milhares de testemunhos de civis e de militares portugueses e africanos. A lei da vida está a reduzir perigosamente o número de actores ainda vivos.

O regime saído do pronunciamento militar de Abril não se preocupou especialmente com esta questão e os partidos, todos os partidos, sem excepção, também não se mostraram demasiadamente interessados em analisar um conflito que marcou, e nem sempre nobremente, centenas ou milhares de militantes seus. Aliás, e valeria a pena relembrar, depois das guerras de libertação” nos países africanos, sucederam-se outras bem mais trágicas, muitíssimo mais violentas com perdas humanas incalculavelmente superiores, que também escondem ou ocultam as hostilidades terminadas em 1974. Não foi por acaso, que Portugal acolheu em vagas sucessivas, dirigentes políticos e militares de todas a ex-colónias sem excepção. Alguns ainda estarão vivos mas a grande maioria morreu no território da antiga metrópole contra a qual lutaram.

Mas mais uma vez, isso é outra história. Uma História com letra grande que pelos vistos cá ninguém quer conhecer quanto mais discutir.

De facto, o que está a dar é um pequeno memorial que responde quanto muito ao luto dos familiares dos mortos e, eventualmente ao desejo de recordar dos que ainda estão vivos e lutaram em África.

E que ainda há dois ou três anos desfilaram perante o Presidente da República no dia 10 de Junho. Onde estavam os que agora protestam por algo menos “imperial” e mais perto do sentimento popular de luto pelos que morreram e da História que, queiramo-lo ou não, é a nossa História? São atitudes como estas que dão origem a outras mais ou menos simétricas que, por exemplo, negam a veracidade dos fornos crematórios, dos campos de extermínio e de uma política pensada para exterminar aos chamados povos “inferiores”, ou seja o “revisionismo” . Depois espantam-se, incomodam-se, aterrorizam-se com a chegada barulhenta de partidos que querem “reportugalizar” Portugal. Arre!

* na vinheta: alguns livros sobre a guerra colonial. Os restantes (a maioria) estão nas secções dedicadas a cada colónia  onde houve luta armada. Era demasiado trabalho estar a procurar tudo, a juntar e de novo a distribuir pelas estantes originais.Detodo o modo estes chegam e tenho forte suspeita que são mais do que os lidos (se alguma vez leram algum) pelos revisionistas  negaionistas da guerra e dos seus efeitos em Portugl.