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Incursões

Instância de Retemperação.

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estes dias que passam 564

d'oliveira, 07.03.21

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Os dias da peste 196

Entradas de leão...

Ou: um polícia demasiado virtuoso

mcr, 7 de Março

 

Não odeio a polícia mas confesso que não faço parte dos seus entusiastas. Ponhamos que a considero um “mal menor”. Isso deve-se a uma batalha que durou em 1958 3 1974. Batalha que perdi vezes sem conta e de que os meus fracos lombos muitas vezes se ressentiram. A culpa, claro, foi sempre minha. Quem me mandava alinhar em manifestações que o paternal poder estatal e a doçura dos nossos costumes desaconselhavam? Os famosos “safanões dados atempo” senti-os e de que maneira! E quantas vezes! E em várias geografias! Se bem recordo apanhei bordoada em Berlin, Paris, Madrid e pasme-se!, em Pescara, pacífica e amável cidade nas margens do Adriático. Culpa minha, repito, mea culpa, mea máxima culpa.

No país natal recordo inglórias manifestações em Braga, Porto, Aveiro, Coimbra e Lisboa e numa praia algarvia mas pela polícia marítima que nos apanhou um pequeno grupo de rapazes e raparigas, à noite, e entretidos em práticas ofensivas dos bons costumes. Graças a um familiar de gente importante a coisa ficou por ali sem consequências, exceptuado o facto das donzelas terem sido conduzidas, manu militari, a casa dos parentes onde teão sido copiosamente “admoestadas” o que é uma injustiça de todo o tamanho já que os mancebos foram mandados à sua vida sem mais problemas.

Portanto, entre mim e as forças policiais, todas sem excepção (brigada de trânsito, incluída), antigas e modernas ou já extintas, existe um estado de trégua desconfiada e vigilante, uma espécie de guerra fria que a memória não apaga.

Ora, para começar o folhetim, li no Publico que um agente da PSP virtuoso mas veemente anti-racista, entendeu qualificar o deputado Ventura de “aberração”. E, para aproveitar o balanço e o entusiasmo proclamou, sempre na mesma rede social, “decapitem estes racistas nauseabundos que não merecem a água que bebem”.

As chefias policiais suspenderam o fogoso agente e ter-lhe-ão instaurado um processo disciplinar. Entendem, as respectivas, autoridades que não se deve chamar aberração um deputado e muito menos apelar à justiça popular no sentido de cortar a gargantinha das criaturas racistas. Cai mal. Aliás, a pena de morte em Portugal já era. Ou quase, como basta lembrar o emigrante branco e loiro e vindo da do Leste abatido por uns zelosos agentes de outra polícia nacional, nossa.

Convenhamos que a decapitação é um método ultrapassado, mesmo se normalmente se destinasse à nobreza que também já viveu melhores dias. A vilanagem era enforcada, método mais brando, mais limpo e menos custoso.

Pelos vistos este animoso incitador das justas lutas populares usava sempre uma linguagem impressiva, vibrante mesmo se um pouco sanguinária e ameaçadora. Todavia, desta feita, o inquérito injusto e inadequado das chefias que não respeitam o direito à opinião nem a justa ira dos virtuosos, levou a que depois das entradas de leão já descritas o agente tenha, em sua defesa, optado por saídas que o povo, sempre ele, qualifica de ...sendeiro.

Afinal afirma que: “em momento algum quis ofender ou decapitar alguém no verdadeiro sentido da palavra” (convenhamos que entre ofensa e assassínio vai alguma diferença que para o outro se reveste de certa importância)”mas apenas transmitir que é necessário decapitar as ideias racistas que prejudicam a a sociedade em geral” (ideia audaciosa mas de difícil concretização dado que as ideias, normalmente imateriais, não dão o pescoço à faca assim, de mão beijada)

Disse também que “não queria referir em concreto o deputado Ventura mas sim muitas ideias (outra vez!)que o mesmo já expressou publicamente” E refere, pudera não!, que “já apagou a publicação para não gerar um mal entendido” (assim se verifica que não queria ameaçar mas simplesmente mal entender...)

Tambem terá “tentado contactar (o dito Ventura)para esclarecer que não lhe desejava mal e pedir desculpa (upa, upa!!!) caso a sua publicação o tivesse ofendido” (só mesmo alguém de maus fígados é que poderia pensar que ser acoimado de “aberração” é uma ofensa, Nada disso. Isto é como aquela extremosa mãe que chamava o filhinho querido “ó filho da puta vem para a mesa que a sopa ainda fica fria!).

A cereja no bolo: “afirmou-se arrependido da forma como se expressou” e disse que “em nenhum momento ofendeu o senhor deputado, nem lhe desejou a morte nem lhe chamou racista”

Ota toma lá esta e embrulha!

Na parte da decapitação propriamente dita explicou que era no contexto em que várias estátuas estavam a ser vandalizadas” tentando mostrar que era errado destruir o nosso património histórico”.

Neste ponto, como provavelmente em muitos outros, mas isso carece de mais estudo, o polícia “decapita” a cretinice daquele deputado que teria preferido algum (muito?) sangue no 25 A e a demolição do padrão dos descobrimentos.

Os polícias, já o confessei não estão no meu coração como Stalin estava no coração de variados grupos maoístas nos bons tempos em que alardeavam a sua frágil força nas ruas de Lisboa e Porto entre os anúncios de mais PREC e de golpe e contra-golpe. Tudo isso foi chão que deu muita parra e pouca uva mas que , de quando em quando como nos vulcões adormecidos se guinda à superfície em fumarolas fugazes.

Como aliás, se pode extrair de incendiárias proclamações e arrevesadas teorias sobre o racismo, vindas directamente de um português naturalizado e de uma professora universitária, também eles anti-racistas de pura gema e colegas (ou ex-colegas) do “arrependido” agente a contas com a hierarquia.

Devo, pessoa de maus fígados e rancorosa que sou, dizer que esta defesa tosca do agente é demasiadamente pueril, contraproducente, eu diria imbecil mas não quero ofender. Que as convicções sejam elas quais forem se defendem caso se tenha espinha dorsal e não andemos a vozear ameaças armados em carapaus de corrida.

Eu até nem sei se tudo isto não me dá uma infinita pena do agente apanhado em contramão devido ao seu estilo literário demasiado florido.

É que, castigado ou não, vi ser o alvo da chacota de muita má gente e vai, por algum tempo, prejudicar quem, de facto, abomina o racismo e as suas estpidas e aberrantes manifestações.

Entretanto o deputado Ventura deve rejubilar. Às tantas ainda vem depor a favor do agente como parece ser o caso da senhora Gomes arrolada pelo mesmo como testemunha abonatória....