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Incursões

Instância de Retemperação.

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estes dias que passam 584

d'oliveira, 28.03.21

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Saída precária 14

Ler Mao Zedong

mcr, 28 de Março

 

 

Há muitos anos, uma vida!, estávamos a viver a década de sessenta, deu-me um ataque de icterícia política que durou até perceber que a revolução cultural era um embuste sanguinolento com consequências ainda mais trágicas  do  que as anteriores campanhas (as “mil flores” e, em mais horrendo, o “grande salto para a frente” exemplo) que, ao invés de progresso, tinham trazido empobrecimento e fomes temíveis.

Ocorre dizer que nesse tempo juvenil e crédulo, Mao Zedong chamava-se Mao Tse Tung  e ainda não tinha mandado liquidar os seus mais próximos camaradas de armas que o tinham acompanhado na “longa marcha” e criado a partir de muito pouco um proto-Estado comunista nos confins da China.

Os pc europeus eram de estricta obediência soviética mesmo se já não vigorasse o Komintern. Segundo uns construíam o futuro radioso e livre de capitalistas e quejandos, segundo outros tinham-se aburguesado e a chama revolucionaria mais parecia um círio gasto num enterro pobre. Em Portugal, aparecia a “FAP” (frente de acção popular, uma frente de massas desprovida das mesmas e precedendo hereticamente o “partido” o, o verdadeiro claro).

Todavia a coisa, esta, entusiasmou alguns crentes, crédulos e fartos da linha rígida e oficial do PC e dos desastres que alguns trânsfugas e outros arrependidos tinham provocado nas fileiras não demasiado numerosas das otganizações de juventude comunista. A PIDE prendia a torto e a direito e o descalabro era manifesto e repercutia-se nas associações e pró-associações de estudantes. Um naufrágio que, em Coimbra, se traduziu em três longos e malbaratados anos de comissões administrativas governamentais na Associação Académica.

Eu nunca fora quadro do PC. Razões de vária ordem e uma em especial: andara em colégios internos o tempo suficiente para não suportar controlos de qualquer espécie (e ainda por cima de uma capacidade teórica abaixo do medíocre!). Era todavia, um “compagnon de route” disponível e belicoso, farto de viver num país bisonho, tristonho sob a férula de um ditador cada vez mais isolado do mundo.

Por isso, que não era nada pouco, embarquei entusiasmadíssimo no verdadeiro caminho. Não foi uma longa viagem, não. Os defeitos visíveis no sovietismo acabaram por ressuscitar sobre outras vestes no orientalismo maoísta. A “grande revolução cultural e proletária” tinha no “pequeno livro vermelho” o seu mais claro exemplo de inaptidão intelectual e, já agora, “marxista”.

Entretanto, à semelhança do que me acontecera com Marx e Engels, Lenine & outros lá fui lendo as obras mais populares de Mao e, nomeadamente, os seus textos sobre a “guerra revolucionária”(que curiosamente eram publicados – como muitos dos autores anteriormente citados – por editoras francesas que nada tinham a ver com a oficial do PCF (editions sociales) e eram muito mais bem apresentadas.  

Ora na citada peça sobre a “guerra revolucionária” e especialmente sobre a guerrilha, Mao dizia  mais ou menos isto (cito de cor e à distância de sessenta anos) “o revolucionário move-se no seio das massas como o peixe na água”.

Tudo isto vem a propósito do que se passa no norte de Moçambique. Haja alguém que tente explicar-me como é que uma coisa abjecta que se reclama do Estado Islâmico” faz  o que quer numa zona tão ampla que inclusive entra em povoações importantes do interior e, agora, atinge a costa, como é o caso de Palma.

Então Moçambique não tem um exército, não consegue enviar, para essa região, um par de batalhões desses que já fizeram a longuíssima e dura guerra civil ? 

Note-se que estamos a falar de uma zona extremamente importante devido ao gás natural onde operam empresas estrangeiras.

Claro que algum malicioso poderia começar a tentar encontrar razões para perceber como é que, em pleno território makonde, os elementos insurgentes se movem tão à vontade. O mesmíssimo malicioso iria (desta vez maldosamente) procurar a eventual raiz de conflitos entre estas populações e a FRELIMO, pois dos noticiários ouve-se vezes sem conta que os “bandidos armados” proferem ameaças ao partido quase único e monopolista.

E descobriria que, desde que a exploração do gás começou e, com ela a chegada de técnicos estrangeiros, os preços aumentaram vertiginosamente, o custo da habitação disparou, a pobreza idem. E descobriria mais um par de coisas que poderiam reflectir o descaso em que as populações são tidas pelo governo longínquo e prepotente, pelas elites corruptas que se locupletam à custa das populações miseráveis que ainda não viram nada do progresso que todos lhes auguram.

E se o/a interessado/a quiser ir mais longe, valeria ap ena escavar nas histórias assaz confusas do que aconteceu logo no início do Estado moçambicano. E na eliminação de dirigentes exteriores à FRELIMO. Por todos conviria recordar o nome e a figura e a acção de Lazaro Nkavandame dirigente makonde.

Em boa verdade, Moçambique, mesmo antes da independência viu desaparecer notáveis combatentes (o mais famoso dos quais terá sido filipe Magaia, morto por um guerrilheiro “agente dos portugueses”...) e depois, quando a FRELIMO chegou a Lourenço Marques /Maputo , há notícia de violentas dissensões que, em alguns casos acabaram com a morte, o confinamento no Norte a prisão em campos de reeducação de muitos independentistas. Após a morte de Machel, esses acusados regressaram e alguns passaram directamente da prisão para as mais altas instâncias partidárias!

Voltando ao tema: no Norte agem grupos sanguinários que matam em nome de Alah e contra a FRELIMO. Pelos vistos deslocam-se sem dificuldade, provavelmente as suas bases estão em território moçambicano ou então tem uma mobilidade extraordinária para ir e vir da Tanzania...

Curiosamente ninguém tenta ir um pouco mais longe na análise desta situação trágica que já deslocou mais cem mil camponeses e os condena à fome e ao exílio interno.

Se Mao tem razão, os guerrilheiros/bandidos armados nadam livremente no seio das massas e degolam sem contemplações quem se lhes opõe ou é suspeito. Entretanto a tropa moçambicana faz o quê?

 

Na vinheta: prendas bem posteriores à minha aventura maoísta onde se nota a mão irónica do Manuel Sousa Pereira que mas terá dado todas! O que ele nunca esperou foi que eu as aceitasse e exibisse em cima das estantes de História (no caso grega e romana)

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