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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

estes dias que passam 593

d'oliveira, 14.10.21

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Morra Sansão e quantos aqui estão

mcr, 14.10.21

 

 

A Bíblia é sempre uma boa leitura, tanto mais que religiosos w ateus aí pescam em conjunto e sem problemas. Convenhamos que, por cá, neste risonho país de natos e de heróis, a Bíblia não é exactmente, uma leitura popular. Não foi durante a Reforma e Contra-Reforma, por evidentes razões. À uma a tradução luterana causara um tal alvoroço nos países centro europeus que as autoridades civis e religiosas portuguesas, entenderam proteger a grei de preocupações inúteis.

Em boa verdade a medida não tinha um grande alcance. O povo era crassamente analfabeto e muito propenso a milagres locais e rápidos e devotava uma ilimitada e semi-pagã devoção à Virgem e a um par de santos que ainda hoje merecem farta credibilidade.

Depois, no caso de alguma leitura mais inconveniente lá estava a Santa Inquisição e a inveja dos concidadãos para pôr o criminoso no seu lugar.

Do lado do clero também não havia grande perigo: os padres eram apenas ligeiramente menos analfabetos do que os elementos do rebanho que pastoreavam e sentiam-se confortáveis no seu labor espiritual; pouco trabalho vida regalada que o Pópulo queria salvar a alma das penas infernais.

Sansão, era conhecido e até vagamente santificado como o comprova o largo que em Coimbra, mesmo diante da Igreja abacial de Santa Cruz, tem o nome do herói de Israel.

E a expressão com que intitulo o folhetim prova isso, porquanto perde-se no tempo, a origem dela e a sua passagem a citação popular.

O meu encontro com Sansão deve-se, uma vez mais, à benignidade dos porteiros do cinema peninsular na Figueira da Foz. A garotada entrava de borla desde que as respectivas mãe fossem ao cinema.  No nosso caso, como as maternidades se instalavam no balcão nós enfiávamo-nos nos camarotes que eram perpendiculares ao ecrã. Devemos ter começado aí a estragar os olhos mais a cavalo dado não se olha o dente. E foi assim que travei conhecimento com o cavalheiro em questão. Adorei, claro. Teria nove dez anos,, apaixonei-me loucamente pela Angela Lansbury (um papel mais ou menos secundário) mirei atentamente a gloriosa Heddy Lamarr e nunca esqueci a cena em que ela, agente malvada dos filisteus (ou quem quer que fosse) atirava figos (ou ameixas) ao Victor Mature, o Sansão em questão, actor de grande físico e que tinha a sensibilidade artística de uma cafeteira usada e sem asa.

Seis ou sete anos depois, li uma bíblia que ainda tenho, oferecida ao meu avô por um pastor protestante em África. E dei-me conta que o episódio nem sequer era dos mais gloriosos, visto que Sansão, embeiçado pela Dalila (Lamsrr) se deixara cortar os cabelos, sede da sua força e ficara escravo dos inimigos. Depois o cabelo cresceu, Dalila deve ter ido à sua vida, e Sansão destruiu o tempo onde sacrilegamente se conspurcava a fé e o bom nome de Israel, soltando a tal frase já citada. E morreu, claro, debaixo das ruinas que a sua força causara.

 

Ora bem, isto, esta recordação antiquíssima vem a propósito da discussão orçamental. Pelos vistos os dos parceiros menores da Geringonça ameaçam votar contra. Ora como não se vislumbra que o Centro-Direita e a Direita votem a favor, o Governo cai redondo.

A queda deste Governo, nestas circunstâncias, será sempre identificada como uma traição dos dois comparsas (PC e BE) e o PS provavelmente, tirará daí algum resultado. À uma poderá receber votos desse campo que eventualmente discordarão do derrube do Governo.

Que o Orçamento não parece ser genial é um facto incontroverso: a dívida aumentará, as despesas agora anunciadas não são despesas que morram este an mas continuarão a pesar para o futuro e isso pode criar sérios problemas. Do que li, do que já ouvi, parece não haver uma grande ambição sobretudo quanto à criação de algum desenvolvimento capaz, autónomo e gerador de empego. Queira-se ou não, são as empresas privadas as que produzem riqueza, as que exportam as que, por isso, poderão ser fonte de emprego. Todavia, ainda nem sequer pude ter acesso a pormenores mais detalhados pelo que me fico por aqui.

Por outro lado, é verdade que o PS tenta atrair um ou ambos os parceiros do costume com uma série de medidas que não serão fortíssimas mas que acautelam e melhoram a situação das pessoas. Isso é claríssimo. Poderá não ser suficiente mas é uma ajuda. E porventura inicio de um caminho de tentativa de reduzir desigualdades. Não será o ideal mas, que diabo, há para as classes mais desfavorecidas, mais do que um gesto, uma pequena ajuda.

E imagino que esses milhares de eleitores, pais e mães de família, se sintam roubados se sequer esse pequeno bodo aos pobres for enjeitado  pelo habitual maximalismo do PC e sobretudo do BE.

Por outro lado, estes partidos, saíram duramente penalizados desta última eleição, prova provada que os eleitores começam a cansar-se. Provocar uma crise, agora, parece-me uma jogada não de poker mas de lerpa, jogo menos cuidado e com menos hipóteses.

Suponho que o poker estará, nas mitologias arcaicas da nossa arcaica Esquerda, associado à América, pátria de todo o mal e do capitalismo. Daí desconhecer-se a subtileza desse jogo, e preferir-se coisas mais terra a terra,  mas mais perigosas.

Eu sei, basta-me ter ouvido ao longo de todos os anos que este Governo já conta, que a táctica é sempre a mesma. Gritaria, vestes rasgadas, juras emocionadas de rompimento do noivado e depois, no momento certo, lá vem mais um amparo envergonhado, disfarçado por algo  que terá ocorrido nos bastidores e que será na voz magoada mas perdoadora dos críticos, uma importante vitória do proletariado.

Porém, agora, a voz engrossou. O finca-pé parece mais evidente, as posições mais extremadas. Até Jerónimo de Sousa, saiu à escada em vez de como de costume deixar a coisa num par de rapazes hierarquicamente menos importantes. Da Sr.ª Martins pouco há a dizer. Ela, aliás, só é importante se o PC votar mesmo contra. Se não é irrelevante. O discurso do BE é o mesmo de sempre e a única coisa que o torna mais importante é a eventual atitude do PC.

E todo o modo, estes dois partidos tem muito a perder, e pouco ou nada a ganhar.

Não sou profeta, não sei ler o futuro, mas não creio que as pessoas que estão penosamente a siar de uma crise horrenda, aceitem que o país ande agora durante uns meses ao Deus dará. E sobretudo isto ocorre nas zonas mais urbanizadas onde o BE ainda consegue ter alguma votação.

Portanto, Sansão se resolver deitar abaixo o palácio de S. Bento, que se cuide: ainda algo lhe pode cair na cabeça.

E, só para terminar: quem tirará algumas castanhas do lume será o PPD que, em caso de eleições provocadas por desentendimentos na geringonça, sempre arrecadar´alguns votos a mais. Não será suficiente para expulsar o PS do poder. Mas poderá dar-lhe alguma hipótese de chegar a acordos vantajosos com o PS que, não se arriscará sem mais a voltar a estender a mão adunca aos parceiros que de too o modo o incomodaram e puseram numa situação difícil e mais arriscada.

Claro que nisto tudo, nesta pobre metáfora da Bíblia, há sempre a hipótese de Dalila dar uma volta à história e aparecer como salvadora do pobre gigante cabeludo. E nesta história, tantos anos depois, eu que consegui ver “Extase”, um belo filme de 1933 com Heddy Lamarr, fiquei sempre um seu fiel e agradado admirador. Vejam o fotograma, leitores, e depois digam-me que estou errado...

 

Em tempo: Heddy Lamarr foi uma excelente actriz, muito senhora do seu nariz, inventora premiada que, inclusive, participou no esforço de guerra americano, durante a 2ª guerra. Além do mais, austríaca de nascimento, era corajosamente anti-fascista, no tempo em que isso queria realmente dizer alguma coisa.