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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

estes dias que passam 595

d'oliveira, 17.10.21

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De repente, a verdade

(a verdade, a áspera verdade, Danton)

mcr, 17.10.21

 

 

A pandemia parece estar mais ou menos vencida. Pelo menos entre nós.

Por muito extraordinário que tal pareça, a direcção banal (e digo banal por excesso de generosidade e porque hoje é domingo) do Ministério da Saúde, saiu, pelo menos aos olhos de alguns, reforçada. A ministra apressou-se a integrar os quadros do PS, e há mesmo quem lhe vaticine um grande futuro. E bem precisa dele, porque passado, o que se chama passado é pequeno, medíocre quase sempre e espalhafatosamente ideológico no mau, pior, sentido da palavra.

A vitória sobre a dramática situação que vivemos em Janeiro (foi só há nove/oito meses) deve-se a 99% a dois factores; a extraordinária dedicação, o sacrifício, mesmo, dos corpos sanitários (médicos, enfermeiros, técnicos de saúde, auxiliares e outros não especificados) e à formidável logística montada pelo almirante e os seus 32camaradas militares (e pelos civis que eventualmente com eles trabalharam) que conseguiram revertar uma situação horrenda num êxito que, pelos visto, e bem, o mundo nos admira.

É bom lembrar que o primeiro responsável pela task force foi uma mediocridade que ao longo dos anos tem passado de alta função em alta função sem deixar qualquer rasto que o distinga. Um enorme erro, um escândalo num hospital de que, além das funções na task foce, era dirigente, obrigou-o a sair pela porta de trás. Saiu e não deixou saudades mas apenas um rasto baboso de pequenas situações mais que controversas e a mostra cabal que não servia para a missão.

Eu quase diria que num dia, vá lá numa semana tudo mudou. Tudo, a começar pela complacência com irregularidades de todo o género que muitas vezes não passavam de uma corrida desenfreada a vacinas antes de outros mais necessitados e em risco de morte. Não vou (mas podia pois tenho boa memória) aponta nomes e funções administrativas, autárquicas, políticas de muito espertlhaço (e espertalhaças que também não foram poucas, provando que no capítulo da sem vergonha a igualdade de género está plenamente alcançada). Basta-me lembrar a calma mas forte determinação do vice almirante ao declarar que não admitia tais manobras e a notícia de que iria ser entregue ao MP a respectiva denúncia. Com o entusiástico apoio dos profissionais e a absoluta aceitação cidadã, a vacinação correu como ninguém esperava.

Esta foi a grande vitória do combate sanitário. Todavia, os hospitais foram obrigados a adir e a cancelar milhões de actos médicos desde consultas a cirurgias. Havia que fazer escolhas e elas ter-se-ão feito e podemos pensar que, na generalidade foram percebidas pela população e mesmo pelos doentes. Seguramente que morreu gente, nem era de esperar outra coisa mas, lamentando as eventuais mortes, este país deu, por uns meses o aspecto de país organizado, eficiente, generoso, e sensato. Se fomos ou não os melhores da europa ou do mundo, interessa-me pouco. Fomos, isso sim, um país claramente civilizado, decente, ordeiro, disciplinado.

Entretanto, agora, que o pior terá já passado, o SNS começa a mostrar sinais de absoluto esgotamento, de falhas cruciais, de crise violenta. Hoje mesmo, os jornais, ou, como de costume, apenas o “Público” traz(em) um texto de página inteira com o título “SNS, um apelo: Salvaguardar e reforç<r, transformando” (p 8, Público). O teor do texto assinado prr umas dezenas de pessoas das quais, à primeira vista apenas conhecerei meia dúzia, é um claro sinal de que a actual política seguida tem de ser urgentemente corrigida. Melhor: é uma condenação mal disfarçada de anos e anos de descuido de má gestão, de incapacidade, de fanatismo e sectarismo, na direcção dos assuntos de saúde.

Não vou dar-me ao trabalho de resumir o texto, quem quiser que o leio no jornal ou via internet.

Por várias vezes e na veste de simples cidadão, já aqui aflorei um par de temas sobre esta questão. Procurei não meter foice em seara alheia mas apenas apontar um par de situações que, seja qual for o ponto de vista, brada(va)m aos céus.

A simples ideia de que é desta esta ministra que se espera uma leitura do manifesto é algo que me apoquenta. O que aqui vem, são verdades como punhos – mesmo que eu possa aqui e ali discordar – e esbarram em tudo o que a ministra tem dito. Ou em muita coisa. O que quase vem dar ao mesmo.

Este país, ou melhor quem o dirige, caiu, há muito no facilitismo, no empurrar com a abarriga, no adiamento de soluções, na incapacidade de reformar o que quer que seja.

Agora, e no capítulo da saúde é o que se vê, demissões em cascata de responsáveis clínicos de vários hospitais, noticia de impossibilidade de varias especialidades funcionarem sequer mediocremnete, fuga de profissionais para o execrado sector privado o tal que só vê cifrões na ultrajante e imbecil acusação de certa Esquerda que, entretanto se ai doente corre para os mesmos hospitais que despreza.

Eu, por mais voltas que dê, não consigo perceber como é que o sector privado prospera, abre hospitais por todos os lados, concorre vantajosamente no que toca a administração hospitalar (lembremos os resultados surpreendentes das PPP que foram acabando). Não se pode falar apenas do milhão de utentes da ADSE (mal tratados pela administração da mesma, meros burocratas nomeados pelo Governo que não põe lá um cêntimo que seja mas envia gente sua para controlar e como prémio de fidelidade partidária) ou dos cidadãos que, desconfiados (e com cada vez mais razão) além de pagarem os seus impostos ainda pagam seguros de saúde. Bem se vê a confiança que depositam no SNS e sobretudo, na rapidez de resposta deste.

Não se veja neste texto o que nele claramente não está. Sou favorável ao SNS muito antes dele existir. Bastavam-se certos exemplos estrangeiros, nomeadamente o britânico e tudo o que, nos anos de chumbo já circulava como proposta desde o relatório das carreiras médicas até à intervenção de Miller Guerra, entre muitos. Essa altura havia esperança e ideias. Agora, pelos vistos, a esperança murchou e as ideias dentro do Ministério, passaram à clandestinidade.

Mas a Ministra essa está, pelos vistos, em alta. Deixem-na estar que quando cair há de fazer mais estrondo. O problema é saber quando e como. Que seja antes do último estertor do SNS é o meu voto.

*a vinheta: eu bem queria ter arranjado uma imagem mais expressiva da gigantesca (e tranquila) afluência aos centros de vacinação. Esta foi a que saiu. Provavelmente procurei mal, como de costume. Nós, os info-excluídos, somos assim. Ou, pelo menos, eu sou assim: desajeitado e trapalhão.          

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