estes dias que passam 605

Guardado estava o bocado...
mcr, 28-11-21
Há muitos, demasiados, anos um dos meus parceiros de bridge, João Gama, amigo desde Coimbra e dos tempos do CITAC, militante da ala social-democrata do PPD, explicou num intervalo entre dois “rubbers” o que o partido pensava de Rui Rio que se tinha apresentado como candidato surpresa à Câmara Municipal do Porto: “vocês não sabem nem metade da história. O Rio é, para grande parte do partido, um chato. Um tipo que vai contra muitos interesses instalados, teimoso quem duas mulas espanholas. Agora que vai ter pela frente o Fernando Gomes, vai finalmente afocinhar. E duma penada, po partido fica livre dele e dos da mesma laia.”
Como se sabe, se é que ainda alguém se lembra, Rio atirou Gomes para as cordas e ganhou por mais duas vezes e por maioria absoluta a Câmara do Porto. Na hora da despedida ainda conseguiu empontar Meneses e fazer eleger Rui Moreira. Depois, ganhou o PPD e andou estes anos pelas ruas da amargura, coisa que ocorre muito com quem está na oposição. Em Portugal, estar fora do Governo é uma cruz, um desastre, um horror. Não tem poder, ninguém lhe liga nenhum, não tem cargos para distribuir, suscita invejas, mal entendidos, suspeitas e pequenos ódios. Tudo internamente, já se vê. No caso do PPD/PSD a coisa piora porquanto há desde sempre baronias históricas que se digladiam forte e feio.
Eu, em boa verdade, não aprecio Rio seja por que ângulo for. Porém, sempre lhe reconheci algum faro, muita perseverança e inteligência q.b.
Portanto, quando assisti, com alguma surpresa, ao desafio de Rangel, um homem culto, com muito mundo, bem falante, com provas dadas no Parlamento europeu, não me attevi a dar o prélio por acabado antes de começar. À imagem desgastada de Rio opunha-se estoutra mais fresca de alguém com talento para escrever, à vontade nas televisões e nos debates, algumas ideias que, não sendo novas, pareciam pelo menos frescas.
Todavia, a história pregressa do incumbente que vinha lastrada de vitórias começadas ainda na associação de estudantes da Faculdade de Economia, que não vivia da política (e este ponto importa...) suscitava-me uma dúvida permanente sobre quem seria o vencedor.
É verdade que para o PPD/PSD estas directas vieram no pior momento. E nisso, Rio tinha alguma razão. Porém, deixar para depois a resolução da questão parecia ser ainda pior (um ponto a favor de Rangel).
Ao meu genro confidenciei que a ter algum palpite este caía mais para Rio mas sem que isso tivesse qualquer razão de fundo a não ser uma certa e conhecida ojeriza aos aparelhos partidários.
E Rio somou mais uma vitória! Curta, é verdade, mas vitória. Com uma consequência que não é despicienda; do lado de Rangel apela-se a um cerrar de fileiras pois há, mesmo que distante, alguma hipótese de bater o PS.
De certo modo, como me diz W, um dos velhos, velhíssimos amigos e cúmplices de outros carnavais políticos, o BE e o PCP tinham a mesma desconfiança: apontaram desde cedo as espingardas contra Rio como se quisessem dizer que Rangel era mais confiável. Note-se o verbo “se quisessem”. Se era ou não isto não vale a pena discutir. À vista desarmada, o que me parece é (pelo menos para mim...)
A tarefa interna de Rio está facilitada. Conhece as pessoas, as situações locais, pode preparar com tranquilidade (alguma, pelo menos) os dois meses que se avizinham. Não creio que vá ter, para já, muita rsistência interna. À vista da carniça ou, pelo menos, da sua hipótese, até os urubus se acalmam e e concordam em esperar para ver.
Costa, se porventura se lembra do malogrado Fernando Gomes, que se acalme. Cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal nem a doentes nem a sãos. As eleições, apesar do suicídio da Esquerda mais dura não estão ganhas. Ou não estão ganhas à altura das ambições do PS. A líder do BE ainda ontem vinha prevenir contra algo que de perto ou de longe se parecesse com um bloco central. Alguma coisa a senhora percebeu ao longo destes anos. Tarde, provavelmente, pois teve a possibilidade de emendar a mão e não permitir a crise.
Se tudo ocorrer como poderá ser mais previsível, as perdas quase certas do BE e do PC poderão equilibrar as que, também muito previsíveis, o PS sofrerá ao centro. Por outro lado, a menos que o “povo de Direita” seja mais burro do que por vezes parece, há a hipótese de haver uma vaga de voto útil à Direita. Com duas consequências: reforço do PPD/PSD e não enchimento do Chega. As bravatas de Ventura começam a cansar alguns dos seus apoiantes. Há, ou parece haver, alguma erosão no partido. Gá, também, muito poder pessoal demasiadamente concentrado e isso pode ter consequências. N caso do CDS a loucura do rapazola que o dirige poderá desviar votos muito naturalmente para o PSD/PPD. Aos liberais não parecem ser alternativa e o discurso virulento do Chega afecta os democratas cristãos (se ainda por lá andam).
O que, se tudo isto for certo, só confortará Rio.
E a pandemia, a falta de matérias primas, as dificuldades em quase todos os sectores industriais também ajudam mais Rio do que Costa.
A ver vamos como dizia o cego.
(nota: aprovei, como sempre fiz, aliás, os dois comentários de leitores ainda sobre a vexata quaestio da ministrada saúde. Nada tenho a acrecentar ao que já disse e que está escrito. Os comentários, julgo, podem ser integralmente lidos (comoalguém mais sabedor do que eu me informou) sem necessitar de os trazer ao texto do folhetim.
Eu não exerço qualquer censura sobre o que os leitores, amavelmente ou não, tem a dizer. Isto é um espaço de liberdade onde a censura não põe, pela minha mão, o pé negregado. Para censura bastaram-me os anos em que o que escrevia na Vertice ou no Comércio do Funchal era afundado pelo lápiz aul. Acho que 90% da minha pobre produção naufragou nessas águas. E o pior é que nemcópias tenho pois umpequeno incêncio em casa levou isso que não era senão sentimentalmente importante e duas gavuras de Picasso asinadas e numeradas (ai...) além de outra de outros cavalheiros menos importantes e menos caros.